No início dos anos 90, o ilustrador de quadrinhos
Mike
Mignola tinha uma estranha mania: em convenções, toda vez que um fã
pedia para que desenhasse qualquer coisa que lhe viesse à cabeça, ele rabiscava
uma variação de um monstrinho. O bicho tinha os chifres serrados e se chamava
Hell Boy, personagem que havia criado para o folheto promocional de
um encontro de comics em 1991.
Poderia ter ficado só nisso se, naquele mesmo
ano, Mignola não tivesse sido chamado para integrar um grupo de autores, que
incluía os veteranos Frank Miller, Walter Simonson e John
Byrne dispostos a criar um selo para publicar suas próprios personagens
fora das grandes editoras. O bando pretendia se chamar Dinosaur.
A idéia, a princípio, não deu em nada, mas
a criação da Image Comics no ano seguinte incentivou a trupe de quadrinhistas
(agora com o apoio da editora Dark Horse Comics, que já publicava trabalhos
de alguns deles, como Byrne e Miller) a desenvolver um novo selo, que, em
1994, denominou-se Legend.
Mignola viu-se, de imediato, em um dilema. Diferente
de seus colegas do Legend, não tinha experiência como escritor, nem
criações próprias. Decidiu, então, adaptar a sua personagem de convenção,
agora com o nome definitivo de Hellboy, para ser parte de uma equipe
de investigadores do sobrenatural. Com o tempo, chegou à conclusão de que
gostava mesmo era de desenhar monstros. Alçou Hellboy ao status de
protagonista e o resto do bando acabou virando o Bureau de Pesquisa e Defesa
Paranormal.
A primeira minissérie
Ainda restava o problema da sua inexperiência
como escritor. Para resolvê-lo, chamou seu amigo John Byrne para redigir
os diálogos. Byrne aceitou, mas frisou que só faria isso para ajudá-lo a encontrar
a voz da personagem a fim de que, no futuro, pudesse escrever suas aventuras
sozinho.
Com a equipe formada, o autor desenhou duas
pequenas histórias promocionais – durante as quais incorporou o, sobretudo
que se tornou parte integrante do visual do herói –, uma breve aparição na
série Next Men de Byrne e, a seguir, sua primeira minissérie,
A semente da destruição, publicada no Brasil pela editora Mythos.
A aventura é um bom exemplo de como funcionam
as tramas de Hellboy. Simples e interessante, repleta de situações criativas
e personagens exóticas (o protagonista inclusive, cujo passado é envolto em
mistérios), é bastante movimentada contando com uma dose generosa de terror
em estilo lovecraftiano. Essas viriam a se tornar marcas registradas da franquia,
que, no futuro, incluiriam lendas extraídas de mitologias do mundo inteiro,
uma das paixões do autor.
Sucesso inesperado
A recepção imediata não foi lá grande coisa.
A mini vendeu menos do que as outras revistas do Legend e não chamou
a atenção da crítica especializada. Sem dúvida, era comercial demais para
os que só prestam atenção nas HQs alternativas e, como não tinha ninguém
usando colante, passou despercebida pelo mainstream. No entanto,
tornou-se um sucesso inesperado em um canto muito mais interessante: o mundo
real!
Os poucos que leram a mini original divulgaram
suas qualidades. De maneira gradual, o boca-a-boca fez a publicidade da personagem.
Quando do lançamento da edição encadernada da primeira minissérie, Hellboy
já era bastante conhecido e as compilações de suas aventuras logo se tornaram
sucessos nas livrarias. Em parte, este bom desempenho deveu-se aos extras
inéditos presentes em suas páginas.
A partir da obra seguinte, Os lobos de Santo Augusto (já
publicada no Brasil), serializado na revista Dark Horse presents,
Mignola passou a escrever sozinho e a dedicar quase toda a sua atenção ao
demônio de chifres serrados. A qualidade das aventuras que se seguiram transformaram
Hellboy numa das HQs mais bem sucedidas do Legend, o que lhe
permitiu sobreviver ao fechamento do selo, na segunda metade dos anos 90.
Um desenhista lento
Porém, as histórias eram poucas. Artista bastante
lento, Mignola produz apenas uma minissérie e, às vezes, um punhado de episódios
curtos por ano. Basta ver que, em uma década, só desenhou pouco mais de vinte
edições! Para compensar sua demora, pôs-se a promover numerosos encontros
com outras personagens, como Ghost, Savage Dragon, Batman
e Starman (todos publicados no Brasil). A iniciativa saiu um pouco
de controle e, por fim, Hellboy viu-se na nada invejável companhia de criações
de terceira linha, como a obscura Painkiller Jane. Mignola sabiamente
decidiu reduzir o volume dessas aparições.
Outro interessante derivado da franquia é
a personagem Hellboy Jr., criação de Mignola com Bill Wray,
o insano cartunista que também faz, entre outras coisas, as histórias do Mário
na revista Mad. Mostrando as bizarras aventuras de um jovem
Hellboy (ainda de fraldas!), as HQs contavam com o esquisitíssimo humor de
Wray, o que pode explicar seu pouco sucesso.
Mais bem sucedida foi a versão em prosa do
heróico monstro. Idéia do escritor de terror Christopher Golden (que
os fãs de quadrinhos devem lembrar por ter escrito o Justiceiro anjo, embora
talvez prefiram esquecer...), já rendeu dois romances (escritos por Golden)
e duas antologias de contos (editadas por Golden), todas com ilustrações de
Mignola. Essas obras foram publicadas pela editora habitual de Mignola, a
Dark Horse, que possui uma pequena divisão de livros.
O Bureau por conta própria
De volta às HQs, após várias histórias, Mignola
decidiu afastar seu diabo do Bureau e fazê-lo agir sozinho. Porém, como não
valia a pena abrir mão das demais personagens que criara, decidiu dar à organização
sua própria HQ! As aventuras do Bureau passaram a ser narradas em várias minisséries
e edições especiais (todas inéditas no Brasil), assinadas pelo próprio autor
e diversos outros criadores como Ryan Sook, Geoff Johns, Scott
Kolins e Guy Davis.
Por fim, a lentidão de Mignola motivou-o ainda
a deflagrar mais uma publicação: Hellboy weird tales, na qual
muitos quadrinhistas podem criar suas próprias histórias com a personagem!
As oito edições dessa revista, que contou, entre outros, com P. Craig Russel,
Jim Starlin e até o japonês Kia Asamiya, agradaram bastante.
É quase certo que uma segunda leva nos mesmos moldes será publicada.
Sucesso internacional
Também vale mencionar o sucesso internacional
da franquia. Além de ser publicado nos grandes mercados de quadrinhos do ocidente
(França, Espanha, Itália...), Hellboy atingiu países de pouca tradição
em gibis – como a Alemanha e até a Rússia! – e se tornou uma das poucas HQs
americanas publicadas no Japão! Um feito considerável, ainda mais não sendo
das poderosas Marvel e DC!
Mesmo aqui no Brasil, onde é bastante rara
a publicação de HQs norte-americanas que não envolvem super-heróis, o Rapaz
do Inferno já teve várias de suas HQs publicadas. E espera-se que, com o
filme, muitas outras dêem as caras por aqui!
Assim, o despretensioso desenho de convenção
de Mike Mignola logrou o que poucos heróis de papel conseguem: tornou-se uma
franquia que inclui quadrinhos, livros, brinquedos, jogos de computador, um
filme e, em breve, segundo fontes de Hollywood, desenhos animados!
E isso foi feito de forma muito simples: com
uma boa história em quadrinhos!
Hellboy no Brasil