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Crítica: Ilha do Medo

O cineasta das referências se entrega a elas em um filme de extremos

Marcelo Hessel
11 de Março de 2010
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Ilha do Medo

Shutter Island
EUA , 2010 - 138
Policial / Suspense

Direção:
Martin Scorsese

Roteiro:
Laeta Kalogridis, Dennis Lehane

Elenco:
Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine

3 ovos
Em cartaz
ilha do medo
ilha do medo
ilha do medo

Surge do meio da neblina, como o carro no começo de Taxi Driver, a balsa que leva o agente federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) à Ilha do Medo. Se o autor do livro que serve de base ao filme, Dennis Lehane, já dizia que a sua ideia era homenagear gêneros, dos filmes B aos terrores góticos, na adaptação Martin Scorsese também abraça as múltiplas referências - a começar pela referência a si mesmo.

Como em Taxi Driver, a neblina é um enigma, simboliza um tormento. No caso, descobrimos rapidamente que Teddy está chegando ao presídio psiquiátrico na ilha Shutter, acompanhado do agente Chuck Aule (Mark Ruffalo), não só para investigar o desaparecimento de uma paciente, como também para resolver questões particulares que o assombram desde a morte de sua esposa, Dolores (Michelle Williams).

A partir daí a colagem de referências é tão intensa que Scorsese parece estar jogando pistas falsas para incitar interpretações do espectador. Filme de guerra (seria o hospital uma espécie de campo de concentração?), filme policial (estaria Teddy, como todo detetive de noir, sendo vítima de uma conspiração?) e filme-delírio (o que afinal é real na Shutter Island?) se misturam. Até o título nacional, que sugere um suspense sobrenatural, entra involuntariamente nesse jogo de espelhos.

E aí vai muito da disposição do espectador para entrar na brincadeira. Se você se incomoda com a mania de Lost, por exemplo, de apresentar novos personagens a cada temporada, vai se irritar com a quantidade de gente que, numa razão de 15 em 15 minutos, aparece do nada em Ilha do Medo. Herança dos filmes B, por sua vez, os diálogos variam do genérico ("o cais é o único caminho para entrar e o único para sair") ao hiperexpositivo (conte quantas vezes eles repetem que a Ala C é onde ficam os mais perigosos...).

O que deve agradar os fãs de Scorsese é acompanhar como o cineasta, um assimilador de referências por natureza, usa de seu estoque formal para se adequar às regras do gênero. Se a ideia é confundir o espectador, como nas cenas em que Teddy se encontra com Dolores, ele quebra o eixo de câmera descaradamente para "duplicar" Dolores (o que na mão de qualquer outro seria visto apenas como barbeiragem). Se o objetivo é exagerar na tensão, vamos logo de John Cage e "Music for Marcel Duchamp" na trilha sonora.

Ademais, quem mais abusaria de chicotes (aquelas pans rápidas que vão de um personagem a outro sem corte) de forma tão temerária? Ilha do Medo tem alguns momentos constrangedores (estátua de fauno, sério mesmo?) e outros transcendentais, como os flashbacks do Holocausto - um Holocausto meio barroco, reimaginado sob influência da química do hospício, o que não deixa de ser interessante. Ambos os extremos têm seu apelo. Não trata-se de tentar tirar uma média, mas de acompanhar, com certo prazer, como Scorsese passa do sublime ao desastroso sem se abalar.

No fim, olhando para os trabalhos do diretor na última década, recebidos de forma amistosa pela crítica e pela mídia, não é difícil aferir que Ilha do Medo é o mais ousado, para o bem e para o mal. Será recebido com opiniões polarizadas, mas pelo menos fica o alívio de que, depois do Oscar, o diretor não se acomodou.

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Comentários (49)

