É tão curioso quanto arriscado eleger um álbum de uma década tão recente
como um clássico, mas Ok Computer merece o posto.
É modelar, é referencial. Parece ter sido concebido num daqueles raríssimos
momentos de inspiração tão elevada que uma nota a mais, um segundo a menos,
uma palavra mal colocada poriam tudo a perder. Um daqueles momentos em que
os relógios pararam (inclusive o Big Ben!) e os olhares de todo mundo se voltaram
à Grã-Bretanha para assistir ao Radiohead cravar definitivamente
seu nome na História da Música.
Não é por acaso que OK Computer foi chamado o Dark Side of the
Moon dos anos 90. Assim como o clássico do Pink Floyd, Ok Computer
é conceitual, exige um profundo exercício mental para ser compreendido
e se tornou referência imediata na música que seria feita subseqüentemente.
Que o digam Coldplay, Muse, Elbow, Travis, etc.
Absolutamente todos os infindáveis ruídos presentes no álbum têm razão
de ser. Tudo o que está ali é partícula indivisível de um organismo que compõe
uma obra-prima. Mesmo com esse conceito na cabeça, assim como as grandes obras
de arte, Ok Computer permanece indecifrável: a magia que permeia o
álbum está sempre lá, inatingível, mesmo que você esteja escutando o disco
pela enésima vez.
A temática do álbum é a do ser humano sendo dragado pela tecnologia e a
dinâmica que governa o mundo moderno. Munindo-se de milhares de aparatos que
seriam supostamente necessários para o viver corretamente, o homem se enclausura
de tal forma que acaba por não reconhecer a si mesmo e aos que o rodeiam.
Na perspectiva de Ok Computer a sociedade está doente, sofrendo do
mal da não convivência e da rendição às máquinas em detrimento dos sentimentos.
Uma sociedade que não comunga entre si, já não poderia nem mesmo ser chamada
de sociedade, não é mesmo?
Algumas análises sugerem que o álbum se trata de uma história com início-meio-fim.
Não acredito que as músicas estejam seqüencialmente interconectadas, mas sim
que trabalham sobre um tema em comum, com visões diferentes a cada nova faixa.
Thom Yorke personifica andróides, alienígenas e empresta
sua voz aos computadores. Assim, seus personagens têm um olhar imparcial que
reflete conceitos acerca da humanidade que, nós, fazendo parte dela, talvez
não sejamos mais capazes de perceber. No máximo, assim como Yorke em Subterranean
Homesick Alien, ao se dar conta da essência da qual estamos lentamente
nos distanciando, passamos então a nos sentir os anormais, os estranhos,
os não humanos.
O álbum é composto de experimentações sonoras de cabo a rabo, afinal o assunto
são as máquinas. Bastou para que fosse rotulado de progressivo. Contudo, o
progressivo estaria restrito às experimentações, porque, de forma alguma,
encontramos em Ok Computer solos intermináveis e letras rareando. Ao
contrário, a textura serve para contribuir para a sensação de espacialidade,
mas de maneira geral, trata-se de um trabalho minimalista, no qual, em alguns
momentos, o instrumento nada mais é do que a própria voz de Thom Yorke. Além
disso, há rompantes de puro rock n´roll como em Paranoid Android,
um dos vários exemplos do deslumbrante casamento entre rock n´roll e
eletrônico proporcionados pelo álbum.
A introdução é feita pela enigmática Airbag. Yorke
preconiza ter sido salvo por um airbag ao sofrer um acidente. Agora,
a sua missão passa a ser salvar o universo.
Paranoid Android é uma verdadeira sinfonia provocada
pela mescla de instrumentos acústicos e eletrônicos. Thom Yorke alterna os
vocais entre momentos de apenas murmúrios e violenta irritação. Aos três minutos,
a música dá uma belíssima reviravolta, deixando todo o ambiente extremamente
ruidoso para, em seguida, encontrar-se novamente com a voz calma que traz
tranqüilidade e suavidade... temporárias. De novo estamos mergulhados na profusão
de ruídos e caos. Ao fundo, uma voz robótica repete I may be paranoid, but
not an android, oferecendo uma das chaves do enigma que envolve todo o álbum.
A música termina abruptamente e finalmente encontra alívio em Subterranean
Homesick Alien.
