Transformers2 - A Vingança dos Derrotados é o filme mais visto do ano. Star Trek é, na opinião aqui da Cozinha, um dos melhores filmes de 2009. O que esses dois projetos têm em comum? Ambos foram escritos por Roberto Orci e Alex Kurtzman.
Para falar sobre os lançamentos em DVD/Blu-ray dos filmes, os dois receberam a imprensa em um hotel em Santa Monica. Quem esteve por lá representando o Omelete foi o nosso correspondente Steve Weintraub, do site Collider. Leia abaixo a entrevista, traduzida por Carina Toledo:
Vocês poderiam falar um pouco sobre
a sua abordagem em relação aos extras do DVD de Star Trek e do DVD
de Transformers 2?
Kurtzman: Normalmente nós sentamos
e falamos de maneira bem descontraída sobre a experiência de fazer
o filme. Eu acho que as diferenças estão em como os dois filmes foram
feitos, não necessáriamente na abordagem dos extras do DVD. O que
é legal dos extras de DVD é que, em ambos os casos, eles documentam
tudo que nós passamos juntos, do minuto em que começamos até o filme
ser lançado. É bem completo.
Orci: Nós tentamos nos abrir o máximo
possível sobre como criamos cada coisa. Não é só um "Eu me
lembro desse dia". Mas também interpretar as coisas que fizemos.
K: Nós crescemos sem ter nada disso.
Por exemplo, quando eu era mais mais novo tinha um livro de roteiro.
Apenas um. Hoje existem os DVDs e você pode entrar na Internet e ver tudo.
Tem muita coisa! Nós achamos muito legal que as pessoas podem realmente
ter tudo aquilo que nós não tínhamos. Então tentamos colocar o máximo
que podemos nos extras do DVD.
A cena de abertura de Star Trek foi
muito surpreendente. Como isso se desenvolveu, e qual foi a abordagem
criativa de vocês pra isso?
K: Engraçado, mas essa não foi a
primeira cena para o filme que nós escrevemos. Essa seria a segunda
cena do filme, a primeira cena está no DVD. A primeira cena ia ser a do nascimento do Spock. Nós sabíamos que a maneira como estes
personagens nasceram ia definir tudo sobre a pessoa que eles se tornariam.
Saber que Kirk seria um renegado, que ele teria problemas com o pai,
que ele ia se perder; sabendo que ele teria que se afirmar sozinho como
capitão, tudo isso trazia uma série de coisas que nos permitiu pensar
o que criaria um homem como esse? Para fazer jus ao desafio, ao questionamento
de "Você vai ser tão bom quanto o seu pai, que literalmente deu
a vida por você? Você vai fazer jus a esse desafio, essa expectativa?"
Foi um lugar muito emotivo de se começar.
Uma das coisas que nós ouvimos muito
é que as mulheres não gostam de ficção científica porque não tem
emoção. Ficamos totalmente ofendidos com isso e pensamos, "Ok,
isso é bobagem. Vamos mostrar como esse preconceito é errado, do começo,
e aí tudo ficará equalizado. E poderemos seguir em frente a partir
daí".
O: Eu acho que a primeira ideia que
tivemos disso foi quando pensamos, "Kirk deveria nascer no espaço.
Ele está na nave do pai dele, no meio de uma batalha". Começou
com a ideia de que ele deveria nascer no espaço e não em Iowa.
Algumas pessoas acharam que o Spock
Prime parar e explicar o que estava acontecendo tirou as pessoas da
imersão do filme. O que você acha disso?
K: Eu acho que nós somos mais atraídos
por estruturas misteriosas, por mais ou menos uma hora, uma hora e quinze
minutos. Como platéia, eu sempre gosto de me pegar imaginando "O
que está acontecendo aqui? Não estou entendendo. É intrigante! Aonde
isso vai dar?". Mas, quando você entra nesse caminho, você faz
uma dívida, e deve para a platéia um pagamento, que é aquele momento
em que vem alguém e mostra as respostas para todas as perguntas que
elas ficaram se fazendo na última uma hora e quinze minutos.
O truque pra fazer esse tipo de cena
é deixá-las bem interessantes e próximas do personagem, porque o
que você não quer é uma cena em que alguém simplesmente te conta
a trama. Isso é bem chato e a platéia normalmente se distrai. Eu acho
que o mérito dessa cena é que nós sabíamos que era uma história
muito sentimental para o Spock contar, porque ele estava falando sobre
a perda do planeta dele, e a responsabilidade que ele tinha nisso. E
aí é literalmente um novo Kirk, que não gostava do Spock, percebendo
que ele é um personagem muito mais profundo.
O: Essa cena é uma reviravolta tão
grande que é muito mais do que jogar a trama lá. Eu não mudaria nada.
J.J. Abrams falou sobre examinar alguns
pulos lógicos na história para o DVD de Star Trek. Isso foi uma coisa
que vocês olharam no DVD? E outra coisa, vocês trabalharam algum problema
que surgiu com o DVD de Transformers?
