Considerada a primeira revista periódica de histórias em quadrinhos a trazer
histórias inéditas dedicadas a um único gênero, a Detective Comics
surgiu em março de 1937, trazendo histórias policiais de personagens como
Speed Cyril Saunders, Mr. Moran, Capn Scum, Cosmo,
Slam Bradley, Captain Burke, Gregory Billingwater, Taro,
Bret Lawton, entre outros. Isto já lhe traz uma grande distinção no
mercado de quadrinhos, ao qual se acresce o fato de ser a mais longeva publicação
da área, tendo sido publicada regularmente desde seu lançamento até hoje.
No entanto, seu destaque eleva-se a uma altura muito maior quando se considera
a reviravolta trazida por uma personagem surgida no número 27 dessa revista,
o Batman, também chamado Cruzado de Capa, o grande responsável
pela longevidade do título.
Sabe-se hoje que o Batman foi resultado de uma decisão editorial, que engajou
os criadores da Detective Comics Inc. na busca de um herói que pudesse dar
prosseguimento ao sucesso do Super-Homem, que havia sido lançado alguns
meses antes no primeiro número da revista Action Comics. Ainda que
durante muitos anos a glória pela autoria do Homem-Morcego tenha sido
atribuída apenas ao seu primeiro desenhista, Bob Kane, posteriormente
outros nomes foram elevados a esse panteão, reconhecendo-se a importante contribuição
inicial do escritor Bill Finger e do desenhista Jerry
Robinson para a constituição de um dos maiores ícones das histórias
em quadrinhos norte-americanas. Desta forma, pode-se afirmar que o Batman
surgiu atendendo a demandas de público corretamente identificadas pela indústria
editorial de quadrinhos norte-americana, que forneceu aos leitores a personagem
que eles desejavam e, desta forma, conseguiu ampliar o mercado de quadrinhos
de uma forma antes inimaginável.
O Batman não tem poderes especiais, mas é muito preparado, forte e inteligente;
não é guiado por um ideal utópico de justiça, mas muito mais por um espírito
de vingança pela morte dos pais nas mãos de assaltantes; e combate alguns
dos vilões mais pitorescos e imaginosos dos quadrinhos de super-heróis, como
o Coringa, o Pinguin, o Duas-Caras, a Mulher-Gato,
o Charada, o Espantalho, entre outros.
Além dos pontos acima assinalados, também é possível afirmar que o sucesso
do Homem-Morcego esteja ligado ao fato dele agregar uma série de elementos
presentes em séries de sucesso da época, nos mais variados meios de comunicação.
Dos pulps ele buscou inspiração na revista The Spider, que em
seu número de novembro de 1935 incluiu um Bat Man na história
Death Reign of the Vampire King. Do cinema ele aproveitou o artifício
da dupla identidade de um herdeiro de classe alta, utilizado por Douglas Fairbanks
em A Máscara do Zorro, de 1920; também do meio cinematográfico veio
a inspiração para o bat-sinal, utilizado pelo vilão da película The
Bat, de 1926, que, ao projetá-lo na parede de uma determinada casa,
anunciava que ali residia sua próxima vítima. Do rádio veio o ambiente sombrio
predominante em séries como The Shadow (1930-1954) e The Green Hornet
(1936-1952). E, dos quadrinhos, foi marcante a influência da série The
Phantom, de Lee Falk, com quem Batman guarda muitas semelhanças (a
morte do pai, o juramento de vingança e a máscara que faz desaparecer os olhos,
entre outras).
De uma certa forma, é quase como se, na criação do Batman, seus autores tivessem
buscado o que havia de mais interessante em outros personagens e midias e,
fazendo um mix de todos esses elementos, proposto uma figura muito superior
à soma dessas partes. Deu certo. Em pouco tempo, principalmente após o aparecimento
do jovem Robin, em abril de 1940, o personagem foi crescendo em termos
de popularidade, dando vazão a seriados cinematográficos, série televisiva,
filmes de longa metragem, desenhos animados, jogos e brinquedos de todos os
tipos, etc.
