Autorias e responsabilidades nos quadrinhos: uma discussão provocativa
Autorias e responsabilidades nos quadrinhos: uma discussão provocativa

Pateta de Igayara |

Contos da Cripta da EC Comics |

Ilustração de André Le Blanc |

Archie |

Patoruzu, de Dante Quinterno |

Raio Negro, de Gedeone Malagola |

Mônica |
Recentemente, a temática
da correta atribuição de responsabilidades autorais nas histórias em quadrinhos
voltou à baila a partir de um texto sobre os quadrinhos
Disney,
em que se questionava a política, até então adotada pela editora brasileira
desses materiais, de jamais creditar os autores das histórias. A matéria teve
repercussão entre leitores e editores, fazendo com que, depois de algum tempo,
a editora brasileira decidisse rever seus critérios: assim, a partir de junho
de 2003, todos os quadrinhos Disney publicados por ela terão seus créditos de
autoria devidamente registrados (roteirista, desenhista, arte-finalista, etc.),
quando traduzidos de publicações estrangeiras e tiverem sido creditados em seus
países de origem (isto vale tanto para histórias inéditas como para aquelas
já publicadas anteriormente no Brasil e futuramente reeditadas por aqui); quanto
às histórias produzidas por autores brasileiros – como as de Renato Canini,
Waldyr Igayara e tantos outros, estarão, no entanto, sujeitas
à decisão da editora.
Esta última determinação
levanta várias questões. A mais saliente diz respeito à estranheza sobre a exclusão
dos autores brasileiros de uma norma que também os beneficiaria, deixando-os
reféns dos ânimos e predisposições dos editores do momento. É intrigante que
tal diretiva tenha sido tomada, deixando uma ameaça implícita a todos os criadores
de histórias em quadrinhos Disney nacionais: olhem lá, comportem-se bem,
porque senão Papai Disney não deixará que os nominhos de vocês apareçam em suas
historinhas!!!...
Para dizer de forma delicada:
a medida é injusta. Para sermos honestos: ela é discriminatória. A rigor, nada
justifica a utilização de dois pesos e duas medidas para autores de histórias
em quadrinhos, classificando-os segundo sua nacionalidade. Mas, por outro lado,
é também compreensível que a mudança de uma regra com mais de meio século de
existência não possa ser feita de maneira imediata. Toda empresa tem políticas
internas que acompanham a cultura organizacional ali predominante e modificações
nessa cultura dependem de negociações, acordos, concessões de parte a parte,
estabelecimento de novos compromissos, enfim, de uma série de passos que nem
sempre ocorrem de forma bastante tranqüila. Uma editora de histórias em quadrinhos
– principalmente uma que faz parte de um conglomerado de organizações voltadas
para as mais diversas áreas de comunicação –, não é diferente. Assim, a determinação
oficialmente comunicada ao público leitor de histórias em quadrinhos do país
pode apenas representar o máximo que foi possível atingir no presente momento.
Isto não significa que os responsáveis pela publicação dos quadrinhos Disney
no Brasil deixarão de se esforçar para obter a garantia de que a mesma regra
aplicada aos autores estrangeiros possa ser também estendida, sem restrições,
aos autores nacionais. Pelo contrário, até. Da mesma forma, a diretiva atual
não deve fazer esmorecer a pressão para que toda autoria de história em quadrinhos,
ocorra onde ocorrer, tenha que característica tiver, seja devidamente reconhecida
e registrada. Os autores o merecem. E os leitores também.
UMA PRÁTICA POUCO HABITUAL
O reconhecimento da autoria
e responsabilidades nos quadrinhos, por mais evidente e necessário que possa
parecer atualmente, nem sempre foi uma constante nas publicações, tanto nacionais
como estrangeiras. Pelo contrário, pode-se afirmar que a prática de elucidar,
nas próprias publicações, a verdadeira autoria das histórias, não foi correntemente
adotada durante bem mais da metade dos mais de cem anos de existência dos quadrinhos
como meio de comunicação de massa. De fato, considerando-se o mercado norte-americano,
o grande responsável pela globalização dos quadrinhos, por meio da atuação dos
Syndicates e pela exportação dos comic books, essa prática tornou-se
generalizada apenas a partir da década de 60, quando a editora Marvel Comics,
pelas mãos de Stan Lee, passou a investir fortemente na divulgação dos
nomes de desenhistas e roteiristas como um meio de criar um ambiente familiar
no relacionamento com os leitores. Antes disso, tentativas esparsas de crédito
aos autores haviam ocorrido, como as da editora EC Comics, mas haviam
encontrado resistência no meio editorial para se firmar como uma prática corrente.