O: Sim. Nós tentamos mostrar o que
estamos percebendo no momento. Com certeza algumas decisões que foram
tomadas foram especificamente em relação à trama original. É sobre
isso que é o filme. Ele vai seguir a trama original ou não, e o que
você vai achar disso, se você for um fã? Não dá pra evitar essa
conversa.
K: Eu me lembro de uma seção de
umas quatro ou seis horas de conversa no estúdio, em que tudo ainda
estava meio confuso. Nós falamos de tudo, desde as decisões que tomamos,
incluindo porque nós queríamos voltar a fazer Transformers, até as
mudanças que foram acontecendo durante o processo. E muitas das respostas
para essas perguntas estão no DVD.
Em Star Trek, quando foi o primeiro
momento em que vocês começaram a ter certeza de que tinham encontrado
a mistura certa?
O: Acontece duas vezes. Você sente
isso uma vez, quando você sabe que tem a história certa, e acho que
sentimos isso muito forte, quando estávamos escrevendo. O "Ah-há!"
de ter o Leonard Nimoy na história foi muito importante pra gente.
Mas aí você tem que realmente rodar o filme, e escolher os atores.
É possível substituir ícones? Como vai ser isso? E até no meio das
filmagens, quando você entra num set e espera que o visual seja muito
legal, e não como algo do Saturday Night Live, ou coisa do tipo.
A segunda vez que sentimos isso provavelmente
foi quando assistimos à primeira versão. Então aconteceu uma vez
quando escrevemos o roteiro e depois quando vimos a primeira versão
e percebemos que os atores eram realmente ótimos e o design de produção
estava realmente bom. Foi aí que vimos acontecer de verdade.
K: Eu acho que escrever Star Trek foi provavelmente a experiência mais emocionante que nós tivemos,
realmente na parte da escrita. Porque não só estávamos lidando com
esses personagens icônicos, mas a responsabilidade que de repente está
nas suas mãos, de trazer estes personagens de volta para o mundo e
contar uma história que é altamente sentimental.
O: Nós literalmente nos trancamos
num quarto de hotel por semanas e semanas.
K: Nós trabalhamos cena por cena,
fala por fala. No nosso ritmo de trabalho normal não é sempre que
pensamos em cada ponto e cada vírgula.
Quando você está escrevendo personagens
tão bem estabelecidos, como você captura o som disso sem ter diálogos
que parecem vindos dos anos 60?
O: Nós tivemos sorte com isso. Quando
tivemos a ideia, já sabíamos que seriam versões jovens deles, se tornando quem
eles são, então já tínhamos um arco de história muito natural.
Eles não chegam a ser as pessoas que eles são na série até o fim
do filme, então isso nos libertou de ter que imitá-los exatamente,
e poder contar uma história de crescimento.
K: Porque esses personagens estão
tão construídos nas nossas mentes, desde a infância, então eles
já estão vivos na sua cabeça, de certo jeito. Então quando você
senta para realmente escrever, você fica ouvindo uma voz da infância,
das memórias voltando. Isso se torna o melhor referencial ao escrever
um diálogo, porque nós sabemos que tinham certas características
de cada personagem que tinham que ser representadas, mas a pergunta
era: como fazer isso de um jeito novo? Nós ainda não tínhamos escalado
nenhum dos atores, quando escrevemos a primeira versão do roteiro,
então tínhamos que conhecer bem as personalidades dos personagens,
mas encontrar uma maneira de deixá-las mais frescas.
O: E ler os livros ajudou muito. Nós
lemos muitos dos livros de Star Trek.
Vocês têm alguma memória específica
da primeira vez que se deparam com Star Trek, quando crianças?
O: Pra mim, foi com meu tio.
Ele me explicou a versão infantil da Teoria da Relatividade. Eu me
lembro que essa foi a primeira vez que eu ouvi o nome Einstein e percebi
que existia um mundo maior, da física, da ciência, um mundo mágico
e foi através da minha família.
K: A série original já estava sendo
reprisada pelo KTLA quando eu estava crescendo. Eu gostava, mas não
era fissurado do jeito que eu fiquei quando assisti
A Ira de Khan. Assistir isso no cinema, e a amizade entre o Kirk
e o Spock, que foi desenhada de uma maneira tão bonita nesse filme,
me tocou muito na época. E foi uma referência muito forte para o que
queríamos fazer no filme.
Vocês vão continuar trabalhando
com o J.J. Abrams na tentativa de subir o nível?
K: Nós adoraríamos. Uma boa história
é uma boa história, não importa da onde ela veio. Qualquer coisa
que chame nossa atenção, vai nos empolgar.
Vocês estão trabalhando no novo
programa de espionagem dele?
K: Não.
O sucesso do primeiro filme dá mais
coragem para tomar algumas liberdades, ao pensar as ideias para a continuação,
ou é uma pressão a mais para explorar a história original?
O: É tipo "Ótimo, tivemos uma
bela vitória, mas agora precisamos ir lá e fazer isso de novo".
Ainda temos o mesmo nervosismo e a mesma reverência por Trek.
