No mesmo dia que conversamos com os roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman sobre Star Trek e Transformers também tivemos a chance de conversar com uma das mentes mais criativas de Hollywood da atualidade, J.J. Abrams.
Nós já publicamos um pedaço da entrevista em que ele fala dos seus outros projetos (incluindo aí Star Trek 2), mas agora chegou a hora de deixá-lo falar sobre o lançamento em DVD/Blu-ray de Star Trek. Leia abaixo a entrevista, traduzida por Carina Toledo:
Você disse que gostaria que os fãs
mais hardcore gostassem da sua abordagem para Star Trek. Agora que o filme está saindo em DVD, você pode dizer como eles reagiram
ao filme? Como foi o retorno?
J.J. Abrams: Por sorte, e porque eles não
nos mataram, eu acho que os fãs mais hardocre de Star Trek gostaram
do filme. Eles são pessoas muito expressivas e apaixonadas. Eu fui
avisado muitas vezes - e por muitas pessoas - que eu deveria tomar muito
cuidado. Eles me perguntavam se eu estava com medo de fazer Star Trek. Fiquei
um pouco nervoso, especialmente porque as pessoas ficavam me prevenindo
sobre os fãs, mas parece que eles abraçaram a ideia e eu dou crédito
total aos atores, que conseguiram assumir esses papéis. Eram papéis
irônicos, até para pessoas que não conheciam Star Trek tão bem assim.
Todos meio que sabiam a história do
Kirk e do Spock, mas o Chris Pine, Zachary (Quinto), Simon (Pegg), John
(Cho), Anton (Yelchin), Karl (Urban) e todo o grupo simplesmente incorporou
esses personagens, de uma maneira que tornou a trama fácil para pessoas
que estavam assistindo pela primeira vez, como para os fãs antigos
da série, que abraçaram os personagens. E, finalmente, porque o Leonard
Nimoy participou do filme, de uma maneira muito significativa. Ele fez
a ponte entre o Star Trek de antes e o que é agora. Nós nunca poderíamos
ter feito o filme sem ele.
Quando você estava fazendo o filme,
pensou sobre o conteúdo do DVD?
Eu sempre penso sobre a parte do DVD
porque sou muito fã de DVDs. Eu busco ter certeza de que estamos fazendo
coisas que vão beneficiar o filme. É uma questão de chamar as equipes
de filmagem o mais cedo possível para começar a documentar momentos
que pareçam totalmente triviais, sem nenhuma importância, mas que
contextualizem o processo de como as coisas foram feitas. A equipe de
um filme como esse, e especialmente essa equipe, trabalhou muito e conseguiu
um resultado incrível. Eles normalmente são invisíveis porque se
fazem um ótimo trabalho, você não pensa muito sobre o figurino, só
olha pra ele. Se o trabalho for bom você não pensa muito sobre aquele
efeito especial, aquele objeto ou cenário. E aí eles têm ainda mais
motivos pra comemorar.
O que eu mais gosto dos extras de DVD
é poder ver pessoas como Michael Kaplan (figurinista), Scott Chambliss
(designer de produção), Roger Guyett (efeitos especiais), Michael
Giacchino (compositor), ou qualquer uma dessas pessoas, quando elas
assumem o palco e falam e documentam o trabalho incrível que foi feito.
Eles sempre ganham crédito pelo trabalho, mas não recebem tempo frente
às cameras. Então é ótimo vê-los ali, como foco.
Qual é o seu processo para os especiais
de DVD? Você tem uma equipe especial na Bad Robot [produtora de J.J.
Abrams] que você leva para todos os projetos?
Nós temos um ótimo grupo que trabalhou
nesse DVD, com quem já tinha trabalhado antes. Tem algumas pessoas
da Bad Robot, especialmente o David Baronoff, que trabalham com a gente
nos materiais pra DVD e Internet. Bryan Burk e eu obviamente assistimos
a todo o material editado, ouvimos as ideias, as propostas e produtos
finais, e damos a nossa opinião.
Tem alguma coisa no DVD que te deixou
muito empolgado, ou do qual você sinta um orgulho maior?
Eu estou empolgado com os extras que
mostram um pouco sobre a personalidade dos atores, como a parte dos
erros, o que eu acho muito engraçado. Quando você vê o Zachary errar
e ir de Spock pra ele mesmo, essa troca é muito engraçada pra mim,
porque ele não poderia ser mais diferente do Spock, e ainda sim ele
é muito convincente. Vê-lo nessa transformação tão rápida, quando
ele erra, me faz rir todas as vezes.