Nos quadrinhos, o crescimento da personagem foi vertiginoso, segundo nos
conta Will Brooker em Batman unmasked (p. 35-36): Durante os primeiros
anos da existência de Batman a personagem provou ser um grande sucesso comercial,
como é indicado pelo lançamento de sua revista própria no início de 1940,
uma tira sindicalizada em 1943 e mercadorias relacionadas tais como um Batplano
em papelão para montagem e adesivos auto-colantes, para não falar da extensão
com que sua fórmula foi imitada por outros editores de quadrinhos.
Durante as suas várias fases, o Batman passou por diversas mãos, entre roteiristas
e desenhistas, que garantiram sua permanência ininterrupta nos quadrinhos,
desde sua criação em 1939. A partir dos anos 80, o prestígio do personagem
disparou ainda mais alto com sua participação nas graphic novels e
minisséries mais importantes das últimas décadas.
Fixando-nos nos primeiros 40 anos desta personagem emblemática dos quadrinhos,
vários criadores merecem ser mencionados, podendo-se destacar, além dos já
mencionados, nomes como os de Dick Sprang, Gardner
Fox, Carmine Infantino, Dennis O´Neil e
Neal Adams, entre outros. Cada um deles acrescentou elementos
à caracterização da personagem, até que ele atingisse o aspecto sombrio e
misterioso de hoje, predominante desde a década de 80. Vejamos a seguir as
principais características do trabalho desses autores.
Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson
Considerado durante muito tempo o único pai do Batman, Bob
Kane aproveitou esse privilégio quanto pode, beneficiando-se o mais possível
de sua fama. Na realidade, ele foi durante muito tempo o coordenador do trabalho
com a personagem, tendo prestígio suficiente para ser o único a receber créditos.
Seu estilo de desenho, como menciona Jules Feiffer em seu livro The great
comic book heroes, combinava traços do estilo de desenho de Terry
and the Pirates com vilões no estilo de Dick Tracy, e.g., O Coringa,
O Pingüim, A Mulher-Gato, O Espantalho, O Charada, O Cara-de-Barro, O Duas-Caras,
Dr. Morte, Hugo Strange. Seu maior mérito estava no envolvimento que
tinha com a personagem, que o tornava crível aos olhos dos leitores, criando
uma atmosfera atraente e original para o público consumidor. O estilo de Kane
era marcado por um aspecto cinematográfico, apresentando-se abundante em angulações
que anteciparam trabalhos cinematográficos realizados posteriormente a ele.
Bill Finger foi chamado por Bob Kane para auxiliar na criação da personagem
logo em seu começo, dando algumas sugestões ao segundo para melhorar a aparência
do herói. Ele também escreveu muitas das primeiras histórias do Batman, sendo
creditado pela criação de vários dos mais importantes vilões, como a Mulher-Gato,
o Duas-Caras e o Cara de Barro, a maioria deles derivados
da paixão deste autor por livros de mistério. Sua presença junto ao Homem-Morcego
foi imprescindível para a formação da personalidade da personagem, garantindo-lhe
um misto de Sherlock Holmes, Doc Savage e The Shadow.
Além do Batman, ele também criou histórias para Green Lantern
e Wildcat, além de ter elaborado muitos episódios para séries
televisivas de sucesso. Faleceu em 1974, sendo hoje considerado um dos maiores
roteiristas que se dedicaram às histórias em quadrinhos no mercado norte-americano.
Em julho de 2005, durante a convenção de quadrinhos de San Diego, será concedido
a um roteirista de destaque do mercado atual de quadrinhos o Bill Finger
Award for Excellence in Comic Book Writing, representando uma merecida
homenagem a esse grande autor de quadrinhos, falecido em 1974.
