Androides não são novidade para os roteiristas John D.
Brancato e Michael Ferris, dupla que assinou Exterminador
do Futuro 3 e Exterminador
do Futuro: A Salvação. Imagino que Substitutos
(Surrogates) tenha saído justamente daí, das conversas
para delinear o universo de T-800s e resistências humanas, afinal a nova
ficção científica poderia funcionar como uma espécie
de futuro alternativo, quando a tecnologia dos Exterminadores foi empregada
no auxílio dos humanos - e não contra eles.
Acontece que, como nerds, Brancato e Ferris estão um pouco ultrapassados.
A história simplesmente ignora fatos atuais que poderiam delinear melhor o universo do filme.
Na trama, ambientada em 2054, 90 e tantos porcento da humanidade trocou sua
existência diária, de carne-e-osso, por androides substitutos da
Virtual Self. No melhor estilo Matrix, os usuários podem sentar-se em
confortáveis poltronas de conexão e projetar suas consciências
em bonecos perfeitos. Diferente do clássico recente da sci-fi, porém,
em Substitutos o controlador não pode ser morto caso alguma
coisa acontece ao seu androide... até que um terrorista tecnológico
descobre como mudar isso.
A chance de viver uma vida em um corpo completamente diferente do seu está
devidamente pesquisada e registrada hoje em dia. O que são o Second Life
e os MMORPGs se não exatamente isso? A oportunidade de deixar seu corpo
para trás e embarcar em aventuras e situações que você
não viveria de outra forma? Mas no mundo de Substitutos a
opção parece meramente estética e sexual. Flerta-se usando
um corpo do sexo oposto, praticam-se esportes radicais com mais frequência
ou situações de risco são abraçadas sem medo...
mas é só. Basicamente, as pessoas têm os mesmos empregos
enfadonhos e a sociedade opera da mesma forma - só que todos são
bonitos como Barbies e Kens. Excluindo dois solitários
esquisitos que aparecem no Metrô, onde estão as pessoas aladas,
os alienígenas, a moda extravagante que é abundante no Second
Life? Brancato e Ferris simplesmente ignoram que os Substitutos
de certa forma já existem.
Mesmo que aceitemos que a sociedade seguiu seu curso sem grandes abalos, há
outros erros no filme - e são ainda mais problemáticos. Se em
Mulher-Gato
a dupla já havia recheado o roteiro de chavões, aqui repetem a
mania: o policial vivido por Bruce Willis, encarregado de capturar
o assassino, tem todas as características de seus pares menos criativos
do gênero. E tome problemas em casa e tormentos passados...
E se é nos detalhes que mora o capeta, o texto e o diretor Jonathan
Mostow, também de Exterminador
do Futuro 3, ainda conseguem criar outros momentos constrangedores.
A sede da maior empresa de tecnologia do planeta tem segurança inferior a qualquer hotel de esquina (sério que dá pra descer de elevador
em qualquer andar do prédio e entrar na sala de pesquisa desejada?). E quando a segurança
existe é baseada em formato do rosto - e qualquer um pode ter a face
que quiser no filme, inclusive o de outra pessoa. Enfim, detalhes que podem
até passar batidos pelo grande público, mas não escapam aos fãs da boa
ficção científica.
Dessa forma, sobra pouco que se aproveite. A ação é decente
e inclui uma cena de perseguição de um "Willisnator"
que é bem interessante. Os efeitos são competentes, especialmente
a mudança dos robôs de "ocupados" para "desocupados"
e a maquiagem, que faz com que todos pareçam exageradamente belos. Mas
o melhor mesmo é que não há a eterna preocupação
de estabelecer uma franquia. O filme tem começo, meio e fim - e não
deixa pontas ou pistas para o futuro. Se considerarmos que se trata de um filme
Disney, isso sim parece ficção científica de verdade...
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