Há uma interessante inversão de valores na indústria dos
games. Diferente de Hollywood, em que adaptações literárias,
de quadrinhos, seriados ou mesmo de jogos eletrônicos são valorizadas,
na mídia dos games os melhores produtos são criações
originais. Essa diferença motivou esta coluna, já que passei a
última semana alternando dois jogos em meu Playstation 3:
007
Quantum of Solace e Bioshock.
O primeiro você já deve conhecer. É a aventura que adapta
os dois filmes de James Bond estrelados por Daniel
Craig para os videogames, um jogo de tiro em primeira pessoa que emprega
o mesmo engine (software sobre o qual o game é montado) usado
no celebrado Call of Duty 4: Modern Warfare. A diferença aqui
é a criação de um novo sistema de cobertura/proteção,
no qual a câmera passa para terceira pessoa, mostrando o personagem principal,
James Bond, quando ele se protege de tiros de costas para paredes
e muretas. Outros breve momentos, como os de desarmamentos e perseguições
(que acontecem muito raramente), também revelam o personagem de corpo
inteiro.
Apesar de contar com vozes e feições de astros como Craig (James
Bond), Judi Dench (Q), Mathieu Amalric (Dominic
Greene), Eva Green (Vesper Lynd), Mads Mikkelsen (Le
Chiffre) e Olga Kurylenko (Camille); além de acesso
total ao material criativo do filme que custou nada menos que 200 milhões
de dólares, o game resulta pobre, genérico e, como a
grande maioria dos jogos baseados em filmes, apressado (ele precisa, afinal,
chegar às lojas simultaneamente ao filme). Tudo o que Quantum of
Solace (que apesar do título inclui flashbacks de 007
- Cassino Royale) consegue entregar é uma seqüência previsível
de tiroteios alternada por uma ou outra cena em que a furtividade deve ser empregada.
Tudo muito linear, ainda que tenha lá sua dose de diversão.
Comparemos agora essa superprodução com Bioshock, também
um game de tiro em primeira pessoa. Lançado na segunda metade de 2007
para Xbox 360 e PCs, o jogo só migrou
para o PS3 no final de outubro de 2008. Seu material de base não é
uma franquia consagrada com décadas de história e mundialmente
conhecida, mas idéias. Os criadores inspiraram-se no
trabalho de Ayn Rand (1905-1982), escritora e filósofa
russa cuja obra inclui A Nascente (The Fountainhead, 1943),
romance disponível em português pela editora Landscape. No livro,
como nas demais obras da autora, ela pensa a moralidade, a ética, a razão,
a economia, o individualismo e o egoísmo. Tais temas, ainda que apresentados
com certa dose de didatismo, são a essência de Bioshock.
Ambientado na década de 1960, o game dirigido por Ken Levine
coloca os jogadores no papel de um sobrevivente de desastre aéreo chamado
Jack. O sujeito começa a história nos destroços
de um avião que afunda rapidamente no meio do oceano. Felizmente, sua
tábua de salvação não está distante: uma
ilhota coberta por uma estranha arquitetura art deco tecnológica.
No interior da estrutura Jack descobre uma sociedade em ruínas e a utópica
cidade de Rapture, fundada por um home chamado Andrew
Ryan (note o uso fora de ordem de todas as letras de AYN RAND, "And
Ryan"). Se quiser sobreviver, o jogador terá que descobrir o que
houve ali e adequar-se, antes que as hordas de mutantes e poderosos robôs
o tornem mais uma vítima da loucura que tomou o local.
Além da óbvia diferença de profundidade temática,
Bioshock e Quantum of Solace também diferem assustadoramente
em termos de uso criativo de recursos. Lançado um ano antes e criado
a partir de uma tecnologia mais antiga (o engine Unreal 2.5 modificado
com o sistema de física Havok), Bioshock tem muito
mais atmosfera e é mais imersivo que o outro game de tiro. O novo 007,
apesar de cenários que reconstroem com fidelidade e enorme beleza as
paisagens dos filmes de Bond, carece de uma qualidade fundamental aos bons games:
vida.
Enquanto isso, em Bioshock, a sensação é de inocência
perdida - uma idéia extremamente poderosa. Publicidade cinquentista adorna
as paredes, há sinais de cultura e vida inteligente (ainda que perigosamente
deturpada) por todos os lados e até a iluminação ajuda
a contar a história, ironicamente muito mais cinematográfica que
a adaptação do filme. São pequenos detalhes que ancoram
a trama e tornam o jogo muito mais interessante e profundo que Quantum of
Solace (que teoricamente seria mais fácil, com uma história
já pronta para ser explorada). Além disso, enquanto o game de
Bond explica os acontecimentos através de cansativas e pouco interessantes
cenas animadas simulando apresentações gráficas de relatórios
do serviço secreto, em Bioshock quem desvenda a trama é
o próprio jogador, juntando as peças do quebra-cabeça que
é Rapture.
Mesmo em termos de diversão o jogo de 007 do estúdio
Treyarch não se compara ao produto original da 2K
Games. Enquanto o primeiro é repetitivo e suas parcas tentativas
de inovação soam forçadas, em Bioshock - apesar
de certa linearidade - as opções são variadas, bem como
os obstáculos e a maneira de superá-los.
Muito próximos em tecnologia, mas um universo distantes na concepção
e inteligência criativa, 007 Quantum of Solace e Bioshock
ilustram, assim, o problema de duas mídias que ainda não
conseguiram encontrar uma maneira inteligente de trabalhar juntas, seja nas
telas ou nas telinhas. Mas torço para que isso mude logo, afinal, Bioshock
está em processo de adaptação para o cinema...
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