K: Mas também tem a empolgação
em saber que temos tudo no lugar. Ao fazer o primeiro filme, nós não
fazíamos a menor ideia de como seriam os atores. Agora, sabendo como
foi a sensação e quem vai fazer cada papel, vai ajudar bastante.
Vocês poderiam falar um pouco sobre
como, nas duas franquias, vocês abordaram algo familiar e ainda surpreenderam
as platéias?
K: No caso de Transformers, não vimos
ele como re-imaginar alguma coisa, porque não existia um filme. Era
só um desenho. Foi mais imaginar como seria o visual, e como ficaria.
Os padrões de contar uma história eram tão diferentes quando o desenho
foi inventado. Eles literalmente não teriam a habilidade de fazer uma
versão em live action. Então era uma questão de descobrir como seria
o equilíbro de tempo entre robôs e humanos na tela, quem seria o personagem
que eles viveriam no mundo e qual e como era essa história. Encontrar
a história de um menino e seu carrinho não parecia que nos desviaria
de nada. Foi só descobrir como ia ser, e aí pensamos que seria mais
como os filmes que assistimos quando criança, da mesma veia de Amblin.
E aí isso nos trouxe de volta ao menino e seu carrinho.
O: No caso de Star Trek, existem 10
filmes. Você já assistiu em live-action e várias coisas que podem
ser feitas. Deixou uma impressão muito mais forte na mente das pessoas.
Vocês imaginavam que a continuação
de Transformers seria tão controversa?
O: Sim, eu esperava que as opiniões
ficassem bem divididas. Continuações são alvo fácil pra esse tipo
de comentário. O roteiro foi desenvolvido sob a pressão de uma greve
de roteiristas, o que já nos torna alvos. Foi um filme mais longo,
o que gerou um certo debate. Era mais grandioso, mais barulhento e mais
longo que o primeiro, que também gerou suas controvérsias. Por mim
eu achei que era longo, mas os fãs adoraram e queriam que fosse maior
ainda!
K: É muito difícil adivinhar o que
as pessoas vão ou não vão gostar. O que uma pessoa achou muito longo,
meu priminho de 12 anos disse, "Eu queria que fosse mais comprido!". Isso me confunde
totalmente. Então, no fim das contas, o Michael Bay tem um ritmo próprio
e ele acaba determinando a duração do filme na edição.
Tem muitas cenas excluídas no DVD
de Star Trek, e teve cenas que foram cortadas já no roteiro, antes
de gravar. Pra vocês, qual foi a cena mais difícil de cortar?
O: Nenhuma, porque todas as cenas
que acabaram sendo cortadas não estavam no nosso roteiro original.
E aquele negócio do Klingon?
O: Isso nós acrescentamos depois.
Sabíamos que talvez ficasse longo, mas quisemos fazer mesmo assim.
Então gostamos exatamente do jeito como ficou.
E em Transformers?
O: Nesse, foi o contrário. Cenas
demais foram parar no filme finalizado. Brincadeira. Nesse, pelo fato
de poder animar os robôs só depois da cena mesmo, ficamos mexendo
nos diálogos até o último minuto. Já no Star Trek, uma vez filmado,
acabou. No Transformers as cenas podiam ser criadas depois, cenas que
nem estavam no roteiro original, então é o contrário. Dá pra inventar
cenas depois, o que é a parte legal disso.
No Star Trek, nós ouvimos o Greg
Grunberg como o padrasto, mas não vemos ele. Poderemos vê-lo no DVD?
K: Você vê o padrasto no DVD, mas
não é o Greg. É uma cena que acabamos perdendo.
O: O Greg não estava originalmente
no elenco, depois ele entrou para fazer a voz. Tem uma cena que foi
filmada com outro ator.
Vai ter espaço para o Greg Grunberg
na continuação do Star Trek?
K: Sempre tem espaço para mais Grunberg.
A questão é se ele terá tempo, afinal ele é um dos heróis da TV.
Vamos ver como vai, se ele tiver tempo, nós adoraríamos.
Vocês poderiam falar sobre o projeto
em andamento com Masi Oka? A quantas anda isso?
O: Ainda estamos acertando a história.
K: Na verdade nós não podemos falar
muito sobre isso, mas o Masi é incrível. É uma maravilha trabalhar
com ele.
O: Quem está escrevendo é o Gary
Whitta.
K: Nós escrevemos o
The Book of Eli, que vai sair este ano.
O: Ele desenvolveu uma ótima história
e agora temos que apresentar para os diretores do estúdio. Ainda vamos
descobrir o que vai acontecer.
A relação entre o Kirk e o Spock
se parece com a relação de vocês dois?
K: Nós estávamos no meio da cena
de luta na ponte, depois da destruição de Vulcan, e percebemos que
estávamos escrevendo sobre nós mesmos.
O: Eu percebi bem antes disso.
K: É, mas ele não disse nada.
E quem de vocês é o Spock e quem
é o Kirk?
O: Eu acho que o Alex é o Kirk e
eu sou o Spock.
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