
Patti Smith |

Yeah Yeah Yeahs |

Yeah Yeah Yeahs |

Daft Punk |

Daft Punk |

Devendra Banhart * |

Bonde do Rolê * |

Beastie Boys |

Beastie Boys |

Instituto |

DJ Shadow |

Caetano Veloso * |

Thievery Corporation |
Fotos: Natalie Gunji
* Fotos: Divulgação |
Mudar de casa é sempre uma coisa complicada.
Mas o Tim Festival tirou de letra essa situação: neste ano o evento,
que novamente teve sua edição principal acontecendo no Rio de Janeiro, trocou
o MAM pela Marina da Glória.
Saem a beleza e as colunas do museu de Niemeyer,
entram o espaço amplo na beira da Baia do Guanabara. A Marina é um achado carioca,
um oásis que aproveita uma vista fenomenal da paisagem natural da cidade. É
uma pena que o festival só acontecia de noite, inutilizando o panorama.
Porém, apesar da beleza, o lugar sofre de pequenos
problemas de acesso. Quem foi para o Tim de carro encontrou bons bolsões de
estacionamento, com serviços de vans. Para os pobres turistas, faltou informação
ao tentar lidar com as linhas de ônibus cariocas e com os taxistas quase nunca
honestos da cidade. Detalhes que deveriam ser repensados para 2007 – já que,
segundo a boataria não confirmada (nem desmentida) durante o final de semana,
o Tim passa a acontecer oficialmente no Rio de Janeiro todos os anos.
Outros defeitos insuportáveis foram o excesso
de patrocinadores – em alguns momentos, o local parecia uma feira –, o preço
exorbitante nos bares e restaurantes montados por ali e o Motomix, espaço dedicado
a DJs. Se a produção acertou este ano por não cobrar ingresso à parte para esta
programação extra, errou feio ao colocar a pista ocupando a passagem logo depois
da entrada. Era necessário atravessar uma rave para chegar aos palcos principais.
E, é claro, é sempre bom bater nos horários dos
shows. Sem contar os atrasos (que chegaram a cifras fenomenais), a equipe do
Tim precisa repensar essa estratégia duvidosa de realizar grandes shows simultâneos.
É bobagem criar concorrência interna – coisa natural em festivais gringos, por
aqui chega a ser crueldade com os mais afoitos. O festival provavelmente venderia
mais ingressos se não fizesse seu público escolher entre nomes como TV on
The Radio e Patti Smith.
Ela, aliás, fez o grande show do festival, revisitando
sua carreira de punk setentista. Em segundo lugar, empatados, os outros dois
figurões do festival, Beastie Boys e Daft Punk – blockbusters
para todos os gostos. Neo-estrelas, DJ Shadow e Yeah Yeah Yeahs
decepcionaram ao vivo – e o freak Devendra Banhart ficou ali, no limiar
entre o bom e o ruim.
Entre os brasileiros, Instituto e Mombojó
alcançaram a consagração que merecem e Caetano Veloso fez show histórico
de última hora, apresentando seu novo disco roqueiro, Cê. Caê ocupou
um espaço que falta no Tim, que nunca escala nomes relevantes do cenário nacional
como atração maior. Para um festival que trouxe este ano o desimportante Thievery
Corporation, é uma opção que precisa ser pesada na balança.
Patti Smith e Yeah Yeah Yeahs, um grande show
e o outro
No finalzinho do seu show, Patti Smith
brandia sua guitarra e gritava Esta é a única arma que vocês precisam, logo
antes de entrar em transe e cortar todas as cordas. É a cena que fica da apresentação
mais marcante deste festival, já no topo dos melhores shows de 2006.
Vestida de terno e gravata, com sua desgrenhada
cabeleira cinza sobre o rosto marcado, Patti trouxe ao Rio de Janeiro toda a
força do seu posto de poeta e mulher do punk. Encarnou ali, entre uma cusparada
e outra, a sua geração que revolucionou os anos 70 na base das botinadas.
Adjetivos não faltam. No palco Patti Smith é
uma figura intensa, irônica, raivosa – daquele tipo que te pega pelo fígado
assim que abre a boca. E é, apesar de seu buço não corresponder à estética das
capas de revista, incrivelmente sexual, feminina, arrebatadora. Suas roupas
remetiam à musa retratada por Ropert Mapplethorpe na capa de Horses,
seu primeiro disco. Você até pode classificá-la como Deusa, mas ela provavelmente
vai lhe chutar os bagos em troca.
Sabendo o que faz, na sua primeira apresentação
por essas terras de baixo, Patti calcou seu repertório todo nos anos 70. Entrou
no palco com Gimme shelter, clássico dos Rolling Stones, já dando o tom do
