Exatos dez anos são a diferença entre Pablo Honey,
o primeiro álbum do Radiohead, e Hail
to the Thief. A maneira mais imparcial de se analisar o disco de estréia
é esquecer de que se trata de Radiohead.
Explico: é inegável que o Radiohead de hoje é muito superior
a Pablo Honey, afinal, volto a dizer, passaram-se dez anos e estamos
falando de uma banda que inova e se supera a cada trabalho. Contudo, é igualmente
inegável que inúmeras bandinhas da atualidade dariam tudo para fazer um álbum
como aquele.
O que pode parecer ultrapassado - levando-se em conta o que
o Radiohead significa HOJE, é bom frisar - na época em que foi lançado já
dava mostras do que viria a ser aquela promissora combinação de talentos de
Oxford.
A força de Pablo Honey e principal responsável pelo
Radiohead ter se destacado numa época em que ótimas bandas brotavam dos mais
inóspitos lugares do mundo - estamos em pleno grunge de Seattle
e no ressurgimento do britpop - reside nas letras. O Radiohead
é freqüentemente rotulado de depressivo, quando, justiça ainda que tardia
seja feita, o que faz é mesclar suas letras com lirismo e ironia em dosagens
equivalentes.
Esse algo mais, a fórmula de encaixar palavras que Thom
Yorke guarda a sete chaves, já era onipresente em Pablo Honey.
Só por isso o álbum já vale muito a pena. A ausência que algumas pessoas
podem sentir vem das experimentações que a banda faria em seus trabalhos futuros.
Pablo Honey soa cru, ingênuo até, mas estão ali algumas evidências
do fenômeno Radiohead, que começava a ser semeado.
Muito se enganam os reducionistas que se referem a Pablo
Honey como aquele disco do Radiohead que tem ‘Creep’ como se
essa música fosse a única coisa interessante a ser ouvida.
Vale lembrar que, por conta disso, reza a lenda que Thom Yorke
ficou apavorado com as proporções do sucesso alcançadas por Creep,
já que ela não foi um estrondo restrito ao Reino Unido. Engolida pela movimentação
que acontecia na época nos Estados Unidos, a canção foi erroneamente eleita
o hino britânico do grunge. Assim, pairavam no ar as suspeitas de que
o Radiohead seria apenas mais uma banda de uma música só, ou seja, que tudo
o que tinham para mostrar reduzia-se à Creep.
O tempo provou exatamente o contrário, mas se esse ainda for
o seu caso, caro internauta, ainda dá tempo de se redimir. Pablo Honey tem
outras preciosidades que merecem uma audição atenta.
You - as guitarras estão lá, a concisão
e a harmonia também.
Stop Whispering - poderia ter sido
facilmente outro grande sucesso na seqüência de Creep: refrão grudento,
Thom Yorke em vocais inspirados, letra idem.
Anyone can play guitar - note a
ironia típica do Radiohead pondo as manguinhas de fora. Distorções bem-vindas.
Vegetable - emocionada, densa, mais
um indicativo dos caminhos que o Radiohead viria percorrer.
I can´t - saca só o encaixe das
palavras que falei ali em cima:
Please forget the words that I just blurted out
It wasnt me it was a strange and creeping doubt
It keeps rattling my cage
Theres nothing in this world will keep it down
Totalmente poderosa.
Tem também Prove Yourself, Blow
out, How do you?, Thinking
about you...
Pablo Honey é item indispensável em qualquer boa
discoteca. Se não pela qualidade (que o próprio Radiohead acabou superando
nos álbuns seguintes), pelo simples fato de ter iniciado a carreira de uma
das bandas que mais tratam a arte como matéria-prima.