Em Batman:
o cavaleiro das trevas, Frank Miller mostrou
todo o paradoxo existente entre o Homem Morcego e o Homem de Aço. Batman
representa as trevas; Super-Homem, a luz. Ambos, no entanto, são homens
cujas vidas, devido a diferentes motivos, se resume ao combate ao crime. No
caso do Super-Homem, isso é quase como uma pré-destinação.
Alienígena, dotado de imensos poderes e criado com carinho e dedicação
ímpares por Martha e Jonathan Kent, o caminho do herói seria algo
a surgir quase que inevitavelmente na vida de Clark Kent. Já a “vocação”
do jovem Bruce Wayne aflorou quando ele presenciou o assassinato de seus pais.
Bastou um dia ruim para que a vida de Wayne mudasse para sempre.
Um dia ruim. Para
o Coringa, isso é tudo o que é necessário para transformar
a vida de uma pessoa. Não só isso, mas basta um dia desses para
que uma pessoa completamente sã perca toda a sua sanidade e adentre os
caminhos sem volta da loucura. Basta uma tragédia para que uma pessoa
prefira o conforto da loucura ao tormento das lembranças daquele dia.
E é disso,
essencialmente, que se trata a aclamada Batman: a piada mortal,
escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Bolland
(que criou talvez a mais icônica imagem do Coringa), com cores de John
Higgins. Até então, o Coringa era um homem sem passado.
Nada se sabia da vida do Palhaço do Crime antes dele aparecer em Gotham
City cometendo suas atrocidades e atormentando a vida de Batman. A obra de Alan
Moore trata não só de criar uma origem, e conseqüentemente,
uma dimensionalidade maior ao personagem, como de aproximá-lo do leitor.
A partir daquele momento, o Coringa deixa de ser o vilão maniqueísta
que até então fora, para se tornar um personagem mais humanizado,
de forma que quase dá pra entender o porquê dele ser quem é
e fazer o que faz. Mas estou me adiantando.
A piada
mortal começa com uma visita de Batman ao Asilo Arkham,
o sanatório para criminosos insanos de Gotham. O vigilante vai ao Asilo
para visitar o Coringa, tentar conversar com o Palhaço do Crime e colocar
um ponto final na longa história de ódio que existe entre esses
dois homens. Para a surpresa do Homem Morcego, no entanto, o Coringa fugiu do
Arkham e colocou outra pessoa em seu lugar. Quando descobre o ocorrido, Batman
sai atrás do vilão.
Enquanto
isso, no entanto, o Coringa já está colocando seu plano à
prova. Ele quer mostrar ao Batman que até mesmo a mais sã das
pessoas pode enlouquecer. Assim, decide fazer uma visita ao comissário
Gordon. Quando a filha adotiva do comissário, Bárbara (ex-Batgirl,
atual Oráculo) atende a porta, recebe um tiro que parte sua coluna. Enquanto
os comparsas do Coringa espancam o policial, o Palhaço do Crime despe
Bárbara e tira diversas fotos dela naquela situação, com
a coluna partida e, provavelmente, sofrendo algum outro tipo de abuso por parte
do criminoso. (Isso, no entanto, não fica claro na trama e é apenas
uma especulação da minha parte).
Com isso em mãos,
o Coringa leva Jim para um parque de diversões, onde tortura o comissário
psicologicamente, mostrando-o as fotos de Bárbara. Seu objetivo é
enlouquecê-lo, provando a todos, especialmente ao Batman, que não
é preciso muito – apenas uma grande tragédia pessoal – para que
uma pessoa perca sua sanidade. E que é apenas isso que separa o vilão
de todas as pessoas. Todas menos Batman. Afinal, segundo o criminoso, foi exatamente
isso que fez com que Batman decidisse vestir a fantasia de um morcego e sair
combatendo o crime nas ruas. Coisa que corresponde a mais pura verdade.
