De repente – ainda que isso devesse ter sido racionalmente
previsto –, um dos maiores ícones da área deixou de existir fisicamente. Vítima
de complicações decorrentes de uma intervenção cirúrgica a que se submeteu
no final de dezembro de 2004, William Erwin Eisner faleceu em 3 de
janeiro de 2005.
Os jornais e publicações especializadas se enchem
de panegíricos ao autor. A internet reproduz centenas de louvações ao grande
artista desaparecido, enfocando os diversos aspectos de sua arte e da grande
figura humana que nos deixou. Artistas de todas as procedências e estilos,
contemporâneos ou influenciados por ele, relatam suas experiências de contato
pessoal com o produtor gráfico e dão um testemunho do prestígio que ele granjeou
entre seus colegas de profissão. Leitores de todos os quadrantes do mundo
procuram formas de manifestar o seu pesar pela perda de um de seus maiores
ídolos, relembrando suas grandes criações e a influência que estas tiveram
em suas vidas e em seu gosto pela leitura de histórias em quadrinhos.
Nada mais justo. Não é sempre que se perde um gigante.
E Will Eisner era um gigante. Ou talvez mais. Ele era um colosso. Uma lenda.
No entanto, mais que, ainda que justificadamente, lamentar
a ausência do grande Mestre, parece ser mais importante refletir sobre o seu
impacto na área, sobre aquilo que ele construiu ao longo de seus 87 anos de
uma vida totalmente dedicada à produção e divulgação da arte gráfica seqüencial.
Foi ela a sua grande paixão. É ela a sua grande herança.
Em sua longa carreira, Will Eisner perpassou
por todos os aspectos das histórias em quadrinhos, dos mais simples aos mais
complexos, dos mais humildes aos mais considerados socialmente. No tempo em
que se iniciou na produção de quadrinhos, ele atuou intensamente como fornecedor
de material quadrinhístico a uma grande variedade de editoras comerciais,
por meio da S. M. Iger Studios – mais conhecida no meio quadrinhístico
como Eisner-Iger Studios -, empresa de produção de quadrinhos que ele
fundou em parceria com seu amigo Jerry Iger. Trabalhando intensamente,
Eisner alimentou a então nascente indústria, exercendo um papel vital na disseminação
e popularização das revistas de histórias em quadrinhos em seu país. Com sua
equipe – da qual fizeram parte artistas como Bob Kane, Lou Fine,
Jack Kirby, George Tuska, Bob Powell, entre outros
–, ele constituiu uma linha de montagem para uma verdadeira fábrica de HQs,
estabelecendo o modelo para vários outros estúdios semelhantes e moldando
a sistemática de produção de gibis nos Estados Unidos para
as décadas seguintes. Na empresa, Iger era responsável pela parte comercial,
enquanto Eisner tomava conta do aspecto criativo, como conta Robert C. Harvey:
Eisner presidia a partir de uma mesa
de desenho situada em um extremo de uma ampla sala; outros artistas sentavam
em mesas que se alinhavam junto às paredes da sala. Em sua mesa, Eisner rascunhava
histórias com lápis azul não fotográfico em folhas de desenho, quebrando a
ação, elaborando o leiaute das páginas, esboçando as figuras, indicando os
diálogos. Estas folhas rascunhadas eram passadas para um escritor da equipe,
que escrevia as legendas e o diálogo. Então, a página ia para outros artistas.
O primeiro deles terminava os rascunhos a lápis de Eisner e passava tinta
neles. Finalmente, as letras receberiam tinta e a página era apagada e limpa.
Em vários estágios da produção, cada página passava
sob os olhos de Eisner para aprovação. Quando ele via alguma coisa que não
atendia a seus padrões, ele sugeria mudança. Algumas vezes, ele mesmo fazia
as mudanças.
