A
atual falta de talentos legítimos no cinema norte-americano provoca um
fenômeno interessante: basta aparecer um filme instigante, original, e
o seu diretor já passa a ser comparado com os maiores cineastas da história.
Com "Os Outros" ("The Others", 2001),
a sua terceira película, a primeira falada em inglês, o chileno
Alejandro Amenábar ganhou visibilidade. Ganhou, também,
o título de novo Alfred Hitchcock (1899-1980). Mas, se muitas
vezes a prática de elevar novos talentos ao Olimpo se demonstra apressada,
no caso de Amenábar há uma certa coerência. Claro, o chileno
está longe dos mestres do suspense, como Hitchcock. Mas "Os Outros"
não deixa de ser uma obra de sustos extremamente criativa, com direito
a alguns momentos de antologia. Todo
o seu início, a sua apresentação, por exemplo, merece figurar
em qualquer livro de referência sobre o cinema.
Numa
manhã de 1945, finalzinho da Segunda Guerra, num casarão fantasmagórico
da ilha britânica de Jersey, Grace (Nicole Kidman) desperta
de um pesadelo. Noites antes, os criados haviam fugido misteriosamente. Naquela
manhã, Grace recebe a visita de novos candidatos ao emprego. Enquanto
exibe os cômodos e detalha as regras, conta a história da família.
A espera diária do retorno do marido, o combatente Charles (Christopher
Eccleston), se mistura à rotina estafante de cuidados dispensados
aos dois filhos, Anne (Alakina Mann) e Nicholas (James
Bentley). Afetados por uma doença rara, os filhos de Grace não
podem entrar em contato com a luz do sol. A norma primordial da casa: nenhuma
porta se abre sem que a anterior tenha sido fechada à chave e sem que
as cortinas estejam cerradas.
Não
bastasse o clima soturno pontuado pela música sinistra, não bastasse
a luminosidade negra e alaranjada da penumbra leve em contraste com a fisionomia
singular de Nicole Kidman, Amenábar trata de adicionar toques sobrenaturais
ao roteiro. Anne enxerga fantasmas, mas sua mãe, católica fervorosa,
rejeita veementemente tal fato. Os relatos da menina, assim como a presença
misteriosa dos novos criados, prova que a fé de Grace não explica
certas realidades. Em muitos pontos, "Os Outros" lembra "O
Sexto Sentido" ("The Sixth Sense", 1999), a estréia
arrasadora do diretor indiano M. Night Shyamalan, igualmente muito festejado
e comparado ao diretor inglês, de quem não esconde ser fã.
O grande mérito de Amenábar, porém, é recriar com
qualidade o estilo de suspense genuíno, aquele que consagrou Hitchcock.
No lugar dos sustos fáceis, entra a sugestão, a insinuação.
Os fantasmas de "Os Outros" não arrastam correntes ou
perseguem mortais. Eles estão, sobretudo, na cabeça do espectador.
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