Na verdade, as lições de estratégia militar escritas por
Sun Tzu seis séculos antes de Cristo já inspiravam os líderes
dos três feudos que, dos anos 220 a 280 d.C., durante a dinastia Han,
guerrearam entre si para defender sua parcela no território chinês.
O clímax dessa luta, a batalha dos penhascos vermelhos, são o
foco da história contada por John Woo.
No filme, somos logo apresentados a Cao Cao (Zhang Fengyi),
primeiro-ministro do imperador que, vindo de uma vitória militar, consegue
convencer o fraco regente a bancar outra guerra - desta vez, contra os supostos
rebeldes do sul, os reinos dos senhores Sun Quan e Liu Bei. O exército
de Cao Cao é radicalmente mais numeroso, mas a aliança formada
pelos estrategistas de Sun Quan e Liu Bei - respectivamente, Zhou Yu (Tony
Leung Chiu-wai) e Zhuge Liang (Takeshi Kaneshiro)
- tenta tirar a vantagem de Cao Cao na base da inteligência.
Woo faz um trabalho formidável no início para não deixar
que a salada de nomes, reinos e hierarquias confunda o espectador. Formidável
porque somos apresentados de forma didática a cada um dos senhores feudais,
generais e conselheiros (inclusive com legendas, como num tokusatsu),
com cada personagem sendo tipificado de um jeito (há o general brutamontes,
um outro bom de montaria, há o estrategista que ama a mulher, outro que
sabe apreciar música), e esse resumão, ao invés de reduzir
o potencial desses personagens, consegue nos dar um painel amplo do que esperar,
quando a batalha começar.
É como se nos fossem apresentados os "jogadores" de um imenso
game de estratégia. Não por acaso, os personagens vividos pelos
astros Kaneshiro e Tony Leung são os verdadeiros protagonistas. É
na boca dos dois que John Woo coloca as frases mais sintéticas do pensamento
de Sun Tzu - guerrear é proteger civis, respeitar as leis da natureza
etc. E enquanto os "rebeldes" do sul são mostrados como benfeitores
(ensinando soldados a ler e escrever), Cao Cao é pintado como o militar
extremado, que usa até futebol no treinamento de seus homens. Ironicamente,
Cao Cao é tido, historicamente, como um dos principais responsáveis
por preservar os escritos de Sun Tzu para a posteridade.
Uma vez que a arte da guerra de Sun Tzu se baseia numa ética própria
- repare como o pior xingamento que alguém pode receber no filme é
"traidor" - John Woo consegue licença para exercitar
todos os seus dons sem a preocupação de estar glamourizando a violência.
Planos de gruas, travelings circulares, zooms velozes... Todo tipo de ferramenta
de cinema de ação, mesmo os mais cafonas, como as fusões
de imagens, caem bem na mão do cineasta. A Batalha dos 3 Reinos
é um épico digno do nome, e o senso de ritmo do diretor, que faz
150 minutos de sessão parecer menos, é invulgar.
Vale comparar o longa - o primeiro do cineasta em sua pátria materna
desde Fervura Máxima (1992) - com outros similares, como os
épicos de Zhang Yimou, de Herói e O
Clã das Adagas Voadoras. As diferenças ficam evidentes nos
momentos mais movimentados da ação. Enquanto Yimou privilegia
a coreografia da luta, o bailado dos corpos que não necessariamente implica
um bailado também da câmera, John Woo pensa com cabeça de
montador. Há algum balé e pouco wire-fu em A Batalha
dos 3 Reinos, mas a verdadeira coreografia ali é de câmera.
O compasso das lutas não se dá na encenação, mas
no jogo de aproximar, rodar e afastar que Woo impõe na montagem.
E aí fica difícil não se render ao estilo de John Woo.
Não falta nem a pomba!
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