Já nessa época – então com pouco mais de 20
anos –, Eisner não se contentava em apenas supervisionar o trabalho de seus
colegas de equipe, mas também se envolvia na criação de personagens; de autoria
dele são várias de maior ou menor sucesso, como The Flame, Blackhawk,
Black Condor, Doll Man, Mr. Mystic, Lady Luck,
Hawks of the Seas, Uncle Sam, etc.
Durante seus anos de atividade, o estúdio produziu literalmente centenas
de HQs dos
mais variados gêneros, englobando desde histórias de mistério a super-heróis
com os mais variados poderes, de contos policiais a aventuras em ambientes
exóticos, de histórias de guerra a narrativas de piratas, etc. Nele, inclusive,
foi produzida a mais descarada cópia do Superman, criada por solicitação
do editor Victor Fox para responder diretamente ao sucesso do primeiro super-herói
dos quadrinhos; lançada em maio de 1939, a criação de Eisner, Wonder Man,
publicada na revista Wonder Comics, teve uma meteórica carreira, sendo
imediatamente interrompida depois de um processo judicial que foi movido contra
Fox por parte da editora do Homem de Aço.
A SEPARAÇÃO DE IGER E O SPIRIT
Os anos 40 foram de intensa atividade para o
autor, representando sua imersão total no mundo das histórias em quadrinhos
como forma de entretenimento massivo. Ainda assim, ele não se contentou em
apenas atuar como um trabalhador mecânico, elemento de uma cadeia de produção
que produzia narrativas gráficas da mesma forma como poderia produzir desenhos
animados, passatempos ou qualquer outro produto voltado à diversão do público
leitor de seu país. Mesmo se beneficiando bastante com o sistema de produção
industrial – e também ganhando muito dinheiro com ele, diga-se de passagem...
–, Eisner sentia a necessidade íntima de produzir algo diferente, voltado
para um público que não fosse constituído apenas por crianças e adolescentes.
A possibilidade de satisfazer esta ansiedade surgiu para ele em 1940, com
o convite de Everett M. Busy Arnold, da editora Quality Comics, para
que assumisse como redator-chefe, desenhista e roteirista da editora, o que
levou Eisner a desfazer a sociedade com Jerry Iger e seguir um caminho próprio
nos quadrinhos.
Iniciou-se assim uma nova fase na carreira
de Will Eisner, se não a mais criativa, pelo menos aquela que mais o marcou
aos olhos dos leitores de histórias em quadrinhos, granjeando-lhe, posteriormente,
o reconhecimento como um dos maiores mestres da arte gráfica seqüencial de
todos os tempos.
O ponto alto desta fase ocorre sem dúvida a
partir da idéia de elaborar um suplemento semanal de quadrinhos para os jornais
norte-americanos, uma publicação bastante diferente daquelas com que os leitores
estavam acostumados: em vez das histórias estarem dispostas no interior do
jornal, em um caderno especial semelhantes aos demais suplementos, a nova
proposta se constituía em uma revista de quadrinhos de 16 páginas que sairia
encartada nos periódicos. Assim, a partir de 2 de junho de 1940, quando foi
publicada a primeira história de seu novo herói – o Spirit,
um justiceiro mascarado bastante peculiar –, Eisner teve muito mais liberdade
para realizar vôos criativos que antes não havia ousado.
De uma certa forma, a criação de Eisner quebrava
com dois paradigmas característicos dos quadrinhos mais populares de sua época:
em primeiro lugar, procurava afastar-se da figura dos super-heróis com suas
roupas espalhafatosas, para assumir uma vestimenta muito mais sóbria, um terno
e gravata comuns, completados por uma máscara que apenas lhe encobria os olhos
e tampouco apresentando qualquer dom extravagante, que pudesse distinguí-lo
grandemente do comum dos mortais; em segundo lugar, buscava um leitor diferenciado
daquele que consumia essas outras personagens, ansiando por atingir um público
mais velho e com maiores exigências em termos de narrativas gráficas. Desta
forma, as histórias do Spirit nem sempre se concentravam no
protagonista, mas se utilizavam dele para apresentar uma narrativa sobre uma
preocupação humana específica; como menciona Javier Coma, em muitas histórias
o herói é apenas a testemunha impotente desta barbárie moral onde o relativo
culto à liberdade pressupõe o desprezo à justiça social, onde a semente da
delinqüência se torna inerente à mesma promoção abusiva da instituição familiar
como prazer primeiro e últimos dos estratos majoritariamente miseráveis.