Alguns pesquisadores de quadrinhos chegam até mesmo a creditar a derrocada da
EC muito mais a uma estratégia deliberada, dos demais empresários do setor,
para frear uma prática editorial nociva a seus interesses, do que, propriamente,
aos efeitos da campanha difamatória contra os quadrinhos durante a década de
50.
Nos Estados Unidos,
a discriminação da autoria nos quadrinhos ocorreu, pelo menos no que diz respeito
aos comic books, muito mais como uma estratégia de marketing por parte
dos editores do que como fruto de uma conscientização geral da comunidade quadrinhística
ou como pressão de uma ou mais categorias profissionais. Na Europa, essa discriminação
ocorreu de forma muito mais natural, talvez devido às características do ambiente
editorial do Velho Continente, no qual os autores já trabalhavam normalmente
em duplas criativas (roteirista/desenhista) e eram muito mais atuantes na constituição
de revistas da área (grandes títulos de quadrinhos tiveram à frente autores
e não editores profissionais, como ocorreu com Journal de Tintin
e Pilote).
No entanto, mesmo no ambiente
europeu, ainda é comum ocorrer que revistas de quadrinhos produzidas por estúdios
de desenhistas deixem evidente apenas o nome do proprietário do estúdio – normalmente
um grande autor da área –, e calem-se totalmente a respeito da contribuição
individual de legiões de trabalhadores que atuam como ghosts (fantasmas)
para ele. Isso também vai ocorrer nos funnies, os quadrinhos distribuídos
pelos Syndicates norte-americanos, quando o autor original contrata auxiliares
para apóia-lo em sua produção diária ou semanal. Durante anos, por exemplo,
o desenhista haitiano André Le Blanc foi ghost de Sy Barry
nas histórias do Fantasma, sem receber créditos por seu trabalho. Que
dizer, então, dos inúmeros auxiliares empregados nos estúdios de autores como
Jim Davis (Garfield), Scott Adams (Dilbert) ou Mort
Walker (Recruta Zero)? Até mesmo consagrados ícones dos quadrinhos
como o grande Will Eisner, utilizaram-se (ou utilizam-se ainda) desse
tipo de auxiliares em seu trabalho criativo, sem creditá-los devidamente. Ninguém
é perfeito.
PECADO EDITORIAL
Ainda que muito se tenha
avançado na questão da correta identificação de autoria nas publicações de quadrinhos,
deve-se reconhecer que muito existe a ser feito. Ainda hoje, muitas editoras
não reconhecem publicamente a autoria de desenhistas e escritores em suas publicações,
omitindo totalmente seus nomes ou fazendo-os constar de uma lista geral de colaboradores,
no expediente, normalmente localizado no final das revistas. Isso é muito pouco
em termos de reconhecimento público de uma atividade intelectual e criativa
digna de distinção, mesmo quando elaborada em ambiente industrial. Nesse sentido,
o esforço para mudar totalmente esse estado de coisas é mundial e não se vincula
apenas ao ambiente quadrinhístico editorial brasileiro. Neste caso, ainda que
a decisão dos editores das revistas Disney no país deva ser celebrada e devidamente
louvada em seus aspectos positivos, há necessidade de manter um olhar atento
ao restante do mercado produtor, que transmite uma atmosfera diversificada em
relação ao crédito de histórias em quadrinhos. Infelizmente, estúdios de produção
de quadrinhos e grandes autores do país ainda não divulgam corretamente os nomes
de seus colaboradores.
Neste último caso, ainda
que não isolado no universo editorial do país, destaca-se a produção oriunda
dos estúdios de Maurício de Sousa, o criador da Turma da Mônica,
idolatrado por crianças e adultos e identificado sempre como o grande exemplo
de autor de quadrinhos que acertou na vida, transformando-se em um grande e
bem sucedido empresário do setor.
Nas revistas de Maurício,
hoje publicadas pela Editora Globo, o único nome creditado nas histórias
é o seu próprio, dando a idéia, para o desavisado público leitor – composto
principalmente por crianças –, que é dele a mão por trás dos desenhos que a
todos fascina e que vêm de sua cabeça altamente dotada as idéias para a enorme
variedade de histórias maravilhosas que divertem, alegram, distraem e encantam
gerações inteiras de um fiel público leitor. Isto, desde o ano de 1959, quando
Maurício publicou sua primeira revista em quadrinhos (Bidu, pela
Editora Continental).
Sob o ponto de vista empresarial,
a decisão de destacar apenas o nome de Maurício de Sousa pode ser justificada
pelo argumento de que não se mexe em time que está ganhando. Afinal, o pai da
Mônica já tem seu nome profundamente enraizado na cabeça de seus leitores
– podendo-se até dizer que faz parte de seu inconsciente coletivo... –, garantindo