que viria a seguir. Sempre politizada, a cantora entremeava as músicas com discursos
de consciência – contra as religiões, guerras e o presidente Bush, a favor do
meio-ambiente. Pautou até as eleições brasileiras, que aconteceriam no dia seguinte.
O que soaria banana na voz de outras pessoas, nela fez todo o sentido.
A seguir, uma seqüência de Horses (Kimberly,
Redondo beach e Free money) e outras de suas pérolas setentistas, do naipe
de Pissing in a river e Rock’n’roll nigger. Atrapalhando a missa punk, apenas
alguns problemas técnicos – guitarras que desapareciam e o teclado que atrapalhou
o início de Because the night.
A dobradinha de despedida com People have the
power (a única dos anos 80) e o grande hit Gloria lavaram a alma dos fãs
e da molecada que só estava ali pelos Yeah Yeah Yeahs. E lá foi Patti Smith
para os bastidores, com uma nova coleção de rins na bagagem.
Alô criançada, o Bozo chegou
As meninas (e meninos) travestidas de Karen
O provavelmente não concordam, mas o show da nova-iorquina Yeah Yeah
Yeahs foi uma grande desilusão.
Incensada desde 2001 graças ao seus ótimos discos,
a banda chegou ao Rio como uma grande promessa, carregando o peso de atração
principal do palco principal no sábado. Mas alguma coisa ali não encaixou direito.
Karen O entrou no palco embrulhada em um quadro
de Volpi. Carismática, levou os fãs pela mãos, dançando desengonçada e fazendo
poses e macaquices com as roupas e com o microfone (devidamente jogado na cabeça
da platéia ao final do show). Tudo o que se esperava dela – mas quem passou
anos vendo a brasileira Lovefoxxx fazer a mesma coisa à frente do Cansei
de Ser Sexy não se impressiona.
Metade do show foi baseado em Show your bones,
lançado este ano, abrindo concessões para os outros dois discos da banda. Canções
como Cheated hearts, Art star, Pin e Gold lion fizeram bonito, sempre
bem executadas.
Mas perfeição técnica não faz um bom show. Faltou
aos YYY uma pegada mais legítima, um pouco de porra-louquice, vontade de acreditar
no que estão tocando. Talvez os nova-iorquinos funcionem melhor em um palco
pequeno, com uma platéia bêbada, sem se preocupar muito em ser uma grande banda.
Por enquanto, fica a impressão que os gritos ardidos de Karen O funcionam melhor
nos discos.
Contatos imediatos com Daft Punk
Ré, mi, dó, dó, sol. A clássica seqüência que
permitia comunicação entre humanos e extraterrestres em Contatos imediatos
do terceiro grau, filme de Steven Spielberg, soou nas caixas de som do palco
principal do Tim Festival no seu primeiro dia. Era a senha para a entrada de
Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, com um atraso
fenomenal de uma hora.
Era o momento do Daft Punk iniciar sua
comunicação com a ralé humana que lotava a platéia. Encaixados em uma pirâmide
luminosa, com seu clássico figurino cyberpunk, com jaquetas pretas e capacetes
reluzentes, a dupla encarnava todos os conceitos da velha ficção científica.
A grande diferença é que aqueles que imaginavam
os anos 2000 como um futuro utópico, cheio de robôs e máquinas voadoras, provavelmente
não sabiam fazer dançar. Missão que estes franceses alienígenas cumprem com
louvor.
Para quem não estava no pique de se entregar
à música, o duo pode se resumir ao intrincado espetáculo visual. Congelados
no topo do seu mundo, concentrados nos seus controles e botões, Bangalter e
Homem-Christo são cercados por uma parafernália de luzes e projeções que explodem
nas córneas da audiência.
Logo abaixo, vem a música, fazendo vibrar o fêmur
dos presentes. Em pouco mais de 60 minutos, o Daft Punk desfilou uma seqüência
de hits. Começaram com Robot rock e, até evoluir para Human after all, passaram
por coisas como Da funk, Television rules the nation, Technologic, Harder,
better, faster, stronger e, claro, as manjadíssimas One more time e Around
the world. Todas remixadas e desconstruídas, transformadas em uma enorme canção
eletrônica. Apareceram também releituras para Busta Rhymes (Touch it) e Gabrielle
(Forget about the world).
Olhando com frieza, o show pode parecer sem graça
para quem gosta de uma performance realmente ao vivo. Afinal, não existe o risco
de um guitarrista que erra a nota ou do baterista perder o andamento. Mas o
autocontrole da dupla compensa o quesito não-orgânico, jogando na lama boa parte