Jerry Robinson reuniu-se à equipe de criadores do Batman logo nos seu início,
ainda bastante jovem, atuando como assistente para Bob Kane. Isto não impediu
que colocasse sua marca na personagem, desenvolvendo vários aspectos do herói,
e que, inclusive, criasse alguns personagens famosos, dos quais o mais importante
é sem dúvida o Coringa, criado em parceria com Bill Finger, cuja caracterização
gráfica Robinson desenvolveu para o primeiro número da revista Batman,
publicado em 1940; também foi ele quem desenvolveu o companheiro do herói,
o jovem Robin, surgido no mesmo ano de 1940, no número 38 da revista Detective
Comics. A partir de 1941, quando Kane se afastou por um tempo da equipe
de criação das revistas do herói para se dedicar às tiras de jornal, Jerry
Robinson passou a ser o principal artista do Batman, embora sem ter seu nome
nos créditos. Com uma frutífera e ainda ativa carreira nos quadrinhos, Robinson
trabalhou com personagens de várias editoras, como Green Hornet,
da Harvey; Atoman, da Spark, Black Terror, da
Nedor; Vigilante e Johnny Quick, da National,
entre outras.
Dick Sprang, Gardner Fox e Carmine Infantino
Dick Sprang juntou-se ao grupo de criadores do Batman em 1941, ilustrando
as histórias escritas por Bill Finger e permanecendo ativo com essa personagem
até 1963, quando se aposentou. A maior parte desse tempo, vivia no Arizona
e enviava seus desenhos para a editora por correio. Em 1955 assumiu os desenhos
de outra publicação do herói, World´s Finest, em que este dividia o
protagonismo com o Super-Homem, a outra estrela da editora. Com um desenho
fluído, recebendo grande influência de autores como Chester Gould, mesclava
brilhantemente caricatura e ilustração, de uma forma que parecia perfeita
para as histórias da personagem, dando-lhes muita fluidez e um ambiente acolhedor.
Para muitos estudiosos, foi definitiva para a caracterização do herói a forma
meio atarracada com que ele o idealizou, dando-lhe caráter, drama e personalidade.
Ainda que muitos fãs hoje em dia virem a cara para esse tipo de formulação
gráfica, entendendo-a como ultrapassada, não se pode negar que foi o trabalho
de Dick Sprang, principalmente com a arte-final de Charles Paris, que deu
consistência à personagem, fazendo com que esta sobrevivesse com o mesmo nível
de popularidade entre os leitores durante várias décadas.
Gardner Fox trabalhou brevemente como roteirista das histórias do Batman
durante o seu início, em 1939, abandonando-o logo em seguida, para
se dedicar a dezenas de outros personagens de quadrinhos em sua longa e prestigiosa
carreira na área; durante esse breve período, foi responsável pela criação
do Doutor Morte e pela introdução de dois apetrechos do herói que depois
se tornaram bastante familiares aos leitores, o batarangue e o batplano.
Retornou ao personagem em 1964, a pedido de Julius Schwarts, retomando alguns
vilões esquecidos da década de 1940, como o Charada e o Espantalho,
influenciando e sendo influenciado pela série televisiva da personagem, cujo
primeiro episódio foi baseado em uma história sua. Infelizmente, abandonou
a editora em 1968, juntamente com outros autores, quando tiveram negadas pela
editora suas pretensões em relação à extensão do benefício de um seguro-saúde
para os artistas da casa.
Carmine Infantino assumiu os desenhos do Cruzado de Capa em 1964, por solicitação
de Julius Schwartz. As capas que ele preparou para a revista Detective
Comics agradaram bastante ao editor, que lhe solicitou que fizesse modificações
na caracterização visual da personagem: assim, Infantino ampliou o tamanho
das orelhas do Morcego, acrescentou uma espécie de nariz na máscara, aumentou
o comprimento da capa e incluiu um círculo amarelo em volta do desenho do
morcego, no peito do herói, aspectos que caracterizaram o herói durante mais
de uma década. As modificações foram bem recebidas pelo público, que respondeu
com um aumento de consumo das revistas do herói, o que, aliado ao lançamento
da série com Adam West e Burt Ward, colaborou para que a personagem permanecesse
na ativa durante mais tempo. Durante um tempo, Carmine Infantino esteve também
à frente da tira diária do herói, mas não conseguiu dar conta desse trabalho,
abandonando-o para se dedicar apenas às revistas. Em 1967, em roteiro de Gardner
Fox, ele introduziu a personagem Batgirl na história The Million
Dólar Debut of Batgirl, agradando os produtores de TV, que aproveitaram
a personagem regularmente no seriado do herói.