As histórias do Spirit são, em
geral, pequenos contos que destacam a fragilidade do ser humano na luta pela
sobrevivência frente a situações adversas e enfatizam, muitas vezes, a ironia
da própria existência. Ainda que se constituindo basicamente em um defensor
da lei e em essência assumindo a defesa do status quo, do American
way of life, o protagonista da mais famosa série de Will Eisner não representa
um mero agente da ordem ou um solucionador de problemas – como ocorre com
os outros heróis dos quadrinhos –, mas é, também ele, mais uma vítima do modelo
social predominante, impotente para apresentar qualquer tipo de solução ou
resposta definitiva aos problemas da sociedade. Muitas vezes, inclusive, é
fragorosamente derrotado por oponentes e acontecimentos, evidenciando a incoerência
da própria vida. Suas histórias eram às vezes exóticas, às vezes românticas
e às vezes extremamente triviais, mas, em geral, enfatizavam mensagens em
que predominavam o humanismo e o bom senso, mesmo quando acompanhados por
cenas de violência.
Os aspectos gráficos foram outra área em que
as histórias do Spirit se distinguiram de suas contemporâneas.
Elaborando suas narrativas com um número limitado de apenas sete páginas,
Eisner colocou nessa obra toda a sua genialidade tanto em termos de composição
da página como de estruturação da seqüência de quadrinhos. Ele inovava com
estruturas narrativas paralelas, planos inusitados (como a história narrada
através dos globos oculares de uma das personagens), jogos de sombra e luz,
ângulos inquietantes, etc. Cada aventura do Spirit desenhada
por Eisner constitui, ainda hoje, uma verdadeira lição sobre a arte de composição
de uma história em quadrinhos, até mesmo para artistas já experientes. Entre
esses aspectos inovadores, destaca-se ainda a introdução da splash page,
em que a página inicial da história assumia um papel destacado para prender
a atenção do leitor: com técnicas gráficas inovadoras, Eisner sempre diversificava
essa página introdutória, jogando com os elementos que a compunham e fazendo
com que o logotipo – a cada vez com características diferentes – compusesse
com a imagem um mesmo corpo visual (às vezes, o logotipo podia ser constituído
pela parte superior de vários prédios vizinhos, fazer parte de um cartaz de
recompensa, ser desenhado pelas pedras funerárias de um cemitério, representar
um elemento do cenário, etc., figurando em qualquer parte da página).
A GUERRA E O EXÉRCITO
Will Eisner foi mobilizado para o exército norte-americano
em 1942, época em que já tinha elaborado cerca de 100 episódios do Spirit.
No exército, continuou a escrever as histórias, enviando-as a seus colaboradores
para serem completadas; no entanto, no final de 1942 teve que abandonar por
completo a personagem, deixando-a nas mãos dos artistas de sua equipe – principalmente
Lou Fine, nos desenhos, e William Woolfok e Manly Wade Wellman, nos roteiros.
Retornou à personagem em dezembro de 1945, após sua desmobilização, assumindo
novamente o controle da produção e realizando algumas das melhores histórias
do herói. Nessa segunda fase, contou com a colaboração de vários ajudantes
de grande talento, como Jules Feiffer, Abe Kanegson,
Jerry Grandenetti e o haitiano André LeBlanc (que depois viria
a fixar residência no Brasil, onde trabalharia durante muitos anos para Editora
EBAL, de Adolfo Aizen...).
O Suplemento dominical foi publicado até 28
de setembro de 1952, quando já então havia assumido a denominação de The
Spirit section, destacando ainda mais a personagem de Eisner.
