No início do conto "O Anjo e a Vampira", o garoto Bruno reclama com sua avó Ofélia por ter que ler um clássico infantil que fala de amor. Na opinião dele, isso era coisa apenas de menina, e nem um pouco interessante. Sua avó decide então despertar-lhe o interesse com uma história um pouco mais inspirada, envolvendo os seres sobrenaturais do título. E como o pequeno Bruno, muitos podem reagir assim diante de Amor Vampiro, livro no qual se encontra a cena descrita. A nova coletânea de contos sobrenaturais assinados por alguns dos mais importantes autores de ficção fantástica brasileiros da atualidade pode parecer improvável, de início, afinal não se pensa nesse tipo de história no país. E aí é que estaria o equívoco, pois não só a atual geração de autores nacionais lida bem com o horror e a fantasia, como suscita emoções fortes, e mais que despertar o gosto pela leitura, a torna inegavelmente prazerosa.
Amor Vampiro é um lançamento da Giz Editorial que reúne sete escritores nacionais de maior destaque no gênero fantástico nos últimos anos para contar suas histórias de vampiros, com muito romance e altas doses de erotismo. São eles André Vianco, Martha Argel, J. Modesto, Nelson Magrini, Regina Drummond, Adriano Siqueira e Giulia Moon. Dessa lista, o nome André Vianco é o mais conhecido, tendo emplacado já best sellers como Os Sete, Sétimo e Bento. E para quem ainda se surpreende com a literatura de gênero no Brasil, tanto de horror quanto ficção científica e fantasia, vale afirmar que a tendência vem ganhando fôlego.
Com uma turma moderna que busca inspiração nas revistas pulp estadunidenses da década de 1920, em H.P Lovecraft e Edgard Alan Poe, Julio Verne e Isaac Asimov, e sem dever nada a mestres contemporâneos como Stephen King, Anne Rice e Orson Scott Card, podemos estar diante de uma revolução. Além do fenômeno de Vianco com os vampiros portugueses da saga de Os Sete, temos Alexandre Lancaster e Ana Cristina Rodrigues nos projetos SciPulp, Fábrica dos Sonhos e uma nova direção para o Clube de Leitores da Ficção Científica, assim como os já reconhecidos Octavio Aragão (Intempol, A Mão que Cria), Flávio Medeiros (Quintessência) e Clinton Davisson (Hegemonia).
Amor Vampiro começa bem com Adriano Siqueira e fecha com chave de ouro numa obra-prima de sexo e violência em palavras mágicas de Giulia Moon. A coletânea é um festival de dentes afiados, sangue jorrando e muita sensualidade. Tendo autores variados, os contos são bastante diversos em seu tom e abordagem, mantendo sempre a leitura agradável. Claro que alguns contos são mais fortes e provocativos, mas autores previamente publicados mostram novas faces e a leitura não deixa de fascinar em momento algum. André Vianco, por exemplo, foge completamente do estilo de ação ininterrupta que o consagrou, e no conto "A canção de Maria" adota um tom muito mais sóbrio e intimista, numa história trágica à beira do Rio Jordão. "A Grande Chance", de Adriano Siqueira, mergulha no clima de paquera adolescente, fazendo comer poeira muitas besteiras televisivas do gênero, numa simplicidade que impressiona.
E como a palavra já está evidenciada no título da publicação, não se pode deixar de lado a importância do amor nas histórias, e de como ele é mostrado de forma lírica, doentia, obsessiva ou puramente carnal, numa explosão de desejo, variando conforme cada autor. Martha Argel, já conhecida pelo romance Relações de Sangue, apresenta no conto "A Flor do Mal" uma história contundente passada em Florença, na qual uma experiente vampira se apaixona loucamente pelo ingênuo jovem que pretendia exterminá-la para vingar a morte do irmão. Passando longe dos clichês e com uma narrativa segura e envolvente, traça o envolvimento afetivo dos protagonistas numa sucessão de reviravoltas e nuances psicológicas, com o erotismo falando alto.
Em "Isabella", o competente Nelson Magrini narra uma história de sedução de uma vampira por um cientista, partindo de princípios da lógica num jogo de pensamentos imprevisíveis. Depois é a vez de Regina Drummond retomar o tema da casa mal assombrada partindo de princípios bem inusitados. Por tratar-se de contos independentes, a leitura flui, e pode-se contar um ponto extra pelo fato de cada autor valer-se de liberdade total para interpretar o mito do vampiro, pois daí resultam experiências memoráveis. O ponto alto é "Drações Tatuados", de Guilia Moon, co-editora da Scarium Magazine, que investe aqui num universo em que vampiros agem livremente na grande São Paulo, enquanto homens de coragem tentam conter a ameaça. A história se inicia quando um destacado observador, um jovem com a missão de vigiar a catalogar vampiros, acorda um dia com duas marcas no pescoço e, sem memórias de como ocorreu, começa a investigar. A aventura o leva a cruzar seu caminho com uma vampira tatuada e cenas de sexo feroz que são como poesia de incomparável beleza.
Prepare os dentes de alho, o crucifixo e a estaca de madeira. Amor Vampiro não só comprova o poder de sedução dessas criaturas da noite, mas resgata de forma louvável sua estreita ligação com o sexo, a sedução e a lascívia.