Na
longa vida de Carl
Barks nunca faltou humor, mesmo nas situações mais difíceis.
Nascido em uma fazenda, o artista teve infância
e juventude marcadas pela pobreza. Depois de exercer uma série de profissões
braçais, começou a carreira de desenhista trabalhando para a revista de humor
The Calgari eye-opener, para a qual elaborava cartuns protagonizados
por belas ninfetas.
Na década de 1930, ingressou no Estúdio de animação
de Walt Disney, destacando-se como gag-man para os desenhos animados
do Pato Donald. Todavia, quando a editora Dell passou a publicar histórias
em quadrinhos inéditas com as personagens Disney, Barks deixou o Estúdio e se
tornou artista free-lancer da nona arte.
Sua primeira incursão pelas HQs, Disney - a história
O tesouro do pirata, realizada em 1942 junto com Jack Hanna,
com base em um desenho animado nunca realizado - foi um sucesso. A partir de
então, elaborou mais de 500 histórias e criou personagens novas (como Tio
Patinhas, Gastão, Professor Pardal, Irmãos Metralha,
Maga Patalójika, entre outros).
Trabalhando em seu sítio, localizado na Califórnia,
Barks foi um exemplo de quadrinhista autoral que realizou uma obra consistente.
Por 30 anos, foi autor de roteiros e desenhos (sua mulher, Garé, ajudava-o com
a arte-final), colocando sua visão de mundo nas histórias que criava, inclusive
sua opinião política, bastante conservadora. Considerado pelos fãs como o bom
homem do Pato, só ficou conhecido, contudo, após a aposentadoria.
Sua obra influenciou outros artistas, a exemplo
dos cineastas Steven Spielberg e George Lucas. Hoje, diversos
quadrinhistas seguem seu estilo, como o americano William Van Horn, o
holandês Daan Jipes (que está refazendo histórias escritas por Barks
no início da década de 1970 e originalmente desenhadas por Kay Wright),
o argentino Daniel Branca e o chileno Victor Arriagada Ríos, mais
conhecido como Vicar. Mas o discípulo mais conceituado do mestre é, sem
dúvida, Keno
Don Rosa, autor da Saga
de Tio Patinhas, na qual retoma fatos narrados por Barks
em suas histórias para contar a trajetória de sua personagem mais importante,
o sovina Tio Patinhas.
Agora, a Editora Abril está oferecendo uma chance
para que o leitor brasileiro possa apreciar o trabalho deste importante artista
americano. A coleção O melhor da Disney - As obras completas de Carl Barks
-, compila as histórias publicadas de 1954 a 1959 na revista americana
Walt Disneys comics and stories, justamente a melhor fase do
quadrinhista, quando seu traço era mais redondo e os roteiros mais engenhosos
e mais engraçados.
Com 180 páginas, formato americano e capa cartonada,
a edição tem tudo para agradar aos colecionadores, aos fãs de Barks e até aos
leitores ocasionais. Com textos escritos pelo jornalista Marcelo Alencar (que
também traduziu o material para a coleção), o primeiro número apresenta dezesseis
histórias, com destaque para Espírito esportivo, em que Donald
enfrenta seu sortudo e convencido primo Gastão em um concurso de pesca; Quem
tutu quer, tutu perde, na qual Donald pede a Pardal que invente um
meio de proteger a fortuna de Tio Patinhas; A batalha das resoluções,
que mostra a disputa travada por Donald e seus sobrinhos para manter as resoluções
de fim de ano; Puxa-Puxa, que Caramelo! (com os quadrinhos cortados
pelo próprio Barks), que acompanha a desastrada tentativa de Donald para recuperar
um valioso anel perdido no meio de caramelos.
E na história O vendedor que comprava
encrencas, Donald vende a Tio Patinhas uma apólice de seguro milionária
e precisa, então, protegê-lo a todo custo dos perigos (o título original, Trouble
indemnity, é uma paródia do romance noir Double indemnity,
escrito por James Cain e adaptado para o cinema por Billy Wilder, que tem como
enredo um crime perpetrado para fraudar uma companhia de seguro).
Com certeza, o público brasileiro vai se divertir
com estas narrativas, da mesma forma que Carl Barks deve ter feito ao criá-las.
A primeira edição traz, ainda, uma caixa para
acondicionar os quatro primeiros números. Além dos textos - bem ilustrados -
que acrescentam informações às histórias, o leitor encontra, também, os dados
referentes a cada uma, como a data de publicação e o título original e quando
foi publicada no Brasil. As capas reproduzem litografias e pinturas dos personagens
Disney realizadas pelo próprio Barks após sua aposentadoria.
O melhor da Disney - As obras completas de
Carl Barks é uma coleção publicada quinzenalmente em formato americano,
tem 180 páginas em cores e capa cartonada, ao preço de R$ 14,95.
Roberto Elísio dos Santos é pesquisador
sênior do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, jornalista,
doutor em Comunicação pela ECA-USP, professor do IMES - Centro Universitário
Municipal de São Caetano do Sul e autor do livro Para reler os quadrinhos Disney
(Editora Paulinas).