O Spirit permaneceu no limbo
até 1966, quando foi fugazmente ressuscitado em um número especial do New
York Magazine e em dois números de uma revista própria publicada pela
Harvey Comics; ele só retornaria à ribalta a partir de 1973, com recopilações
publicadas pela Kitchen Sink Enterprises. Ao final da década de 1990,
a série passou a ser publicada pela DC Comics, que criou selos exclusivos
para a reedição de todas as obras em quadrinhos de Eisner – Will Eisner
Library e Will Eisner´s The Spirit Archives -, bem como
para publicar seus novos trabalhos.
O FIM DE SPIRIT E OS QUADRINHOS EDUCATIVOS
Aparentemente, Eisner encerrou a publicação
de The Spirit em 1952 por estar cansado das exigências que o
quadrinho comercial lhe colocava. Haviam sido mais de 600 histórias nos doze
anos de existência do herói, além de uma tira diária que durou de 8 de dezembro
de 1941 a 11 de março de 1944). No entanto, também seria possível supor que
se tratou de uma opção por uma outra forma de trabalho com a linguagem dos
quadrinhos ou a busca de novos desafios criativos, algo que sempre caracterizou
sua carreira. Desde 1950, ele havia criado uma empresa – a American Visuals
Corporation –, voltada para o uso das histórias em quadrinhos como um
instrumento de ensino ou treinamento industrial, tendo como clientes grandes
companhias, como a General Motors e a U. S. Steel, além de várias outras empresas
que queriam utilizar a linguagem dos quadrinhos para instruir seus empregados.
Por outro lado, ao deixar a publicação de sua
personagem mais popular, ele também retomou uma atividade que havia desenvolvido
durante os seus anos de exército, época em se dedicou à produção de quadrinhos
com conteúdo educativo para a revista Army motors. Com o advento
da Guerra da Coréia, o exército norte-americano o convidou para retornar em
uma publicação semelhante a essa revista; assim, a partir de 1952 ele passou
a se dedicar exclusivamente à P. S. Magazine, buscando elaborar uma
publicação que pudesse prender a atenção dos soldados pela mistura de personagens
de histórias em quadrinhos, anedotas, equipamentos falantes, etc. e um texto
bastante informal, enfatizando sempre elementos gráficos e coloridos.
AS GRAPHIC NOVELS
Eisner permaneceu na revista durante seus primeiros
vinte anos de existência, realizando-a praticamente sozinho durante todo esse
tempo. Em 1972, com 59 anos de idade, decidiu vender sua empresa e desenvolver
novos projetos na área de histórias em quadrinhos, iniciando o que se poderia
chamar da terceira e última fase de sua carreira, voltada para o aprofundamento
e divulgação do potencial da linguagem dos quadrinhos e à criação de produtos
especialmente dirigidos ao público adulto, que buscavam também explorar a
capacidade literária das histórias em quadrinhos como meio de comunicação.
A essas obras, ele genericamente denominou de graphic novels.
A criação da nova denominação para a linguagem
gráfica seqüencial é em geral creditada a Will Eisner. Ele mesmo ajudou a
divulgar de forma bem humorada, em várias entrevistas, essa versão dos fatos:
Eu estava sentado ao telefone, conversando
com este sujeito, e eu disse, Eu tenho uma coisa nova para você, uma coisa
muito nova. E ele disse: O que é? E eu olhei para ela e me dei conta de
que se eu falasse, Uma história em quadrinhos, ele desligaria. Ele era um
sujeito muito ocupado, e aquela era uma editora de alto nível. Por isso, eu
a chamei de romance gráfico (graphic novel), e ele disse, Oh, isto é interessante.
Traga aqui! Eu levei. Ele olhou para ela, olhou para mim por cima de seus
óculos de leitura, e disse, Você sabe, ainda é uma história em quadrinhos.
Nós não podemos publicar esse tipo de coisa.