Valdeci (28/07/2010 18:25:00) Tenho por hábito jamais ler comentários ou críticas especializadas sobre filmes que ainda não assisti. Até porque, não costumo frequentar mais as salas de cinema por falta de tempo e, como tenho locadora, espero o DVD chegar ao mercado para assistir aos filmes. Como isso ocorre uns quatro ou cinco meses depois que todo mundo já viu no cinema e a crítica já fez seus comentários procuro não deixar-me influenciar e também para não perder as surpresas que o filme me reserva. Gosto de assistir a um filme de mente aberta e olhos atentos e me deixar levar pelo roteiro e pela criatividade do trabalho do diretor em questão. Assim, ao começar a assistir ao filme Ilha do Medo, do grande mestre Martin Scorsesse já fiquei atento ao detalhe da trilha sonora pulsante e escandalosamente explícita do suspense que estava prestes a assistir. Quando o carro que transporta Teddy Daniels ao hospital presídio a trilha é arrebatadora e é impossível não se lembrar dos filmes de suspense e terror das velhas produções dos anos 30 e 40. Pensei com meus botões: Bem, será esta produção uma homenagem aos filmes daqueles tempos? Vários minutos depois esta impressão se confirmou com a homenagem a Alfred Hitchock, Briam di Palma e, pode ser exagero meu, mas consegui sentir a presença de David Lynch através da personalidade caótica de Teddy. A confusão deste personagem interessante e sua falta de perspectiva de perceber e diferenciar sonho e realidade, lembranças reais ou confusões mentais são muitíssimo reveladoras.
Em uma cena Teddy Daniels pergunta ao seu parceiro “É melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”. Está, como se diz popularmente, matada a charada do enigma dos minutos que faltavam para o término do filme. Não que eu tenha descoberto o final e a reviravolta que veria a seguir, mas era, sem sobra de dúvida, uma grande pista que me deixou com a pulga atrás da orelha. Confesso que fiquei com vontade de rever este filme (e o farei com certeza) tal o impacto que ele me causou. Gosto muito desta temática paranóica e aquele ambiente claustrofóbico que vive o personagem principal. Sua confusão mental e suas lembranças chegam a ser dolorosa para quem assisti. Ter praticado aquela carnificina com os soldados alemães ao libertar os prisioneiros judeus no campo de concentração foi um ato que marcou profundamente sua personalidade e Teddy Daniels deveria viver com esta angústia. Ou fugir deste pesadelo. Aquela fotografia espetacular, aqueles figurinos com suas cores sóbrias, os ângulos de câmeras fabulosos e claro a iluminação perfeita foram responsáveis para caracterizar um ambiente propício para a loucura dos personagens, bem como para transmitir ao espectador toda a pressão psicológica enfrentada por Teddy.
Para quem ainda não viu o filme Teddy Deniels (Leonardo DiCaprio) é um agente da FBI que, juntamente com seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) seguem para Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston para investigar o desaparecimento de Rachel solando (Emily Mortimer) uma paciente criminosa que teria matado, por afogamento, os próprios filhos. Ao iniciar os trabalhos investigativos no local, relata ao seu parceiro que também está procurando no hospício/presídio Andrew Leaddis (Elias Koteas) o homem que teria assassinado sua esposa. Ao ficarem isolado na ilha em razão de uma tempestade começa a desconfiar que no local devam estar havendo experiências humanas idênticas aos praticados pelos nazistas aos judeus. Lembranças de seus atos como soldado na segunda guerra interferem na sua capacidade descobrir o paradeiro de Rachel. Tais lembranças e o assassinato da esposa levam o espectador a cair em inúmeras armadilhas e a acreditar que descobriu o fim do filme. Mas Scorsese volta novamente a criar novas possibilidades e a desmoronar a certeza do entendimento final e assim, de armadilha em armadilha, vamos sendo guiados pela mão do mestre e seu roteiro muito interessante. Uma obra-prima de Martin Scorsese. Suspense na dose certa em um cenário muito bem construído para deixarmos presos nesta ilha de muitas surpresas e reviravoltas onde a verdade pode ser mais cruel que a imaginação psicótica.
Leonardo DiCaprio está perfeito como o conturbado Teddy Deniels e Mark Ruffalo desempenha seu papel de Chuck na dose certa com uma interpretação quase sutil de quem leva pela mão seu companheiro de investigação. Max Von Sydow como Dr. Reremiah é um achado e dá a esta produção um ingrediente de suspense bastante interessante. Pena que Ben Kingsley como Dr. John Crawley dá algumas pistas e parece ser o personagem mais caricato dos filmes de “cientistas malucos que fazem experiências com humanos” já vistos anteriormente em outras produções do gênero. Mas nada que comprometa.

Meu blog: http://maisde140caracteres.wordpress.com
Juliozales (17/07/2010 01:49:55) Michele, creio que nesse caso não temos um final aberto não, quando no final o Teddy diz aquela frase que vc mencionou (no qual eu considero fantástica), [spoiler]fica claro que ele fez de propósito, ele simulou que ainda acreditava ser um agente, para que fosse dada a ordem de ser feito a lobotomia nele, pois ele não queria viver como um monstro.

