A alta cúpula já estava preparada para o fim do mundo. Mas o geólogo
chega para o presidente dos Estados Unidos e diz que suas contas estavam equivocadas
- o cataclisma acontecerá meses antes do que ele previa. O presidente questiona:
como assim contas equivocadas? O geólogo não tem o que dizer: "Simplesmente
errei".
Então o presidente negro dos EUA, vivido por Danny Glover,
se resigna: "Sabe quantas vezes se ouviu aqui na Casa Branca uma pessoa reconhecer
que estava errada? Zero". É uma confissão de prepotência que, dada a opção
de associar visualmente o presidente fictício com Barack Obama, passa a ecoar
questões da Era Bush. O diretor Roland Emmerich destrói o planeta em
2012 para que todos nós perdoemos os EUA, basicamente.
O filme-catástrofe é um subgênero fetichista por excelência, em
que a catarse do caos aliena nossos problemas de fato - ao ver o lagarto gigante
de Godzilla destruindo Manhattan, por exemplo, os medos da vida real
soam prosaicos. O que Emmerich faz em 2012 é combater o componente alienante.
É o seu filme mais panfletário e também o que martela mais forte uma mensagem.
Para quem já dirigiu patacoadas americanófilas como Soldado Universal,
Independence Day e O Patriota, não é pouca coisa.
A trama se faz de premissas consagradas. Acompanhamos o clássico
pai divorciado que está tentando reconquistar o afeto dos filhos, interpretado
por John Cusack, a metonímia que individualiza para o espectador um drama
tão continental que, visto só de cima, perderia um pouco a humanidade. Para
que o espectador possa se identificar com cada um dos desastres (vulcões, fissuras
tectônicas, maremotos), o pobre John Cusack será forçado a estar presente em
cada um deles.
Não é difícil imaginar o final de uma história dessas. O que muda,
na forma como Emmerich tonaliza 2012, é o peso. O processo de desalienação
do filme-catástrofe leva a um sentimento de culpa generalizado. O presidente
se sente culpado por não ter avisado a população do fim. O geólogo se sente
culpado porque não vai salvar quem gostaria. O pai do geólogo, que descobrimos
ter um histórico de alcoolismo, indica se sentir culpado pela relação que manteve
com o filho.
Repare que o personagem de Cusack, um escritor, fala em seu livro
sobre abnegação, sobre o dom de entregar a vida pelo próximo, mas seu momento
de heroísmo no filme vem atrelado a um sentimento de culpa: "Nós causamos
isso".
Todo mundo carrega um remorso, enfim, e o tempo para repará-lo
está encurtando. Como 2012 se constitui de um mosaico de vidas efêmeras
- antes de se apegar às pessoas Emmerich está mais interessado em tornar plausível
o colapso do planeta, vide a animação infantil criada pelo personagem de Woody
Harrelson - o jeito é recorrer à redenção express.
O tempo de tela de cada personagem é mínimo, então trate de aproveitar para
pedir suas desculpas e, se for o caso, fazer suas preces.
Não achei que fosse usar esse adjetivo aqui, mas 2012
é um filme... triste. E diante de toda esse pesar surge como um alívio a
cena em que a bibelô russa tenta salvar a vida de seu pequinês. O maior maremoto
de todos os tempos vai cobrir o diabo do Himalaia e somos obrigados a torcer
por um cachorro... Essa cena é o que nos traz de volta o senso de absurdo de
2012, e naquele respiro Emmerich parece entender, nem que seja por um
minuto, que o gênero no qual ele se especializou às vezes se leva a sério demais.
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