Na realidade, não se tratava da primeira vez
que a expressão graphic novel era utilizada em relação a um produto
em quadrinhos. Antes de Eisner, o termo já havia sido utilizado por Henry
Steele na revisa Fantasy illustrated, em 1966; da mesma forma,
o trabalho que ele então oferecia ao editor – Um contrato com Deus
-, tampouco poderia ser considerado de fato a primeira graphic novel
a ser publicada no ambiente quadrinhístico norte-americano, com diversas obras
podendo ser apontadas como suas antecessoras (destacando-se, neste aspecto,
Jungle book, the Harvey Kurtzman, e Beyond time and again,
de George Metzger, para apenas citar dois exemplos). No entanto, polêmicas
à parte, é certo que Eisner, com seu prestígio e atuação mercadológica, foi
de capital importância para a popularização do termo e ampliação do mercado
para esse tipo de publicação.
Após algumas rejeições, Will Eisner finalmente
conseguiu publicar Um contrato com Deus pela Baronet Books,
em 1978. Tratava-se de uma coletânea de quatro histórias sobre pessoas que
Eisner havia conhecido durante sua infância e adolescência no Bronx; na obra,
o autor fugia do formato original dos quadrinhos, evitando contar a trama
quadro a quadro e às vezes utilizando a página inteira para uma única ilustração.
A obra não atingiu um sucesso imediato, mas aos poucos sua qualidade foi se
impondo e a reação a ela se solidificando de forma calorosa e encorajadora
a partir de sua difusão entre o público adulto, o que lhe garantiu sucessivas
reimpressões. De uma certa forma, a aceitação do trabalho representava o apoio
dos leitores às idéias de Will Eisner e à sua proposta de destruir os estereótipos
que existiam em relação às histórias em quadrinhos.
A partir da publicação de Um Contrato
com Deus, o criador do Spirit passou a se dedicar à
elaboração de graphic novels, com novas obras sendo regularmente produzidas
por ele, sempre tratando de questões corriqueiras que envolviam pessoas simples,
elaborando temáticas ligadas à sua própria experiência e vivência pessoais
ou privilegiando a memória comum, a nostalgia e os estereótipos sociais como
ferramentas básicas da narrativa. Assim, o balanço dos seus últimos 25 anos
de produção apresenta as seguintes obras:
Life in another planet (1978) – as conseqüências
políticas e sociais decorrentes de um sinal vindo do espaço, comprovando a
existência de vida fora da Terra.
A life force (1979) – a saga de um imigrante
e sua luta contra condições adversas para sobrevivência no novo mundo;
New York, the big city (1981) – coleção
de anedotas e relatos de experiências colhidos ao longo dos anos, tendo como
ambiente comum a cidade de Nova York.
Crepúsculo en Sunshine City (1986) –
o impacto das mudanças na vida de um cidadão idoso, visto com laivos de ironia
e resignação.
The dreamer (1986) – de caráter
autobiográfico, apresenta um fiel retrato do universo de criação de histórias
em quadrinhos durante a década de 1930.
O edifício (1987) – crônica sobre
a vida e os desencontros dos habitantes de um único edifício; o próprio prédio
participa da trama, quase como que com as características de uma personagem.
City people notebook (1989) – retomada
das propostas desenvolvidas em New York, the big city, realizadas
a partir de observações de Eisner sobre a vida na metrópole.
No coração da tempestade (1991) – crescimento
e preconceito em um ambiente pobre dos Estados Unidos, no início do século
20.
Invisible
people (1992) – a busca da invisibilidade social como um santuário
contra os perigos da vida.
Avenida dropsie (1995) – um local físico
visto como um símbolo de evolução e mudança.
A family matter (1998) – o retrato de
uma família envolvida em um tipo relacionamento que beira à crueldade.
O último dia no Vietnã (2000)
– o relacionamento humano em um ambiente de conflito armado.
Will Eisner reader (2001) – 7
histórias sobre personagens motivadas e afetadas por amor, ódio e medo, expressando
a força e a fragilidade dos seres humanos.
Minor miracles (2001) – coleção
de 4 histórias relatando casos que destacam o papel do miraculoso no dia-a-dia
dos moradores da Avenida Dropsie.
