Criar uma nova versão de um clássico é uma proposta perigosa. Por um lado, a produção tem a garantia de que já existe um público estabelecido. Por outro, há a certeza de que a primeira reação desse público será odiar tudo antes mesmo de ver o resultado. Foi assim com o novo James Bond (loiro?), com a nova versão de Battlestar Galactica (Starbuck é uma garota?) e até mesmo com O Sítio do Pica Pau Amarelo (Cuca gostosa?). Para atrair público novo é necessário mudar, sim. Mas essa mudança não pode tornar o produto irreconhecível.
Em Jornada nas Estrelas, mexer com a série significa mexer com o cânone. É considerado cânone todo fato ocorrido nas séries de televisão e nos longas para o cinema. Estão fora dessa mitologia os enredos dos livros, quadrinhos e games. Em outras palavras, para criar o novo filme, o diretor J.J. Abrams e os roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman precisavam desvencilhar-se do cânone, mas sem de fato abandoná-lo. A resposta foi usar uma viagem no tempo, que cria um universo novo e faz com que as vidas dos personagens que conhecemos tomem rumos diferentes, permitindo ao cineasta e sua gangue brincar com novas possibilidades. Se Mark Twain pode mandar um ianque a Camelot, Orci e Kurtzman também podem brincar com o calendário.
Antes e depois - a antiga e a nova tripulação
Pavel Chekov (originalmente Walter Koenig) não nasceu russo. Criado especificamente para atrair o público adolescente em 1966, o novo tripulante teria sotaque britânico e a aparência de Davey Jones, de Os Monkees. O personagem mudou de nacionalidade em resposta a uma crítica do jornal Pravda, que questionou a ausência de um russo na série, um daqueles fatos que construiu a lenda de Jornada nas Estrelas. Décadas depois, a abertura do seriado Enterprise fez um resumo do caminho do homem para o espaço sem mostrar Yuri Gagarin, mas, esta é outra história.
O novo filme manteve o apelo de Chekov para o público jovem, estabelecendo que o personagem, agora interpretado por Anton Yelchin, tem apenas 17 anos. No entanto, antecipou sua entrada na história, colocando-o na tripulação quando a nave ainda está sob o comando do Capitão Pike. Na Série Clássicaa entrada aconteceu somente quando Kirk já tinha um ano de comando.
Outra inversão na ordem de entrada aconteceu com Montgomery Scott, o engenheiro milagroso interpretado na série original por James Doohan. No novo filme, Scott - (Simon Pegg) entra na tripulação pela porta dos fundos, quando a história já passa da metade, e não como um oficial da Frota Estelar, que está no comando da sala de máquinas da Enterprise desde o início da missão.
A menor alteração ficou por conta de Hikaru Sulu, o navegador originalmente interpretado por George Takei. Numa época em que a Segunda Guerra Mundial ainda estava fresca na memória do público, Sulu foi um dos primeiros orientais entre os "mocinhos" da televisão. Hoje, no entanto, sua presença na ponte (o sul-coreano John Cho) perdeu a força subversiva de colocar um representante das Forças do Eixo do "nosso lado".
Outro que não sofreu grandes alterações foi Leonard McCoy (DeForest Kelley). Ele continua sendo um oficial irascível que odeia viagens estelares e tenta explicar a todo momento que é um médico e não alguma outra coisa. O que mudou foi o motivo de seu apelido. Afinal, Karl Urban está longe de merecer o apelido de "Magro", a não ser por ironia.
James T. Kirk foi o décimo quinto nome sugerido para o capitão da Enterprise numa lista de dezesseis nomes possíveis em um memorando escrito em maio de 1965. Provando que os últimos serão os primeiros, o nome foi escolhido para o personagem que substituiria Pike no segundo episódio-piloto da série. No folheto da NBC para a temporada 1966-1967, Kirk é descrito como um homem de cerca de trinta anos que escalou os degraus da Frota até ser promovido a capitão. Kirk é também um homem que aprendeu a agir no limite entre amizade e autoridade, sem perder seu senso de humor ou compaixão.
No novo filme, Kirk é um garoto sem destino que preferiria incendiar a escada a escalar os degraus, e que chega ao comando graças aos resultados de suas ações que misturam coragem e absoluta falta de bom senso. As duas versões do capitão, no entanto, se unem quando o assunto é mulher. Kirk, o original (William Shatner), foi descrito em um estudo como "a epítome da fantasia adolescente" e "o James Bond da viagem interestelar". Ficaram famosas as cenas de luta em que ele invariavelmente terminava com sua camisa rasgada e de mulheres se derretendo diante do grande capitão da Frota Estelar.
O novo Kirk (Chris Pine) é um conquistador com um certo charme, mas, definitivamente pouca sorte, como prova seu rosto cheio de hematomas. Embora o trailer o mostre em ação com uma alienígena verde, seu maior alvo não é uma garota derretida, mas, a tenente Uhura, uma clara referência ao escândalo do beijo interracial televisivo. Para os recém-chegados ao mito Jornada nas Estrelas, o caso refere-se à audácia da Série Clássica em incluir uma cena de beijo entre Kirk e Uhura no episódio "Os Herdeiros de Platão" ("Platos Stepchildren"). Há sérias discussões quanto à cena ter ou não sido a primeira de um beijo entre atores de raças diferentes exibida pela TV estadunidense, mas, o mito de que Jornada nas Estrelas mostrou o primeiro beijo inter racial é indestrutível.
Uhura foi incluída na série para substituir Lloyd Hanes, que interpretou o oficial de comunicações Alden no segundo piloto. Um dos principais motivos para sua entrada no elenco foi o relacionamento extracurricular entre o criador da série, Gene Roddenberry e Nichelle Nichols - a Uhura original. Ao longo dos episódios, no entanto, Uhura teve muito pouco o que fazer além de anunciar que as freqüências estavam abertas.
A nova Uhura (Zoë Saldana), além de ignorar Kirk e exigir participar da ação, tem um papel central na grande surpresa do novo filme, seu relacionamento com Spock. Na série original, o papel de interesse romântico humano para o vulcano era outro e os filmes indicaram na verdade um relacionamento entre Uhura e Scott. Na nova versão de Jornada, Spock e Uhura mantêm um relacionamento obviamente não platônico, que será alvo certo nas intermináveis discussões dos fãs.
Pra completar, o único sobrevivente do primeiro episódio piloto da série, Spock é o melhor resumo do que o novo filme procura: o equilíbrio entre ter os mesmos personagens com uma dose de novidade. Zachary Quinto é o mesmo Spock de Leonard Nimoy, mas essa versão jovem revela mais momentos de fraqueza do que sua antecessora.
As cenas são ótimas para mexer com o público, mas a discussão está aberta quanto ao respeito ou não ao cânone que mantém a franquia viva, ou "imobilizada" na opinião de alguns, há décadas.
Pelo excelente final, que deixa um belo e emocionante gancho (marca do trabalho de J.J.Abrams), uma sequência já está planejada. Enfim, Jornada, ou melhor, Star Trek, está de volta. Mas se suas viagens continuarão ou não, é o público que decidirá nas bilheterias.
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