dos live PAs modernosos de música eletrônica que surgem a todo momento.
Devendra Banhart, no topo da bicho-grilagem
O homem certo no momento errado. É essa a impressão
que ficou após o show de Devendra Banhart no Tim Festival. O texano chegou
ao país idolatrado pela crítica, com uma discografia prolífica e excelente e
uma esforçada tendência a idolatrar o Brasil – fã confesso de Caetano Veloso,
cita a fase tropicalista da música brasileira como uma de suas grandes influências.
Com todo essa curiosidade gerada, o músico sofreu
com uma série de fatores desconjuntados. O clima no palco estava alto pela passagem
de Amadou & Mariam, um casal de cegos de Mali, recém-adotados por
Manu Chao, que animou a platéia com um folk pop africano que, para os mais atentos,
lembrou até as músicas enraizadas pelos negros na Bahia.
Devendra enfrentou problemas técnicos no começo
do show, que pareceu aumentar o nervosismo do grupo – alimentado pela presença
do ídolo Caetano na platéia. Sua decisão de fortificar as suas músicas, deixando
um pouco de lado o lirismo dos discos, também não colaborou.
Falante, a estrela passou o show conversando
em inglês e espanhol (ou spanglish, como preferiu definir), pedindo
desculpas pelo seu português ruim e pelos problemas sonoros, e elogiando nosso
país à exaustão (O Brasil é um mundo à parte e Isto aqui é um paraíso, quando
você morre, vai para o Brasil).
O repertório revisitou os últimos cinco álbuns
e EPs lançados pelo cantor em dois anos, além de You may be blue, da banda
amiga Vetiver. A seqüência começou calma, com os músicos tentando se
entender com os equipamentos, já lançando mão da seqüência Hey mama wolf,
Heard somebody say, At the hop e Bluebird. No final, mais intenso, atacaram
com canções como Long haired child e I feel like a child.
É inegável a raiz hippie de Devendra e seu bando
– basta olhar para seus cabelos sujos, as barbas desgrenhadas e o figurino brecholento.
No palco, eles encarnam com propriedade uma banda importada direto dos anos
70, recém saída de uma Kombi rosa, e é essa mis-en-scène que dá mais
graça à banda. Alguns fãs mais animados, aproveitando essa tendência riponga,
jogavam pétalas e flores para os músicos.
Ao final, já sem camisa, Devendra voltou para
o bis e homenageu Caetano Veloso (que não subiu ao palco, como se esperava)
com Lost in paradise, do segundo disco solo do cantor. Ponto final em uma
celebração hippie-tropicalista, que poderia ter sido melhor, mas não foi de
todo ruim.
Bonde do Rolê, sangue bom
No sábado, enquanto os pernambucanos do Mombojó
ganhavam a merecida consagração – agradando até Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs,
que surgiu no canto do palco e dançou escondida – os curitibanos do Bonde
do Rolê enfrentavam sua prova de fogo. O trio, que tem seu som calcado no
funk carioca, nunca havia se apresentado no Rio de Janeiro.
Surgido há pouquíssimo tempo, febre instantânea
entre os indies, o Bonde ganhou as graças do DJ Diplo, que levou embora
a banda para uma turnê no hemisfério norte, nas asas do sucesso do funk entre
a gringaiada.
De volta ao Brasil, os três mostraram que a viagem
fez bem à banda. A grande piada interna, que remixa o ritmo carioca com samples
de Alice in Chains a Caetano Veloso sob letras impublicáveis,
evoluiu para uma grande piada interna já calejada e com confiança no próprio
taco. Nem o nervosismo de ser atração em um grande festival atrapalhou.
A platéia parece ter aprovado a apresentação,
que ganhou a participação da funkeira local Deise Tigrona (que brilhou
na apresentação de MIA, na versão 2005 do Tim). No chão, apesar da presença
maciça de paulistanos, os cariocas se divertiam. Colados à grade, seguranças,
faxineiros e os promotores de um dos patrocinadores do festival (que, em teoria,
deveriam estar do lado de fora do palco) se acabavam de dançar. E até dois policiais
militares, que estavam ali para conferir a apresentação subversiva, sorriam.
Como disse mais tarde um taxista, que também
estava ali no meio: já é, sangue bom.
Beastie Boys, serviços de demolição
Alguém avise a prefeitura do Rio de Janeiro:
depois da passagem dos Beastie Boys pela Marina da Glória, os edifícios
da região ao redor precisam de uma análise urgente das suas estruturas, abaladas