O
nome do jogo (2002) – a saga de uma família de imigrantes durante
quase um século, enfocando quatro gerações em luta com problemas econômicos,
morte, desastre e desavenças conjugais.
Fagin, the Jew (2003) – re-visitação
do personagem de Charles Dickens, apresentando a visão pessoal de Eisner sobre
a vida na Inglaterra do século 19.
Além dessas obras de maior fôlego, Eisner também
aproveitou seu tempo para excursionar em paragens antes não exploradas por
ele, pequenas adaptações dos clássicos da literatura mundial à linguagem dos
quadrinhos - produzindo quadrinhos para Moby Dick, Dom
Quixote e A princesa e o sapo -, e lendas populares
de culturas africanas – o que, em 2002, deu origem a Sundiata,
o leão de Mali, que descreve a luta do príncipe Sundiata
e do povo de Mali contra a opressão do poderoso Sumanguru, o
Rei de Sosso. Incansável produtor, ao falecer ele deixou em processo de produção
gráfica sua última obra em quadrinhos, The plot: the secret story of
the Protocols of the Elders of Zion, que trata da maior peça de propaganda
elaborada contra os judeus no século 20, em que estes eram acusados de um
plano secreto para o domínio do mundo.
É importante também destacar, nesta última
etapa de atuação de Will Eisner em favor da divulgação da linguagem das histórias
em quadrinhos como um meio essencialmente participativo, seu incessante trabalho
educativo na área, atuando diretamente como professor de artes na School of
Visual Arts de Nova York entre 1973 e 1979, e produzindo dois tratados didáticos
que se transformaram em obras seminais para o estudo da linguagem das histórias
em quadrinhos, Comics and sequential arts e Graphic storytelling,
este último ainda não publicado no Brasil.
VIDA DEDICADA AOS QUADRINHOS
Por toda a sua atividade em benefício das histórias em quadrinhos, Will
Eisner foi aclamado e reconhecido por seus pares em seu país, que dedicaram
a ele o seu mais importante galardão, destinado a premiar aqueles que se destacaram
na área de quadrinhos durante o ano, semelhante ao Oscar na área cinematográfica.
Estabelecido em 1988, o Eisner Award é distribuído anualmente durante
a maior convenção de quadrinhos dos Estados Unidos, em San Diego, para indicados
selecionados por comitês e votados pelos próprios profissionais da área. O
próprio Eisner recebeu vários prêmios com o seu nome no correr dos anos, bem
como vários Harvey awards, outro prestigiado prêmio dos quadrinhos,
criado em homenagem a Harvey Kurtzman. Além destes, Eisner recebeu também
vários prêmios internacionais, evidenciando o respeito que granjeou em todo
o mundo.
Will Eisner teve uma vida totalmente dedicada
ao desenvolvimento e divulgação da linguagem das histórias em quadrinhos,
mostrando, por obras e atos, sua firme crença de que ela poderia ser colocada
em uma enorme variedade de usos e missões, do entretenimento à educação. Por
todas as inovações que trouxe à arte gráfica seqüencial, ele foi muitas vezes
chamado de Leonardo dos Quadrinhos (da mesma forma como Milton Caniff recebeu a alcunha de Rembrandt
e Burne Hogarth a de Michelangelo...). De fato, tal como o bruxo
de Florença, Eisner constituiu o que se poderia denominar um verdadeiro profeta
dos quadrinhos, tendo a inovação
da linguagem como seu maior desafio. Foi um desafio que buscou vencer até
o seu último alento, como evidenciou em uma de suas diversas entrevistas;
aos 84 anos, questionado pelo jornalista Stefano Gorla, da revista italiana
Famiglia cristiana, sobre o porquê de seu enfoque da narrativa quadrinizada
continuar tão jovem como sempre, ele respondeu de forma contundente: Eu
estou em busca da excelência. Não tenho tempo para ficar velho.
E não ficou.
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