Mais
um mangá nas bancas brasileiras. Talvez para não destoar da maioria dos quadrinhos
japoneses já publicados por aqui, mais uma produção ligada aos meios de comunicação
de massa, diretamente oriunda de um desenho animado. Seria possível até dizer
que isso são coisas da globalização, mas e preciso lembrar que esse trajeto
já era feito pela indústria de massa bem antes que alguém cunhasse o termo.
Até aí, nenhuma novidade à vista, a não ser o título da revista – Cowboy
Bebop –, que pela primeira vez aparece em nosso país.
A ligação com o gênero de histórias ambientadas
na época do desbravamento do oeste americano – o faroeste -, aparece no próprio
título e não é à toa: a série incorpora, em um ambiente de ficção científica,
a figura dos caçadores de recompensas desse período, reproduzindo uma sucessão
de caçadas, lutas e duelos semelhantes aos que os leitores se acostumaram
a ver nos chamados filmes de bandidos e mocinhos (já a outra palavra do título
Bebop, diz respeito ao nome da nave espacial com a qual os protagonistas
caçam os procurados pelo cosmo afora e que, pelo menos no mangá, pouca importância
tem...). Essa é uma abordagem bastante comum nos meios de comunicação, tanto
de um sentido como do outro (quem não se lembra, por exemplo, de Sete homens
e um destino, de 1960, a transposição para o gênero faroeste de Os
sete samurais, uma obra-prima de Akira Kurosawa, realizada seis anos antes?)
Também aí, nada de novo.
Dirigido por Shinichiro Watanabe, o
desenho animado que deu origem aos quadrinhos e ao filme,
foi um grande sucesso da TV japonesa, sendo depois exportado para o mundo
inteiro, onde em geral replicou a receptividade recebida em seu país de origem.
O gibi surgiu no mesmo ano da série de TV, 1998, pelas mãos do desenhista
Yutaka Nanten, que procurou manter o mesmo espírito do desenho animado,
embora buscando novas histórias e aventuras para os protagonistas, que representam
modelos bastante familiares para os aficionados de mangás e atendem de forma
eficiente àquilo que se propõe para eles. O líder do grupo, um galã rápido
no gatilho, lutador de artes marciais e com um passado obscuro (Spike);
a mocinha ousada, sempre em disputa com o líder e talvez secretamente apaixonada
por ele (Faye Valentine); a voz da experiência, presente na personagem
mais velha da equipe, um ex-policial com partes mecânicas enxertadas em seu
corpo (Black Jet); uma adolescente especialista em computadores, que
pode penetrar as defesas de qualquer sistema eletrônico (Ed); e um
cachorro desenvolvido em laboratório, que se torna o mascote do bando e é
responsável por momentos de hilaridade na série televisiva (Ein), representam
um grupo bastante heterogêneo em constante interação, garantindo uma narrativa
com um ritmo ágil, capaz de agradar a todos os leitores que buscam o mangá
primordialmente como forma de distração.
Como diria uma velha propaganda de televisão,
o título que chega às bancas brasileira não é, digamos assim, uma Brastemp,
mas consegue atender satisfatoriamente às expectativas. Com personagens interessantes,
adversários pitorescos (no primeiro número, os heróis buscam receber a recompensa
pela captura de um travesti, que têm que libertar de uma prisão de segurança
máxima), ocorrências divertidas (o protagonista passa por uma situação bastante
constrangedora ao se disfarçar como detento na prisão em que se encontrava
o travesti...) e com muita ação, a revista representa uma leitura que prende
a atenção e faz com que o virar das páginas ocorra de maneira uniforme, sem
paradas ou diminuição do ritmo dos acontecimentos. Embora não traga grandes
ousadias narrativas ou gráficas – dificilmente alguém fará OOOOOOOHHH!!! ao
ler a história, como acontece com algumas outras obras provindas do mercado
japonês –, trata-se de um produto eficiente, para dizer o mínimo, que cumpre
aquilo a que se pretende. Considerando que muitas publicações de quadrinhos
às vezes ficam muito longe disso, essa façanha merece com certeza ser louvada...
Segundo a editora JBC, Cowboy Bebop
representa o primeiro de uma minissérie em seis números que será publicado
semanalmente. Aparentemente, a editora também presume ser ele o primeiro mangá
a ser publicado com esta periodicidade no país e procura se jactar disso na
apresentação da revista. No entanto, está apenas parcialmente correta nessa
afirmação. Embora se trate, aparentemente, do primeiro título a ser publicado
no formato original japonês (da direita para a esquerda e do final para o
início da publicação), não é a primeira a ter periodicidade semanal no país:
de março a abril de 2001, a editora Abril colocou nas bancas, em intervalos
semanais, oito números da revista Quadrinhos Digimon; e a própria JBC parece
ter se esquecido dos títulos da série Star wars que publicou nesse mesmo ano. De qualquer
forma, deixando-se de lado o não intencional equívoco, trata-se sem dúvida
de uma iniciativa ousada, que permitirá aos entusiastas da série tê-la completa
em muito menos tempo do que o normal nesses casos, o que deve se constituir
em alternativa agradável para a maioria. Além disso, esta publicação também
permitirá à editora sondar o mercado brasileiro para a viabilidade dessa periodicidade
no momento atual e talvez ajude na decisão favorável a novos títulos com o
mesmo intervalo de lançamento. É esperar para ver.
Em preto e branco, Cowboy Bebop é publicado
pela Editora JBC e custa R$ 4.90.