Antenadíssimos os nossos leitores. Alguns, em poucas horas após a publicação na nota "Mistério no Omelete", que causou furor na semana passada, já haviam descoberto tratar-se de um jogo para divulgar o romance Cabeça Tubarão (The Raw Shark Texts), que a Companhia das Letras lança agora no Brasil.
A grande parte, porém, ficou é pirando com as relações (ou pistas) que divulgamos aos poucos. Tubarão, Pi, Vanilla Sky, Matrix, Nunca aos Domingos, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança, Casablanca... o que diabos afinal todas produções têm a ver com Frapê de Café, vida conceitual, um gato chamado Ian e paradisíacas ilhas gregas?
Na cabeça do inglês da cidade de Derbyshire, Steven Hall, autor do romance, tudo! E olhe que nem mencionamos Alice no País das Maravilhas, Paul Auster, Jorge Luis Borges...
O escritor criou um universo riquíssimo em detalhes e extremamente instigante. Nele, um sujeito acorda do que parece ser um ataque, sozinho, numa casa desconhecida (não, não é Jason Bourne). Não se lembra de coisa alguma nem o que está fazendo ali. Aliás, nem seu próprio rosto ele conhece. Felizmente, há uma carta sobre a mesa. "Antes de mais nada, fique calmo". O remetente? Como no filme Amnésia, ele mesmo.
O homem, descobrimos (e ele também), é Eric Sanderson. Ou foi. Sua terapeuta - a quem ele recorre seguindo suas próprias orientações escritas - informa que ele sofre de uma condição de amnésia dissociativa. Seus apagões começaram num evento dramático anos atrás e seguem acontecendo conforme Eric depara-se com alguma coisa. O quê, ela não sabe. Sabe apenas que ele deve ignorar as outras cartas que certamente encontrará. Seu passado, ironicamente, só atrapalha a recuperação.
Obviamente, não demora para que a recomendação da doutora seja colocada de lado (afinal, ele está sendo caçado por algo enorme e assustador!) e Eric se veja metido numa luta pela sobrevivência de sua própria mente e - por que não? - da individualidade humana.
Hall é um poço de cultura pop. Diferente da maioria dos autores que gostam de parecer moderninhos usando tais referências, porém, o escritor parece vivê-las. Ele menciona a cultura de massa de maneira absolutamente despretensiosa, criando personagens que efetivamente estão inseridos nesse mundo. Quando Eric e sua namorada discutem letras de música, é como se tivessem acabado de desligar seus iPods... Na tradição de um Kevin Smith, portanto, ao homenagear a arte pop, Hall integra-se a ela.
Igualmente bacanas são suas brincadeiras estruturais. Em tempos de pós-modernismo, jogos online, códigos DaVinci e Jonathan Safran Foer, Hall usa imagens e tipografia como partes essenciais da trama cinematográfica. Há mensagens cifradas, flipbook, trechos de enciclopédias, fotos... mais interativo só mesmo se o livro tivesse aqueles elementos de RPG impresso - tipo "você ataca o goblin? Sim (vá para a página 15). Não (vá para a página 28).
Mas nem precisa... Hall vai além da limitação do suporte papel e expande a experiência do romance usando a internet. Nas listas de discussão do seu livro já foram descobertos diversos "não-capítulos", trechos da história que existem em edições específicas da publicação ao redor do planeta. E a brasileira, claro, também tem a sua... e cabe a você descobrir qual é. Ou você achou que o jogo acabava aqui? ;-)
Cabeça tubarão - Steven Hall
480 páginas, 14 x 21 cm.
Previsão de lançamento: 01/11/07