um retorno imediato de qualquer produto que tenha a sua marca. Por que, considerando-se
essa universal aceitação do autor, apostar em nomes desconhecidos do público,
como, por exemplo, o humilde roteirista que elabora as histórias do Chico
Bento ou aquele anônimo e pobre desenhista que arte-finaliza as aventuras
do Cascão? Assim, é preciso reconhecer que decisão empresarial tem lógica:
a do lucro imediato e do retorno do investimento no mais curto espaço de tempo
possível. Ela peca, no entanto, em termos da lógica inerente à justiça social,
que manda reconhecer tanto os esforços individuais como os coletivos. E peca,
também, por não vislumbrar um futuro mais distante que o deadline para
colocação da próxima leva de revistas nas bancas. E este último pecado pode
não ser apenas danoso, em longo prazo, para a Turma da Mônica. Ele pode
ser suicida.
Infelizmente, Maurício não
é eterno. Ainda que lhe desejemos ardentemente muitos anos mais de fecunda atividade,
mais cedo ou mais tarde – e queira Deus que mais tarde, bem mais tarde... –,
voluntária ou involuntariamente, ele terá que se afastar dos quadrinhos. Que
acontecerá com seu universo criativo, então. Seu nome parece estar por demais
vinculado às personagens para que se tenha certeza de que elas terão fôlego
para prosseguir guiadas por outras mãos que não as dele. As respostas são por
demais incertas para as muitas perguntas que a perspectiva de seu afastamento
pode suscitar: aceitarão tranqüilamente os leitores saber que ele não desenha
mais as histórias? Verão nas personagens os mesmos encantos de antes? Mantida
a mesma política de não identificação dos criadores reais, não se sentirão os
leitores logrados por ter as personagens de Maurício atuando sob uma personalidade
virtualmente inexistente? Devemos achar que às crianças a questão da autoria
real é de menor importância e que tudo continuará como antes, esteja Maurício
presente ou não junto com suas personagens? Ninguém, de fato, poderia dar respostas
definitivas para qualquer uma dessas questões.
Exemplos positivos de continuidade
de personagens mesmo após o desaparecimento do autor original, vinculados exclusivamente
ao nome deste, existem vários, como Archie, Little Lulu e todas
as produções de Hanna & Barbera. No entanto, os casos apontados envolviam
personagens veiculadas em um ambiente muito mais avançado enquanto indústria
cultural que o brasileiro. Tentativas similares no ambiente latinoamericano
não deram certo. Como exemplo disso, basta lembrar a triste sina de Patoruzu,
Patoruzito e Isidoro, criados por Dante Quinterno, na Argentina,
hoje restritos apenas a republicações de histórias aparecidas quando seu autor,
hoje aposentado, ainda estava atuante.
Enfrentarão as criações
de Maurício a mesma sorte? Pode-se torcer para que não. Mas, permanecendo as
coisas como estão, é tudo uma grande incógnita. Uma incógnita que também infernizará
a vida dos futuros pesquisadores brasileiros de quadrinhos, quando tentarem
realizar a exegese da produção de Maurício e não conseguirem identificar os
diversos colaboradores escondidos sob a trademark do nome do criador
das personagens. E, para eles, pouco importará se os motivos causadores de suas
dificuldades de pesquisa se deveram a uma estratégia comercial vitoriosa ou
fracassada. Como pouco importa, aos pesquisadores de hoje, as razões para suas
dificuldades ao tentar identificar a contribuição, aos quadrinhos, de tantos
autores do passado.
Nesse sentido, vale a pena
ilustrar essa questão com o depoimento de um autor veterano dos quadrinhos brasileiros,
Gedeone Malagola, em recente depoimento ao projeto Memória Viva
do Quadrinho Brasileiro, do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos
da ECA-USP. Perguntado sobre os motivos pelos quais grande parte de sua
vasta contribuição como roteirista às editoras brasileiras de quadrinhos não
estava creditada nas revistas, ele respondeu, entre jocoso e crítico, que os
editores de então temiam que, creditando os artistas, estes se tornassem conhecidos
do público, famosos mesmo, e que, por causa disso, solicitassem aumento de salário...
Visão mais estreita não
poderia existir, é claro. Mas ela é até desculpável, dados o ambiente e a mentalidade
da época. Nos dias de hoje, no entanto, tal estreiteza não se justifica. O conceito
de autoria em quadrinhos já está suficientemente firmado para ser colocado em
segundo plano. Ou para que não se atente às conseqüências presentes e futuras
de sua supressão, seja para os autores (tanto o principal como os colaboradores),
seja para os leitores, seja para os pesquisadores da área.