A ambientação onírica em Subterranean Homesick Alien
é causada pela combinação da letra, em que Yorke pede para ser levado por
naves espaciais por não se sentir mais parte deste mundo e efeitos sonoros
que iniciam-se mínimos para atingir um ápice quase já no final da música.
Exit Music (for a film) traz a voz de Thom Yorke
introjetada pela própria incapacidade de até mesmo respirar sozinho, segundo
ele canta. O tom claustrofóbico e arrepiante dado principalmente pela linha
de baixo de Colin Greenwood, num dos momentos mais floydianos do álbum,
incomoda, fazendo desta música possivelmente o momento mais dark de
Ok Computer.
Let Down é doce, um óasis disfarçado. A sonoridade
é bastante pop, mas esconde na letra uma tremenda decepção com a própria
vida. O modo Radiohead de discorrer sobre a falta de surpresas que nos guarda.
Karma Police é uma melodia melancólica que questiona
o ser diferente. O anormal deve ser detido, já que deixa as coisas fora
da ordem. A base do piano dá a cadência necessária para o desespero final
de Thom Yorke ao admitir que apesar de todos os seus esforços, não consegue
encontrar o encaixe para passar no teste de normalidade.
Fitter Happier é emblemática. Um computador dá
os comandos para ser mais feliz: não beber muito, exercícios três dias por
semana, conviver mais harmoniosamente com seus colegas de trabalho, comer
bem, não consumir comida de microondas e gorduras saturadas, ser um motorista
mais tolerante, manter contato com velhos amigos, ou seja, níveis impossíveis
de serem atingidos e conseqüente auto-estima indo por água abaixo. Te parece
familiar?
Electioneering traz riffs de guitarra para
embalar um Thom Yorke agora vestindo a persona de um político. A mais destoante
do álbum, nem por isso menos importante. Ela talvez seja um dos grandes motivos
de eu não acreditar que o álbum tenha uma unicidade seqüencial.
Climbing up the walls é serena, calma e profundamente
dark. O vocal é distorcido, praticamente um lamento. Thom Yorke preparando-se
para dar o bote, a música torna-se então melodiosa, novamente a sensação onírica
escondendo uma letra, para dizer o mínimo, intrigante. Seria uma metáfora
do que há de mais secreto em nós mesmos?
No surprises é minimalista ao máximo. Contradição?
Possivelmente, a música mais triste do álbum, o principal instrumento é a
voz de Thom Yorke e um clima quase infantil na junção dos demais instrumentos.
A história de como uma vida dentro dos padrões pode acabar mal. Acomodar-se
afinal de contas pra quê?
Lucky é a mais lenta do álbum. Entretanto, assim
como as outras, tem seus ápices e fica mais fortalecida a cada ouvida. A
saga do homem que renasceu com a missão de salvar o Universo está chegando
ao fim.
The tourist finaliza o álbum. Aqui, Ok Computer
já não conta mais com efeitos eletrônicos e economiza nas experimentações.
Os instrumentos e as vozes são claras. A calma pedida por Yorke finalmente
envolve o ambiente. As coisas estão de volta aos seus devidos lugares... ou
não.
Em Ok Computer, o ouvinte é convidado a fazer uma viagem tendo o Radiohead
como condutor através de paisagens por vezes tranqüilas, por vezes esquizofrênicas,
sufocantes e dolorosas. As nuances, a tristeza e a euforia, a era do transtorno
bipolar afetivo, o claro-escuro, se encontram. A harmonia permeando todas
essas relações.
Thom Yorke é o guia, utilizando-se, com expressividade incomparável e teatralidade
até, de suas várias facetas. Na trajetória, os pré-conceitos vão se esvaindo
e sem que se dê conta, você é tragado para o mundo verdadeiro, onde a essência
do ser humano é o que importa.
O Radiohead abusou da liberdade para criar uma obra-prima. Intencionalmente
ou não, o álbum foi aclamado pela crítica e eleito o melhor do ano (e até
mesmo o melhor do século, pelos leitores da respeitada revista inglesa Q).
Com Ok Computer, o Radiohead emancipou-se definitivamente do britpop
para se tornar uma das bandas mais reverenciadas do mundo.
Ok Computer é isso. Indispensável. Tal qual a verdade.