Mesmo
depois de 10 anos, ainda lembro de muita coisa. A correria, a preparação, o
pessoal da televisão chegando, mandando fazer uma coroa de flores, indo para
o cemitério gravar a entrevista.
Há
10 anos, morria o Super-Homem. Eu, nesta época, trabalhava
na distribuidora Devir, que conseguiu em tempo recorde (uma semana) levar a
revista americana para os leitores brasileiros. A Rede Globo fez uma matéria
especial sobre o acontecimento, entrevistando o pessoal da empresa a fim de
contar como é que isso podia acontecer com o Super-Homem!
Eram
duas edições de Superman 75. Uma simples, com o manto vermelho rasgado
parecendo uma bandeira. A outra vinha guardada num saco plástico negro, uma
lápide na capa , e ainda havia uma faixa de luto para ser usada pelo leitor.
O
ponto central: história ou marketing?
Como
história ou conceito, a saga A Morte do Super-Homem não trouxe
qualquer novidade para os quadrinhos. Quantas vezes heróis morreram, renasceram
ou fingiram que tinham ido desta para melhor? Nada de novo a acrescentar.
Todavia,
no quesito marketing, a coisa foi bem diferente.
No
início da década de 90, Spider-Man, de Todd McFarlane,
e X-Men, de Jim Lee, venderam nada mais nada menos que 9
milhões de exemplares (90% para especuladores de lojas especializadas
em gibis. Hoje, esta tudo encalhado ou virou aparas). Um feito para o mercado
de HQs, mas que não rendeu nenhuma notícia em outras mídias além das dedicadas
aos quadrinhos.
A
morte do Super-Homem foi capa de jornais, matérias na TV, tanto aqui como
lá fora. Foi um evento, fato jornalístico, um estouro. Durante a saga, muito
se indagou se a morte seria para valer, se ele não voltaria um mês depois
etc.
Ele
não voltou. Pelo menos, não no mês seguinte.
A
estratégia da editora DC foi, no mínimo, arriscada para a época. Matar um
de seus ícones, enterrá-lo e tirá-lo de circulação por quase seis meses foi
um tremendo golpe de marketing. O que estava em jogo? A revitalização de um
mito que durante cinqüenta anos fora o símbolo maior dos gibis.
As
várias mortes do Super-Homem
Acontece
que, naquele novembro de 1992, o Super-Homem já estava morto. Morto
porque ninguém mais se importava com ele. Na verdade, o herói fora assassinado
lentamente durante os anos 80, transformado numa paródia de um patriotismo
exacerbado, pelo culto ao estilo de vida americano.
Doomsday
(Apocalypse, no Brasil) apenas desferiu o golpe de misericórdia. O Super-Homem
já estava moribundo havia tempos. Morreu diante dos nossos olhos, nas páginas
amarelas dos gibis que ainda eram coloridos e desenhados a mão.
E
não tinha sido a primeira vez que a DC tentava esta estratégia para recuperar
o mito. Ela o matara (com muito mais estilo, diga-se de passagem) quando Alan
Moore escreveu a última história do Super-Homem (O que aconteceu ao
Homem do Amanhã). Entretanto, diferentemente de Dan Jurgens (que
planejou o assassinato de 1992), no mês seguinte, Kal-El renascia num Krypton
novo, recriado por John Byrne, para se tornar na Terra o maior herói
do planeta.
Quantas
vezes o Super-Homem terá que morrer ainda para satisfazer a ganância burra
da indústria dos quadrinhos?
Quantas
vezes teremos que ver personagens serem modificados, adulterados, violentados
em sua essência para que mais páginas sejam vendidas em bancas e lojas especializadas?
Quantas origens teremos que recontar para revitalizar conceitos tidos agora
como ultrapassados?
Enquanto
Super-Homem defendia Metrópolis da fúria insana de Apocalypse, Joe Shuster
morria cego, sozinho, ganhando uma mesada da DC Comics, quando, na
verdade, merecia por a mão em milhões de dólares.
Enquanto
Super-Homem morria nos braços de Lois Lane, Jerry Siegel continuava
sem escrever histórias em quadrinhos desde os anos 60, pobre, esquecido pelo
público que lia as aventuras do personagem que criara durante um sonho. Ele
também recebia sua mesada, um mea culpa da editora que explorara
sua criação anos a fio.
Enquanto
isso, eu colocava uma faixa preta com um emblema do Super-Homem em vermelho
no meu braço e levava uma caixa cheia de A Morte do Super-Homem para
as lojas especializadas a fim de que os leitores pudessem testemunhar o último
suspiro do herói. Esse era o meu trabalho.