Para promover o lançamento da Edição Especial do DVD Aristogatas (AristoCats, 1970), a Disney convidou o Omelete para um bate-papo virtual com o músico Richard Sherman, que ao lado do seu irmão Robert (Bob, para os íntimos) criou não apenas a trilha sonosa deste desenho mas também de vários outros clássicos da empresa, entre eles o ganhador do Oscar Mary Poppins. Veja abaixo os melhores momentos da conversa, que foi recheada de memórias que Sherman ainda tem de Walt Disney, para quem trabalhou por muito tempo.
O senhor poderia falar um pouco da sua carreira pré-Disney e como foi que conseguiu um lugar por lá?
Richard Sherman: Antes de sermos parte da equipe de músicos de Walt Disney, em 1960, meu irmão Robert e eu éramos músicos conhecidos da era do Rock & Roll. Uma das nossas canções, "Tall Paul" foi gravada pela jovem Annette Funicello, que, como você deve saber, estrelou o show Mousketeers de Walt Disney. Ela conseguiu um grande sucesso com "Tall Paul" no fim de 1958. Entre 1959 e 1960, Bob e eu escrevemos vários hits para Annette cantar. Nós não tínhamos a menor idéia de que o próprio Walt Disney era fã dela - ele a descobriu - e ouvia todas as suas músicas. Um dia, ele estava prestes a colocar Annette em um filme, The Horse Masters, e por causa da sua popularidade, ele decidiu que ela cantaria uma música especial. Bob e eu fomos convidados a tentar a sorte e escrever uma canção. Nós logicamente pulamos com os dois pés. Walt gostou muito e o resto é história.
Como é esta colaboração com o seu irmão? Vocês dois escrevem as mesmas músicas, vão revezando em cima do que o outro está fazendo ou trabalham separadamente?
Por mais de meio século, Robert e eu temos colaborado em centenas e centenas de canções para muitos filmes, programas de TV e peças, assim como músicas para os parques temáticos da Disney. Nosso processo sempre foi escrever canções com uma história. Antes de mais nada, nós sempre discutimos o período, o propósito, o personagem que vai cantar, suas razões. Nosso processo geralmente começa quando eu sento no piano e Bob ali do lado. Nós vamos jogando idéias eu começo a tocar alguma coisa ele vai cantarolando algo e melhorando o que criei. Ele manda uma fala pra mim, eu vou dar um jeito de melhorar e assim vai indo por horas, dias, até que nós dois estejamos felizes com o que conseguimos!
O senhor escreveu músicas e canções para muitos filmes. Qual o senhor considera o maior desafio de sua carreira?
Mary Poppins foi o mais desafiador que Robert e eu tivemos em nossas carreiras. Nós estávamos trabalhando sem o roteiro, com uma série de livros e nada do argumento e tínhamos que agradar a um dos mais difíceis autores do planeta - P.L. Travers. Com a incrível ajuda do próprio Walt Disney e os roteiristas Bill Walsh e Don DaGradi, nós conseguimos montar o que muita gente considera a obra-prima de Walt Disney. Tenho muito orgulho de ter feito parte disso.
Onde o senhor guarda os seus Oscars?
Meus dois Oscars estão brilhantes sobre um alabastro, em uma redoma de cristal com vários pontos de luz iluminando 24 horas por dia enquanto incensos queimam e uma música celestial é tocada em um sistema de som THX 7.0 Surround e um grupo de pinguins treinados dançam ao som de "Supercalifragilisticexpialidocious"!
O senhor viu alguma das animações indicadas ao Oscar deste ano? Tem um favorito?
Eu acredito que Ratatouille é um filme extraordinário e tem uma música fantástica!
A animação evoluiu muito em Hollywood durante a última década. Com o enorme sucesso das animações geradas por computação gráfica, há quem diga que a animação tradicional tenha morrido. Qual a sua opinião?
Primeiro, a animação criada por computação certamente é uma mídia enorme e viável hoje em dia. Mas o calor humano e a personalidade que vêm do 2-D, na minha opinião, ainda são imbatíveis. Algumas histórias empregam bem isso no 3-D e eu não vou dar os nomes aos bois, mas lá no fundo, o 2-D ainda tem um apelo maior comigo.
Qual a importância da música - mais especificamente das canções - para o sucesso de uma animação clássica? Especialmente na Disney?
Walt Disney acreditava muito na canção como ferramenta para contar uma história. Ele era, antes de mais nada, um contador de histórias e as canções que ajudavam na história eram seus mascotes. Ele sempre perguntava como estavam as canções. Ele adorava entender sobre o personagem e suas motivações através da música e letras.
Qual a sua melhor lembrança de trabalhar com Walt Disney?
Tocar e cantar "Feed the Bird (Tuppence a Bag)" [da trilha de Mary Poppins] para Walt em uma tarde de sexta depois de uma semana cheia. Nós sempre conversávamos sobre o que estávamos fazendo e daí Walt olhava pra mim e dizia "Toca aí!" Ele ficava olhando pela janela do seu escritório e quando chegava no meio ele dizia "Tenham um bom fim de semana, garotos" e nos mandava pra casa descansar. Eu vou me lembrar disso para sempre.
Quantas discussões o senhor teve com Walt Disney, a respeito das músicas e a forma como elas eram cantadas ou tocadas?
Discussões? Você não discute com Walt Disney! Você tenta a sorte!
Quão envolvido era Walt Disney na composição das músicas dos seus filmes?
Walt se baseava muito na intuição sobre o que ele queria musicalmente. Nós fazíamos de tudo para tentar entender o chefe, mas havia ocasiões em que nós achávamos que tínhamos escrito algo completamente oposta ao que ele queria. Nós invariavelmente ouvíamos o que ele queria voltávamos para a prancheta e começávamos a trabalhar nas instruções detalhadas que ele tinha passado. Ele era uma grande inspiração, mas um chefe durão.
Qual foi a coisa mais amistosa que o Walt Disney disse para o senhor?
"O que vocês acham de trabalhar para mim, aqui no estúdio?" e um pouco antes da sua morte "Continuem com o ótimo trabalho, companheiros".
Eu adorei suas questões e espero ter respondido todas elas satisfatoriamente!
Meus Supercalifragilisticexpialidocious cumprimentos,
Richard Sherman
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