Ver a personalidade dos atores e como
eles são ótimos fora de cena é maravilhoso. E também o trabalho
de pessoas como o Roger Guyett, da ILM, e o talento para design de Scott
Chambliss, que trabalhou tanto nesse filme quanto o Chris Pine ou o
Zachary Quinto, redesenhando as naves e o mundo pelo qual os fãs
são apaixonados. Então a minha parte favorita é ver essa parte de
produção no foco e homenageada.
Você não se importa de quebrar a quarta
parede?
Não, mas você não pode fazer isso
antes que o filme seja lançado. Para mim, uma coisa que estraga a graça
da coisa é quando você assiste a entrevistas e cenas e vê numa parte
onde o cenário termina ou que é uma tela verde, antes do filme nem
ter saído. Aí quando eu vou assistir o filme, isso estraga a experiência,
me tira da história. Eu gosto de guardar essas coisas, e só depois
do filme ter saído é que você vai falar "Meu Deus, que genial
o jeito que eles fizeram isso!".
Tem muitos filmes que eu vi em DVD e
fiquei tão feliz em ver os bastidores, então eu não vou ser mesquinho
com isso. Parece bobo. Desde que não seja antes do lançamento. É
até injusto com os artistas que fizeram o trabalho, não mostrar o
que eles fizeram, porque as pessoas deveriam ver. É legal para as pessoas
que curtem cinema e para os cineastas e até para a próxima geração
de cineastas entender como foi feito. Aí eles terão uma maior noção
de como foi feito.
Depois de ter cortado essa cena da primeira
vez, existe alguma possibilidade de usar os Klingons de novo?
Uma das cenas excluídas no DVD e
Blu-Ray é a parte em que você realmente vê os Klingons. Eles estavam
no filme, e foi uma das coisas que eu odiei cortar, por inúmeras razões.
Uma delas é porque eu amei o design, o mundo e a história, e aquele
momento era muito legal, então estou muito empolgado para que as pessoas
vejam aquelas cenas. Além disso o Victor Garber, que é um dos meus
atores favoritos, interpretava um Klingon, com uma tonelada de maquiagem
e um figurino enorme, pesado e muito quente. E aí eu tive que chamá-lo
e contar que a cena dele não ia entrar no filme. Um grande consolo
pra mim é que a cena viverá para sempre no DVD e Blu-Ray, e quero
muito que as pessoas vejam isso.
Com o filme se passando numa linha do
tempo alternativa, tem alguma coisa no DVD que define isso, ou explica o que é?
Tem elementos nos extras e nas cenas
excluídas que falam sobre a linha da história e a lógica dela. Por
exemplo, uma das coisas que as pessoas reclamaram foi tipo, "Ah,
qual é, Kirk vai entrar numa caverna e encontrar com o Spock sem querer?
Isso é a coisa mais idiota que eu já ouvi!". Ok, é improvável.
Mas, na cena em que eles estão na caverna, tem uma parte que está
no DVD e que foi cortada do filme, em que o Spock fala sobre isso e
como esse é o jeito que a linha do tempo encontrou de consertar a si
mesma. É mais sobre o destino que qualquer outra coisa. É meio engraçada.
Quando estávamos trabalhando no roteiro,
francamente foi um daqueles momentos em que eu me perguntei como, pelo
amor de Deus, a gente vai resolver isso? Foi uma das coisas geniais
que o Alex e o Bob fizeram. Eles tornaram isso uma questão sobre a
inevitabilidade. O filme é sobre essa família que nada pode separar.
É sobre aquele tipo de amizade que sobrevive a tudo. Então a genialidade
está em pegar o momento mais improvável, uma coincidência que eu
nunca - nem em um milhão de anos - acreditaria, e colocar um holofote
nisso e dizer "Isso é o destino em funcionamento". E aí
você concorda.
Para mim, a cena é um daqueles momentos
que eu achei perderiam o sentido que existe no vídeo agora porque,
para mim, não precisa ser explicado. Apesar de que eu acho que algumas
pessoas iam achar legal, porque ajuda a explicar um acontecimento tão
improvável.
Essa linha de tempo alternativa vai afetar
vocês na continuação, em relação ao que vai ser incluído e o que
vai sair?
O segredo para fazer qualquer filme,
mas especialmente um como esse, que envolve uma realidade alternativa
e viagens na linearidade da história é que você não quer deixar
tudo no mistério, mas também não quer explicar demais. Eu acho que
você se diverte tanto com aquilo que está faltando quanto com aquilo
que é mostrado. Então, para mim, não saber de todos os detalhes me
permite entrar na história e completar os espaços em branco. Quando
te dão tudo na boquinha, parece que você está sendo mimado demais,
ou que o filme é muito expositivo. É sempre uma questão de encontrar
um equilíbrio.