Quanto ao pessoal que se gaba de ter sacado o final do filme logo no começo, tenho um amigo igualzinho a vcs, ele só não se gaba dos trocentos filmes que ele erra o desfecho, sem falar que nem todo mundo fica preocupado em tentar descobrir o final e sim em assistir ao filme, e curtir. Nada contra vcs viu, é que dá a impressão de que vcs estão se gabando disso, o que seria ridiculo.
Carlos (14/07/2010 23:12:25) Eu achei sensacional o filme...
Pra mim tudo no filme foi muito bom: a dose certa de suspense, o excelente diretor, as ótimas interpretações e o roteiro de 1º!!!
Acho que os 3 ovos foram pouco, eu daria uns 4 sem dúvida...
michele (07/07/2010 01:09:34) me indigna as críticas que dizem que este filme é previsível. Primeiro isso é um filme de autoria repleto de auto-referencia alguém acha q o scorsese ía fazer seguir a formula de Os outros ou o sexto sentido? Bom, o filme inteiro da pistas sobre vários desfechos ae obveo q numa interpretação final tu tem a impressão de q ja sabia. só q no fim mesmo n tem desfecho claro
p mim ele n era louco
por mais q fosse o obveo pq
ele diz: esse lugar me fez pensar
é melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom. Então ele segue com os medicos e guardas p farol. Outra coisa, as imagens que o cara via das crianças era por causa das lembranças do holocausto. Qual seria a lógica dos flashback do holocausto?? Além disso, a doutora diz que ele jamais irá conseguir provar o contrário e nem deixar a ilha quando ela cita kafka. Não tem nada nem uma respiração no filme sem ta amarrado na trama. Um fantástico o roteiro que demonstra que se o filme seguir o espectador vai continuar se contradizendo nas suas interpretações, um desfecho aberto que só define que não há fronteiras entre realidade e imaginação.


R@f♠nha™ (05/07/2010 10:21:03) Meio que foi previsivel o final, mas como disseram ai embaixo o que prendeu a atenção foi saber o que aconteceu com a esposa e os filhos!
Alguns "devaneios" em exagero e tal mais não é de todo mal 3 ovos tá bão!!!!

Ilha do Medo rules!!!!!
Luiz Gustavo (30/05/2010 15:57:37) Assim que eles pisaram na ilha e o Teddy comentou sobre a tensão dos guardas eu percebi que no final descobriríamos que ele era o louco.
A única dúvida que me acompanhou no decorrer do filme foi em relação ao papel do Teddy na morte dos filhos e da esposa.

Quanto ao comentário do Francis é preciso deixar claro que "explodir um carro, escalar penhascos, e ficar solto a sua boa vontade" foi justamente o estopim de tudo.
Quando ele escala o penhasco, seu "parceiro" já tinha considerado tudo aquilo como caso perdido. A partir desse momento todos tratam Teddy como paciente, desde o diretor do manicômio até o psiquiatra. A explosão do carro foi uma situação da qual eles não tiveram mais controle e, até então, Teddy JAMAIS havia ficado "solto a sua boa vontade".
Assista ao filme novamente e perceba que o método proposto pelo psiquiatra era apenas deixar Teddy viver sua fantasia, mas sempre sob supervisão do seu "parceiro".

Enfim... Apesar de ter matado metade da trama nos primeiros 10 minutos, o filme conseguiu me prender até o final.
Scorsese sabe o que faz.
marcyda (27/05/2010 10:10:30) Meus amigos que me desculpem, mas acredito que nenhum filme baseado em uma historia já publicada em um livro seja pensado para ser SURPREENDENTE!

Acho que o Scorcese nos proporciona uma experiencia muito maior que a historia propriamente em si, como já dito antes, batida e pouco original.

As interpretações do Di Caprio e do Ruffalo (pq não?) também são dignas de serem admiradas.

Acho que toda concepção muda quando o telespectador vê o que tem para ser visto e aprecia a obra sem se prender a coisas como "tentar advinhar o final".
Eduardo (25/05/2010 23:17:48) História nada original, mas o filme é bem dirigido e com boas atuações. Bom filme, apenas um bom filme.
Francis (13/05/2010 00:55:31) Filme nada original, com uma formula ja bem conhecida (Tire os fantasmas de Os Outros e Sexto Sentido e troque por loucos.) Apesar das otimas atuações o filme não me convenceu.
Simplismente nao posso concordar em que tudo aquilo desde o inicio foi pensado para fazer um louco "cair na real". Explodir um carro, escalar penhascos, e ficar solto a sua boa vontade... Pra mim a historia tentou ser grande demais, e não foi feliz.

Rachel (22/04/2010 08:58:10) DEFINITIVO! É assim que eu defino o filme.
Um amigo meu havia assistido e me dado a chave essencial para o entendimento da trama: me contou que tratava-se da história de um psicótico pseudo-investigador. E tão somente isso.
Com a informação-chave em mãos, pude mergulhar na trama, pude entender cada assombro, cada pesadelo e cada surto que Andrew tinha.
O filme é muito bem amarrado, não existem cenas dispensáveis. Cada expressão, cada respiração e cada olhar desconfiado são de suma importância para o emaranhado de informações que torna a trama sedutora e ao mesmo tempo causa horror e susto.
Não há crítica negativa que possa tirar o brio da atuação impecável de Dicaprio, bem como do roteiro de Scorsese, fiel à risca e extremamente devotado ao gótico supertenso.

O filme é eletrizante. Quem o acompanha - desde o princípio - sabendo que trata-se de uma ilusão; pode apreciar cada mínimo detalhe da construção fantasiosa da mente de um psicótico.

Classifico com uma omelete inteira!!!

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