Aproveitando o relançamento no Brasil do romance Neuromancer,
o Omelete apresenta esse verdadeiro clássico da ficção científica aos leitores
mais jovens, que tomaram contato com o gênero cyberpunk apenas com
a recente trilogia Matrix. Ou você achou que os Wachowski inventaram
tudo aquilo do nada? ;-)
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Década incrível a de 80.
Tão incrível que o ritual de celebração/revival/exumação a que ela
é submetida atravessou grande parte dos anos 90 e prossegue alucinado e saudável
neste início de século XXI. Este retorno ocorre para deleite de muitos. Uma
enorme multidão se acotovela nas pistas de dança das noites dos anos 80
e se delicia em revisitar as modas que infestavam aqueles tempos, eles próprios
pródigos em resgatar elementos de décadas anteriores. Enfim, foi um turbilhão
do pós-moderno.
Mas qual a relação de tudo isso com o livro paradigmático do cyberpunk,
cujo título comparece ali em cima? Realmente, onde devemos nos colocar no
meio do vaivém de idéias, informações, hábitos e bits?
Vamos lá.
Um dos elementos que tornaram os anos 80 únicos, impagáveis, foi a consagração
dos jornalistas que escreviam (escrevem) nos cadernos de (in)cultura dos grandes
jornais. Pois foi no transcorrer dessa década que os resenhadores e colunistas
de arte e cultura ganharam em definitivo o status de aqueles que sabem
distinguir o elevado e o vulgar. Tomaram de assalto a glamourosa (e duvidosa)
honra de serem os que, antenados com os grandes centros mundiais, detêm
o poder de definir o que já era e o que deveria imperar, qual a próxima grande
coisa e o que deveria ser desprezado por não combinar com uma cultura de perpétua
adolescência.
Tais práticas, ridículas quando empregadas por sujeitos um tanto velhuscos,
conferiram aura de obra-prima a criações que foram esquecidas um par de anos
depois. Pior ainda, misturadas a idéias tacanhas e estreiteza de pensamento
– burrice, para ser exato –, trataram obras ricas de modo simplista, colando
a elas rótulos que apagavas suas nuances, por meio de análises pueris.
Neuromancer de William Gibson, talvez o mais importante
romance da ficção científica cyberpunk, foi (e ainda é) vítima dessa
criação de monumentos tortos, que, ao contrário da música pop, dos anos 80,
não precisou de ressurreições: sempre esteve na ordem do dia.
Editado pela primeira vez no agora distante 1984, Neuromancer chegou
ao Brasil sete anos depois, via editora Aleph, como parte de uma coleção
de ficção científica que tentou renovar a oferta do gênero nas livrarias brasileiras,
publicando Orson Scott Card, um romance de André Carneiro e
outros.
O foguetório da imprensa foi memorável, para não dizer divertido; os culturetes
dos grandes jornais repetiram como papagaios as frases que acompanharam o
surgimento e a ascensão do cyberpunk no Estados Unidos: a ficção
científica finalmente alcança o mundo real, a realidade do fim de
século na ficção científica e que tais.
E teriam essas criaturas inventado ou distorcido algo? Não, pois eram essas
as intenções declaradas de Gibson, Bruce Sterling, John Shirley
e os demais do núcleo original do gênero.
O que eles, jornalistas, cometeram foi um simplismo, que condenou o romance
de Gibson a um papel que não faz jus a suas riquezas e limitações. Por preguiça
ou incapacidade, relegaram-no às funções de manual profético-técnico das maravilhas
que a informática traria ao cotidiano e de retrato da frenética loucura
do mundo urbano-industrial.
Neuromancer pouco envelheceu, continua fascinante.
Para aqueles que viveram os (nos) anos 80 e alcançaram o aqui e agora, o
cenário de sua trama, um mundo de pesadelos aliviados por prazeres destrutivos,
pega muito fundo e pesado.
Gibson intuiu com perfeição o que seria uma cultura reduzida à satisfação
barata e um presente contínuo que rejeita passado e futuro.