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A Via Láctea

Um amor dividido pela galáxia conhecida como trânsito de São Paulo

Marcelo Hessel
25 de Outubro de 2007
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A Via Láctea

Brasil , 2007 - 88
Drama / Romance

Direção:
Lina Chamie

Roteiro:
Aleksei Abib, Lina Chamie

Elenco:
Marco Ricca, Alice Braga, Fernando Alves Pinto

4 ovos
Em cartaz

 

 

"Ele era advogado. Como? Advogado. Como? Ele era advogado. Ah sim, em 1923. Como? Em 1923. Como?"

O "anti-diálogo" acima, entre Sérgio Mamberti e Walderez de Barros, era um dos momentos mais insólitos de Tônica Dominante (2000), o longa-metragem de estréia da diretora Lina Chamie. Insólito, sim, e breve, mas um momento emblemático, com o seu humor crítico à Jacques Tati, do ensaio sobre a incomunicabilidade que Lina criou no seu primeiro filme e redesenvolve agora em A Via Láctea.

Heitor, o personagem de Marco Ricca perdido na via láctea que é o galáxia de luzes de um congestionamento paulistano, foi vítima de um desses ruídos de comunicação. Logo cedo naquele dia, Heitor brigou por uma bobagem com a namorada, Júlia (Alice Braga), e ela respondeu que eles deveriam dar um tempo. Heitor passará então o filme inteiro dentro do seu carro tentando chegar à casa de Júlia - porque não há mil palavras equivocadas que um único beijo não cure.

No meio dessa viagem literal e metafórica que é a trama de A Via Láctea, ficamos sabendo em flashbacks como o cerebral Heitor, escritor e professor, conheceu a calorosa Júlia, ex-atriz, hoje veterinária. Os dois no teatro, em uma livraria, os dois no alto de um edifício, na casa à moda antiga de Júlia. De que modo aquele amor arrebatador culminou no drama motorizado de Heitor?

O que havia de incomunicável entre homens e mulheres de Tônica Dominante se remediava com a música, como se a expressão artística fosse o único meio de diálogo possível. Lina Chamie se contraria um pouco quando, entrevistada, é relembrada a todo momento de sua formação musical de clarinetista, e responde que os seus dois filmes são cinemáticos acima de tudo. Ela tem toda a razão, mas não haveria Tônica Dominante se não houvesse a música.

A Via Láctea também trata de incomunicabilidade - Júlia o tempo inteiro tenta chegar a Heitor, pelo rádio, em painéis na rua, da mesma forma que Heitor se mata para alcançar Júlia - e os sons, sincronizados ou não, são fundamentais ao filme, mas não é exatamente a música que une as pessoas aqui. A ponte que liga Júlia e Heitor é o toque. Seu amor durará enquanto o casal estiver lado a lado.

Lina Chamie agora pode dizer que chegou mesmo ao cinemático. A Via Láctea é um espetáculo de montagem e edição de som, mas a alma do filme está na câmera, na forma como se aproxima do rosto aflito do protagonista, como filma os abraços do casal, como completa um quadro com Júlia à frente e Heitor no segundo plano, quase tocando-se. Se os amores dos filmes de Lina Chamie seguem atormentados, quase inviabilizados, pelo ruídos do mundo, A Via Láctea ao menos dá ao amor de Júlia e Heitor uma memória a se apegar.


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