Você disse anteriormente que a decisão
mais difícil foi não incluir o William Shatner no filme.
Você pode falar um pouco sobre a parte no DVD/Blu-Ray chamada "O
Enigma de Shatner"?
Essa coisa do Shatner aparece bastante.
Como alguém que era um enorme fã do William Shatner só pelos episódios
que ele fez em Além da Imaginação, e que gostava muito do que ele
fez em Star Trek, mas sem me tornar um fã mesmo até eu começar a
trabalhar nesse filme, já era uma conclusão de antemão que queríamos
o Shatner no filme. O problema era que o personagem dele morreu, em
cena, em dos filmes de Star Trek, e também porque nós decidimos desde
o início aderir o máximo possível à trama original de Trek. Isso
foi um grande desafio porque até mesmo a série original não aderia,
de várias maneiras, ao cânone de Trek. E as manobras necessárias para
trazer o Shatner para o filme seriam muito difíceis, pela história
que nós queríamos contar e também para dar a ele um papel que o deixasse
feliz. É o tipo de coisa que ia parecer um truque só para ter
o Shatner no filme, o que pra mim, sinceramente, seria uma distração.
Tirando isso, teria sido divertido
tê-lo no filme? Com certeza. Seria ótimo trabalhar com ele? Sem dúvida.
Eu estava tão empolgada para trabalhar com ele como com o Sr. Nimoy,
que por sorte nós conseguimos ter no filme. O que eu posso dizer é
que "O Enigma de Shatner", que vocês verão no DVD, fala
sobre isso. Essencialmente, a questão é como colocá-lo no filme quando
você quer tanto que ele faça parte, mas aí a história iria contra
o que você realmente quer contar.
Você está pensando em colocá-lo no
próximo filme?
Estou
aberto a tudo. Eu adoraria achar um jeito, mesmo com o desafio de apresentar
esses novos personagens e levando em consideração o peso de ter que
escalar esses atores. Eu sinto que no primeiro filme nós fizemos muito
do trabalho pesado que precisava ser feito para nos libertarmos para uma
continuação e seguir em frente. Talvez agora não será um fardo e
teremos mais oportunidade para trabalhar com ele novamente. Nós conversamos.
Aliás, temos um almoço marcado. Eu sou um fã dele e amigo. Ou, pelo
menos eu o considero meu amigo. Talvez ele diga o contrário no blog
dele hoje, eu não faço ideia. Mas eu realmente gosto muito dele e
adoraria trabalhar com ele.
Nicholas Meyer assistiu a todos os 79 episódios
de Star Trek antes de dirigir A Ira de Khan. Quantos dos episódios
originais você assistiu, antes de dirigir o seu filme?
Eu assisti a maioria dos episódios
originais. Muitos deles eu assisti com os meus filhos, e eles adoraram,
muito mais do que eu achei que eles gostariam. E ficaram muito assustados.
Foi muito legal ver esses episódios pelos olhos de uma criança de
7 ou 8 anos.
Nicholas Meyer, que é um ótimo diretor
e escritor, era amigo dos meus pais quando eu era criança. Quando eu
era criança, entre as várias coisas ridículas que eu fazia, e tem
muitas delas, eu fazia essas fitas de comédia ridículas. Às vezes
eu passava trotes por telefone, mas também fazia fitas com meus amigos.
O Greg Grunberg e eu fizemos inúmeras dessas fitas idiotas. Eu me lembro
claramente de uma noite em que o Nicholas Meyer tinha ido jantar lá
em casa, e ele foi no meu quarto, eu tinha uns 9 ou 10 anos eu acho,
e nós fizemos uma fita juntos, era muito idiota. Era uma entrevista
em que nós interpretávamos uns personagens, um entrevistando o outro.
Ele era um cara que estava confortável
em ser bobo. Eu sabia que ele era um escritor mas nem sabia muito sobre
isso. A ideia de que ele mais tarde iria dirigir um filme de Star Trek,
e que mais tarde ainda eu dirigiria um, me parece muito estranha. Eu
nunca falei disso porque acho tão chato, mas é uma daquelas coisas.
E aí anos mais tarde ele veio ao meu Bar Mitzvah e me deu de presente
o livro de Sherlock Holmes, em dois volumes, sem cortes, cheio de anotações,
e que eu ainda tenho.
É bizarro pra mim porque eu também
fui muito fã dos filmes dele. Esse foi o auge da minha época de fã
de Star Trek. Eu vi o primeiro filme, mas aí quando saíram os filmes
dele eu adorei. E sempre senti uma proximidade, porque eu conhecia aquele
cara. Foi muito surreal pra mim estar nesse papel, e ser a pessoa que
grita "Ação!".
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