Uma
velhinha inglesa encontra o Santo Graal num brechó. Um pesquisador descobre
a cura do câncer e inicia uma revolução cultural. Um viajante encontra a cidade
maldita do monstro Cthulhu na costa britânica. Um jovem inglês passa vinte anos
procurando a garota que viu na Penthouse. Uma companhia de assassinos
oferece seu serviço por atacado. E a Branca de Neve vira uma vampira.
Dos 31 contos (e poesias)
que compõem Fumaça e espelhos, são poucos os que não surpreendem
de cara pelas idéias. E os que não chamam atenção nas primeiras linhas geram
várias surpresas posteriores, pois você nunca sabe se aquele jovem pacato é
um lobisomem ou se o heróico narrador do conto é o assassino. Ou mesmo o assassinado.
Fumaça e espelhos
é uma coletânea de textos que Neil Gaiman escreveu nas décadas de 80
e 90. Na categoria de escritor ficcionista profissional, ele teve contos encomendados
e publicados por diversas revistas e coletâneas, o que logo se nota pela diversidade
de temas. Há desde a sua conhecida predileção por terror fantástico e magia
até um conto erótico. Um elemento, porém, une todos os textos:
seu vínculo com a tradição.
Enquanto muitos de seus
contemporâneos parecem olhar para o futuro, Gaiman está mirando o passado. Ele
já foi criticado por nunca escrever coisas novas, e apenas falar sobre as que
leu. Isto não deixa de ser verdade e não é algo ruim, pois o autor sabe como
adaptar o antigo e criar fábulas modernas.
Em Fumaça e espelhos,
temos o Gaiman jovem, antes da fama, e a sensação é a de que ele está recontando
todas as histórias fantásticas que leu na infância e na adolescência, adaptando-as
à sua maturidade. É Harry Potter para quem já cresceu. Personagens clássicos
da literatura fantástica como lobisomens, princesas inocentes e guerreiros honrados
aparecem em mundos com muito sexo, dramas familiares, monstros realmente truculentos,
ressentimento, sangue e mais sexo.
Em Apenas o fim do
mundo novamente, um culto satânico persegue um lobisomem devorador
de criancinhas. Em Neve, vidro e maçãs, Branca de Neve é uma
vampira literalmente sem coração que aterroriza um vilarejo medieval. A questão
de falar sobre as coisas que leu fica ainda mais clara em contos como Uma
vida, gestada nos primeiros trabalhos de Moorcock, A ponte do Troll
(os dois soam autobiográficos, inclusive) e Shoggoth’s Old Peculiar
, uma leitura cômica das obras do escritor de terror H.P. Lovecraft.
O tradicionalismo apresenta
outra faceta na variedade de estruturas utilizadas pelo autor. Há contos de
pura narração, há diálogos, há poemas e poesias com rígida métrica, em formas
como a sestina e o rondel, que você achava que apenas seu professor
de literatura conhecia. Parece que Gaiman estava se testando, escrevendo em
todos os estilos possíveis.