pela pancadaria sonora produzida pelo grupo.
E isso não é um exagero. Assim que o DJ Mix
Master Mike assumiu suas picapes, os graves começaram a estourar as caixas
de som e a caixa torácica do público. A coisa era tão violenta que fazia voar,
a cada batida, garrafas jogadas no chão perto do palco. Até uma pobre borboleta,
surgida sabe-se lá de onde, se esforçava para fugir dali.
Os incautos que permaneceram na platéia receberam
um show fenomenal, assim que os três vocalistas da banda assumiram os microfones.
Onze anos depois de sua primeira passagem pelo Brasil, os estadunidenses mostraram
que estão mais em forma do que nunca. O difícil era definir se aquilo era hip
hop, punk, hardcore ou o que.
Tarimbados, Mike D, MCA e Adrock
encarnam seus títulos de Mestre de Cerimônias. Sem parar de falar um minuto,
vestidos de terno e gravata à la gangsta, revezavam a verborragia entre as músicas
e interagiam com a platéia, seduzindo qualquer mortal. Não que eles precisassem
de muito esforço, já que entraram no palco com a taça na mão.
O público da noite hip hop do festival, aliás,
era o mais unido e empolgado de todos. Ponto talvez para a escalação do palco,
única que fez algum sentido nos dois ambientes não-jazz do evento. A noite começou
com o sensacional Instituto, com seu rap disparado sobre uma base não
ortodoxa que inclui até um flautista, e o morno interlúdio do DJ Shadow,
que falou demais e empolgou demenos.
No repertório dos B-Boys, os clássicos supremos
da longa carreira dos rappers – Time to get ill, The skills to pay the bills,
No sleep till Brooklyn, Body movin’ – mantiveram a energia no topo. No bis,
voltando ao palco em formação de banda, com baixo-guitarra-bateria, detonaram
com Sabotage e Intergalactic. E a pobre da Guanabara nunca mais será a mesma.
O Cê de Caê
Em 2005, Caetano Veloso foi uma das grandes
atrações paralelas do Tim Festival. Genuinamente interessado no que acontecia
por ali, acompanhou (e comentou, como é seu praxe) os shows indies dos Strokes,
Vincent Gallo e Arcade Fire e participou de uma reunião íntima
com o povo do Wilco. E nem ligou para o olhar torto dos roqueiros, desagradados
pela sua versão de Come as you are, do Nirvana, gravada no disco A foreign
sound, do ano anterior.
Agora, um ano depois, Caê volta ao Tim com...
um disco indie. O recém-lançado Cê relê a verve poética do compositor
baiano com uma crua sonoridade rock, liderada pelo músico carioca Pedro Sá.
Apesar de ótimo, o álbum levantava algumas dúvidas sobre se o cantor conseguiria
segurar, ao vivo, a peteca distorcida de sua nova fase.
Classificado como cantor pentelho de MPB, já
faz tempo que Caetano está afastado da massa jovem. Um sintoma disso era as
vaias maciças do público do palco Lab, na sexta e no sábado, quando as caixas
de som anunciavam sua apresentação no festival. Escalado de última hora, o cantor
foi responsável pelo encerramento do Tim, já na segunda de madrugada, levando
vantagem por não compartilhar a platéia com nenhum outro nome. Só restaram os
fãs e os curiosos dispostos a uma colher de chá.
Apesar de seus trejeitos e maneirismo vocais
tão identificados com as duas últimas décadas como bastião da MPB, o baiano
fez a fórmula de seu novo rock funcionar ao vivo, lembrando seus bons tempos
de moleque tropicalista, com o apoio de sua competentíssima banda púbere (além
de Pedro Sá, o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes).
Ao vivo, Cê soa como em estúdio, cruel
nas guitarras violentas. Destacaram-se, como no disco, as ótimas Minhas lágrimas
(pós punk com bateria de bossa nova), Homem, Não me arrependo, que é quase
loureediana, e Rocks. Em O herói, seu quase rap, Caê cedeu e apelou para
uma cola para acompanhar a letra gigantesca – aproveitou para inserir um tom
raivoso, melhorando a música.
Pela quantidade de fãs na platéia, fica difícil
saber se a nova sonoridade do cantor seria aprovada por um roqueiro comum. Mas
ali, com essa apresentação histórica, Caetano saiu consagrado. E foi forçado
a um bis, improvisando com You don’t know me e Nine out of ten, com um pedacinho
de Mora na filosofia, todas do clássico Transa (1972) e Como dois
e dois, gravada por Roberto Carlos em 1971. Surpresas para encerrar o festival
em altíssimo estilo, enquanto o sol já despontava lá fora.