Agora, as colunas AQUI DENTRO e LÁ FORA se fundem e ganham uma periodicidade semanal. Era um projeto antigo e que vai servir pra gente dar mais vazão para as coisas que saem no Brasil e manter você também atualizado sobre o que está acontecendo longe das nossas bancas.
Vamos lá?
AQUI DENTRO: Capitão América: Operação Renascimento
O quê:
republicação de histórias do Capitão América da década de 90, período em que o personagem foi recuperado após anos de histórias
atacadas pela crítica. O heroi enfrenta o Caveira Vermelha e é acusado
de traição pelos EUA.
Quem:
O escritor Mark Waid (na época, conhecido pelo bom trabalho
em Flash) e o desenhista Ron Garney
(até então com poucas participações em séries, como Motoqueiro
Fantasma).
Por
quê: As histórias reunidas em Operação Renascimento foram
publicadas entre 1995 e 1996 nos EUA, e no final da década passada
no Brasil. O contexto é tudo: a série do Capitão América vinha de
um período de dez anos sob comando de um poderoso editor da
Marvel, Mark Gruenwald. Enquanto nos primeiros anos suas histórias
eram bem vistas, os últimos são considerados sofríveis.
Após
histórias em que o Capitão América virava lobisomem ou passava a
atuar com uma superarmadura cheia de armas – influência da era Image
–, um novo regime na Marvel trouxe Waid e Garney para reformular a
série. (Gruenwald, por coincidência trágica, faleceu no ano seguinte).
Na época,
foi a glória para os fãs do personagem. É o que os americanos chamam
de back-to-basics: a essência do personagem, o heroi nos seus
moldes clássicos enfrentando vilões clássicos. Some-se a isso Waid,
escritor que até hoje defende um retorno ao heroísmo clássico da
Era de Prata para superar os personagens atormentados e sombrios da
década de 80.
Embora
a fase tenha funcionado na época, comparada ao estado dos quadrinhos
de hoje (inclusive os do próprio Capitão América), ela só tem valor
pela nostalgia. O back-to-basics de Waid leva a um desfile de
todos os clichês das HQs de aventura. Com o mercado recuperando-se
do “efeito Image” – histórias com péssimos roteiros, mas desenhos
poderosos –, era interessante ver uma história com estrutura competente.
Não é o contexto do mercado hoje.
O “efeito
Image” também pode ser visto na arte de Garney, cheia de splash pages
e poses de anatomia duvidosa (é possível ver inclusive uma influência
liefeldiana).
Coincidentemente,
a primeira fase Waid/Garney foi cortada nestas poucas histórias reunidas
na coletânea. Debaixo de críticas, a Marvel entregou Capitão América
a Rob Liefeld – um sucesso de vendas inicial, mas que acabou em uma
experiência desastrosa. Waid/Garney voltaram ao personagem posteriormente,
mas esta segunda fase é, em grande parte, considerada pior que a primeira.
Onde
e quanto: nas comic shops e nas bancas (distribuição setorizada,
disponível em São Paulo e Rio de Janeiro desde setembro). Preço de
capa: R$ 29,90.
LÁ FORA: Stitches
O quê/quem:
A autobiografia em quadrinhos de David Small, ilustrador de livros infantis
cuja infância foi marcada por pais despreparados e uma cirurgia que
deixou marcas permanentes em seu pescoço e nas suas cordas vocais.
Por
quê: O gênero da autobiografia em quadrinhos sempre rendeu grandes
obras nos EUA, desde as primeiras graphic novels de Will Eisner até
Retalhos, entre várias outras. Em 2007, Fun Home, de Alison
Bechdel, foi o momento em que uma grande editora literária americana,
a Houghton-Mifflin, descobriu o filão – e gostou muito.
O mercado,
obviamente, está atrás de outra obra assim: quadrinhos autobiográficos
com peso literário. Stitches é a nova aposta – David Small,
assim como Bechdel, é pouco conhecido no mainstream dos quadrinhos
e publica por uma grande editora, a WW Norton (mesma que reedita o material
de Eisner nos EUA). Grande editora significa distribuição e visibilidade
acima da média para uma HQ.
E Stitches
está sendo vendida, desde o início, como o grande lançamento do ano
neste nicho. Distribuída com antecedência, entre grandes nomes da
indústria e pela imprensa especializada, gerou um burburinho muito
antes dela chegar às livrarias. Expectativa lá em cima.
E a obra
dá conta da expectativa? Sim. Por mais que o mercado queira mais
e mais obras como Fun Home ou como os bons Eisner, elas não podem ser
criadas por comitê. Saem somente quando paridas, a muito suor e sangue,
por criadores que resolvem abrir momentos dolorosos de sua vida –
com a capacidade artística de transformá-la em uma história poderosa.
Small
é um desses autores. O estilo que ele escolhe, por si só, já
é significativo: a aquarela, sempre usada para explosões de cor, aqui
só aparece em tons de cinza. A história é da mesma forma cinzenta:
com pais crueis, Small cresce em uma casa que lhe é estranha. E um
problema de saúde grave acaba complicando as relações familiares.
Ficava
a dúvida também se Small, ilustrador, daria conta da narrativa visual
própria dos quadrinhos. Se a dúvida não desaparece nas primeiras
páginas, some por completo na sequência em que, adolescente, ele ouve
de um psiquiatra a dura verdade, aparente para todo leitor desde o início,
sobre sua vida. Nas próximas sete páginas, cai uma chuva fina lavando
todos os cenários. Não é uma lamúria, um choro. É como se toda
a parte suja da historia fosse levada pela água.
Esses
momentos – no caso, talvez uma das melhores seqüências que já vi
nos quadrinhos – fazem o álbum valer a pena. E o filão das autobiografias,
queira o mercado ou não, continua muito bem representado.
Onde
e quanto: Nas livrarias online, com preço sugerido de US$ 24,95
(R$ 43).