Paralelamente,
vemos o “dia ruim” do Coringa. Ex-funcionário de uma fábrica química,
o futuro Coringa era um comediante frustrado que decide cometer um crime para
poder dar uma vida mais digna à sua esposa grávida e seu futuro
filho. A idéia é que, se passando pelo criminoso Capuz Vermelho,
ele leve dois criminosos mequetrefes através da fábrica química,
com o objetivo de assaltar a empresa vizinha, uma fabricante de baralhos. As
coisas começam a dar errado quando, no dia planejado para o assalto,
sua esposa morre eletrocutada em um acidente doméstico. Sem motivos para
seguir seu plano, o vilão acaba sendo coagido por seus novos sócios
a se ater ao combinado. Na hora da ação, no entanto, os planos
do bando são frustrados pelos seguranças da empresa e por Batman.
Os dois criminosos são baleados enquanto que o homem que se passava pelo
Capuz Vermelho acaba entrando em pânico ante a presença de Batman
e pula em um tonel de produtos químicos. Sai de lá com a pele
branca, os cabelos verdes, lábios vermelhos e completamente enlouquecido.
A piada mortal
é uma história que quebra diversos paradigmas dos quadrinhos.
Antigamente, a relação herói-vilão era simplista.
O herói é a representação do Bem e, o vilão,
a do Mal. Com o passar do tempo, especialmente depois da revolução
proposta por Stan Lee, Jack Kirby e companhia
na década de 60, essa relação mudou um pouco. O maniqueísmo
e a relação Bem x Mal ainda estão lá, mas o herói
deixa de ser um ser perfeito e passa a apresentar problemas e conflitos internos
comuns à qualquer pessoa. O vilão, por sua vez, torna-se um ser
um tanto quanto mais complexo, apesar de sua importância ainda se manter
inferior à do herói. Mas ainda é ele, o vilão, que
extrai do herói o que ele tem de melhor e faz com que ele supere seus
limites no intuito de subjugar seu antagonista.
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Em A piada
mortal, Moore explora a psicologia de Batman, Coringa e do comissário
Gordon. Todas as tramas paralelas apresentadas no gibi acabam tendo Gordon como
seu referencial e é o comissário que concentra a maioria das perguntas
que surgem após a leitura da revista. Afinal de contas, se basta um “dia
ruim” para levar a sanidade de uma pessoa, porque o mesmo não aconteceu
com Gordon? Porque é que Wayne se transformou no Batman, aquele ex-comediante
no Coringa e o comissário escapou ileso? Qual é essa força
interna que fez com que Gordon resistisse tão bem ao seu “dia ruim” e
que faltou a Wayne e ao Coringa?
Alan Moore também
brinda seus leitores com um raro momento de sanidade do Coringa, onde ele praticamente
admite que é covarde demais para tentar superar sua condição
e que prefere a segurança da loucura ao tormento que aquelas recordações
lhe trariam. Mais raro ainda é ver Batman não rindo, mas gargalhando
de uma piada contada pelo Palhaço do Crime já no fim da história.
É preciso
ressaltar, ainda, a qualidade não só da trama quanto do roteiro
de Moore. As passagens que mostram as recordações do Coringa são
extremamente bem feitas e mesclam passado e presente de maneira brilhante. A
utilização das cores de John Higgins para criar atmosferas climáticas
e ressaltar não só essas transições como também
as seqüências mais calmas ou violentas são outro ponto positivo
da obra.
A segunda metade
da década de 80 nos trouxe obras referenciais do Homem-Morcego. A piada
mortal, ao lado de Batman: ano um e da supracitada O cavaleiro
das trevas está entre uma das mais importantes histórias
já estreladas pelo Homem Morcego. Mesmo que nesse caso ele passe apenas
de um coadjuvante, já que em A piada mortal o protagonista é
o Coringa.
Em 1989, A
piada mortal foi agraciada com os mais importantes prêmios da Indústria
de Quadrinhos, o Will Eisner Awards (melhor escritor, desenhista
e álbum gráfico) e o Harvey Award (melhor história,
álbum gráfico, desenhista e colorista).
Precisa dizer que é uma história indispensável para qualquer um que seja não só fã do Batman, mas de quadrinhos de heróis em geral?