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| Homens do Amanhã – geeks, gângsteres
e o nascimento dos gibis Gerard
Jones (Conrad Editora) |
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5 ovos! |
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Nestes tempos em que o cinema tem sido invadido
pelos super-heróis com mais força do que nunca, inclusive pelo primeiro e maior
deles, o Super-Homem,
é bem interessante e oportuno saber como surgiram esses fenômenos da cultura
pop. Relatar os acontecimentos por trás das aventuras mirabolantes dos justiceiros
coloridos é a proposta do livro Homens do Amanhã – geeks, gângsteres
e o nascimento dos gibis, escrito em 2004 por Gerard Jones e
lançado recentemente pela Conrad Editora.
A obra, de caráter histórico e investigativo, começa em
meio à dramática luta do roteirista Jerry Siegel e do desenhista Joe
Shuster em reaver os direitos de sua maior criação, perdida para a DC
Comics graças à inexperiência e ingenuidade da dupla ao fechar contratos
e acordos. Depois, o autor retrocede até o final do século 19, para retratar
a imigração e fixação nos EUA de grandes comunidades judaicas em busca de uma
vida melhor, vindas da Europa. A pobreza, a convivência com gangues de delinqüentes,
maus tratos e a violência marcaram a vida de muita gente, incluindo aqueles
que se tornariam os pioneiros do mercado editorial infanto-juvenil nos EUA.
Conforme a narrativa avança, a história dos imigrantes
judeus vai focando a vida de famílias específicas, com jovens que vão se enveredando
pelo mundo das contravenções e, mais tarde, pelo emergente e promissor mundo
editorial. Inicialmente tomado pelos livrinhos de aventura conhecidos como pulps,
o mercado foi cedendo lugar aos quadrinhos, que se tornaram definitivamente
um meio de cultura de massa nos anos 1930 e 40, cativando milhões de leitores
ávidos por histórias emocionantes que os afastassem da dura realidade.
Lendários criadores de quadrinhos vão aparecendo e suas
vidas vão sendo desvendadas de modo inédito e surpreendente, desfazendo muitos
mitos sobre suas obras. Também é interessante notar como o mercado de HQs nos
EUA era originalmente maior do que o atual, com várias revistas com tiragens
de mais de um milhão de exemplares, fato raro em tempos recentes. Também era
um mercado mais diversificado, com revistas de aventura, romance, tramas policiais,
humor, drama e terror. Vale lembrar que o mercado estadunidense se solidificou
com a temática dos super-heróis em infinitas variantes, recuperando alguma diversidade
de temas e o público feminino somente com a recente invasão dos mangás.
Importantes autores, como Will Eisner, Bob Kane,
Stan Lee, Jack Kirby, Harvey Kurtzman, Steve Ditko,
Jerry Robinson, Bill Finger e outros são retratados, com suas
importantes contribuições aos quadrinhos. Como Jerry Siegel e Joe Shuster, o
perfil de fãs de ficção científica e aventura da maioria desses autores os identificava
como geeks ou nerds antes que esses termos fossem rotulados. Bob
Kane, criador do Batman, tem um bom destaque na obra, na qual ficamos
sabendo que ele não foi o único autor do homem-morcego e foi também um grande
oportunista e explorador. Aliás, a história dos quadrinhos nos EUA é repleta
de histórias de crimes, trapaças e espertezas cometidas por editores, empresários
e até artistas. Mas o grande centro emocional do livro é o longo processo de
motivação, criação, perda e redenção dos autores do Super-Homem, que tanto sofreram
até serem reconhecidos mundialmente por sua relevância na cultura pop.
Ao final da obra, Jones descreve as fontes bibliográficas
e, principalmente, as pessoas que forneceram as saborosas histórias que relata.
Com tantas fontes e controvérsias levantadas, a obra rendeu uma bela polêmica
com a viúva de Siegel, que contestou muitos fatos
contados no livro.
A edição traz ainda interessantes fotos que mostram algumas
das pessoas que protagonizaram a origem da indústria dos quadrinhos nos EUA,
bem como alguns desenhos que marcaram época. O único senão da edição brasileira
é que a apresentação do texto é um pouco descuidada, com alguns erros de digitação
e adaptação que deveriam ter sido evitados.
Gerard Jones também escreveu o livro Brincando
de matar monstros (Conrad Ed.),
que explora as necessidades emocionais de catarse através de violência na mídia.
O tema ecoa em várias passagens de Homens do Amanhã, como parte do entendimento
das motivações criativas e do sucesso resultante das aventuras de poderosos
heróis que lutam contra o mal. Antes de se tornar um escritor e pesquisador
renomado, Jones já era velho conhecido dos leitores de quadrinhos. Ao lado de
Keith Giffen, na década de 1990, escreveu diversas histórias para a extinta
Liga da Justiça Europa, numa fase cômica dos heróis da DC. Para a VIZ
Comics, adaptou diálogos para diversos mangás traduzidos para o inglês na
década de 1990. Com Homens do Amanhã, o autor atinge um novo patamar
entre os teóricos e historiadores da arte seqüencial.
É interessante traçar um paralelo entre essa obra
e sua contraparte brasileira, o livro A
guerra dos gibis, de Gonçalo
Júnior. Tanto Gerard Jones quanto Gonçalo Júnior escreveram obras que
descrevem os primórdios das indústrias editoriais e de quadrinhos de seus países.
O triste é notar que, enquanto nos EUA a regra era fomentar a criatividade e
incentivar a produção local, o que se fez sempre no Brasil foi pegar material
estrangeiro pronto (que é mais fácil e barato), sufocando a produção nacional.
Ainda assim, aqui chegou apenas a ponta do imenso iceberg que se tornou o mercado
estadunidense de quadrinhos. Mercado esse moldado por empresários visionários
e garotos sonhadores, vindos de uma época mais ingênua e repleta de horizontes
a serem desbravados.