Dennis O´Neil e Neal Adams
Talvez a mais famosa dupla de criação das histórias do Batman seja formada
por esses dois autores, que juntos proporcionaram aos leitores alguns dos
melhores momentos de toda a carreira do herói, destacando-se a criação daquele
que se transformaria em um de seus maiores inimigos, o imortal Ra´s Al
Ghul, e o retorno do palhaço do crime, o Coringa, a sua plenitude
inicial como personagem, resgatando o aspecto assustador que este tinha em
seu início e extrapolando ao máximo seus rasgos de loucura.
O estilo naturalista de ilustração de Neal Adams casou muito bem com os roteiros
de O´Neil, fazendo com que as histórias da personagem retornassem ao ambiente
sombrio que tinham as tinham caracterizado no início de sua criação, em 1939,
abandonando o aspecto infantil que havia sido sua marca registrada após a
2a. Guerra Mundial. O trabalho desses dois autores praticamente estabeleceu
a personalidade definitiva do Cruzado de Capa, que foi posteriormente aprofundada
e desenvolvida por Frank Miller, em O Cavaleiro das Trevas.
Dennis O´Neil foi promovido à posição de group-editor das revistas
do Batman em 1986, ficando responsável pela supervisão do universo do herói
e impondo-lhe a sua visão pessoal. Neste papel, O´Neil criou uma série de
diretrizes que deve ser seguida por todos os artistas envolvidos com as históris
do Homem-Morcego, coletadas em um documento por ele denominado de Bat-Bible,
estabelecendo a interpretação definitiva para as razões e procedimentos da
personagem. Com esta iniciativa, que ele implementou apenas três meses depois
de assumir o cargo, ele conseguiu dar consistência a todas as aparições do
Cavaleiro das Trevas, não apenas nas revistas por ele protagonizadas mas também
naquelas em que aparece como convidado. Mesmo aqueles autores que conseguem
ser bem sucedidos em apresentar o Homem-Morcego em situações inusitadas, que
fogem de suas características regulares, devem faze-lo a partir do ponto de
vista de O´Neil, justificando o desvio da norma quase como que uma licença
poética. Dennis O´Neil aposentou-se da função em fevereiro de 2001, mas continua
a colaborar com a DC Comics como consultor editorial e a escrever histórias
para as diversas personagens da editora.
O Batman como um modelo bem particular de super-herói
Granjeando fãs em todos os países e gerando controvérsias de todos os tipos,
tanto por seus aspectos sombrios como por sua visão particular de justiça
- que nem sempre se enquadra no que poderia ser considerado como politicamente
correto ou ser enquadrado dentro dos aspectos legais da profissão, tão valorizados
por outros heróis -, o fascínio do Batman permanece vivo e continua
cativando os leitores mais diversos, graças tanto àqueles autores que estabeleceram
sua legenda como aos que os seguiram, que a ampliaram para espaços inimagináveis.
De uma certa forma, ele representa o aspecto contraditório e meio paranóico
dos super-heróis, que facilmente podem resvalar para uma visão chapada do
mundo, ou, pior ainda, para o puro e simples autoritarismo. Ainda assim, como
uma personagem característica do gênero super-heróis, ainda que caminhando
de forma às vezes claudicante nesta tênue linha divisória, ele no geral consegue
se manter fiel às suas origens, graças ao rígido controle que sobre ele é
exercido pela editora norte-americana, consciente de que as suas características
representam o seu maior fascínio aos olhos do público. Até agora, pelo menos,
conforme pode ser testemunhado pelo sucesso das diversas versões cinematográficas
e em animação do herói, nada leva a crer que a visão da editora esteja errada.