Nos videogames existem os chamados mod developers, sujeitos que pegam
games existentes no mercado e interferem em seu funcionamento, dando aos jogos
novas características, fundindo temas e franquias, mas quase sempre trabalhando
dentro de uma estrutura funcional pré-estabelecida. De um clássico,
portanto, pode surgir algo novo e que acaba tão - ou em alguns casos,
mais - apreciado quanto o título original.
Quando penso no cinema de Quentin Tarantino em Bastardos
Inglórios (Inglourious Basterds) não consigo
deixar de compará-lo a um mod developer - e um dos bons.
Como é habitual na cinematografia do cineasta, ele mistura linguagens,
épocas e escolas - que praticamente desaparecem no resultado, tornando-se
algo só dele. Dos faroestes de Sergio Leone (que já
haviam inspirado Kill Bill Volume 2) vêm a inspiração
para a música (Ennio Morricone está na trilha!)
e a tensão nos duelos (verbais ou físicos). De John Ford
ele empresta a temática da vingança, todo o "Capítulo
1" e um enquadramento arrancado de Rastros de Ódio (The
Searchers, 1956). A criação do personagem Aldo Rayne
(Brad Pitt) vem de atores como Aldo Ray (1926-1991)
e John Wayne (1907-1979). De um obscuro filme de guerra italiano de 1978 o título do filme. Da nouvelle vague
o teor do "Capítulo 3", com a Shosanna de
Mélanie Laurent lembrando as personagens dos filmes
de Truffaut... a lista é extensa... e tenho certeza que triplicará
quando eu assistir ao filme novamente.
Tarantino, supernerd cinéfilo, apanha todas essas coisas que lhe são
queridas, com as quais cresceu, e as transforma. Ele já fez isso antes
muitas vezes, mas neste busca uma certa organização sutil separando
os gêneros que emula através de uma organização em
capítulos. São quase todos excelentes. O problema é justamente
quando, superconfiante, ele deixa escapar uns arroubos pops. Normalmente eles
funcionam nas mãos dele, mas aqui - é um filme de época,
afinal - causam estranheza em um ou outro momento. "Cat People (Putting
Out Fire)" de David Bowie na Segunda Guerra? Exagero (ainda que a cena
daria um videoclipe e tanto se isolada).
A história começa na França ocupada pelos nazistas, onde
Shosanna Dreyfus (Laurent) testemunha a execução
de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa
(Christoph Waltz merecia uma crítica à parte).
Após uma introdução brilhante com uma intensa conversa
entre os personagens de Denis Menochet e Waltz, a jovem consegue
escapar e foge para Paris, onde cria uma nova identidade como dona de cinema.
Enquanto isso, também na Europa, o tenente Aldo Raine (Pitt) inferniza
ao lado de seu grupo de soldados judeus os nazistas. Conhecido por seus inimigos
como Os Bastardos, o esquadrão de Raine se
junta à atriz alemã e agente infiltrada Bridget Von Hammersmark
(Diane Kruger) em uma missão para derrubar os líderes
do Terceiro Reich. E os destinos convergem para o cinema onde Shosanna está
planejando a sua própria vingança.
Inteligente, ainda que mantida rigorosamente simples, a trama investe nos atores
- e a direção de elenco é a melhor da carreira já
celebrada por essa característica de Tarantino. E se comentei acima que
Christoph Waltz merecia sua própria crítica, dedico-lhe ao menos
um parágrafo. O ator austríaco não dá chance a quem
quer que divida a cena com ele. Seu vilão é tão sensacional
que Bastardos Inglórios torna-se, sem querer, quase como um
filme do Batman, em que são os antagonistas que valem o ingresso. Brad
Pitt? Bom e caricato, como o filme exige. Mas Waltz está simplesmente
em outra esfera de talento.
Caricaturas, aliás, são o pão-com-manteiga do filme. É
divertida a maneira como Tarantino conscientemente reduz personagens aos seus
estereótipos conhecidos (o americano caipira e bruto, a francesa blasé,
o inglês supereducado, os nazistas engomadinhos...) para economizar tempo
em explicações e construção de personagens. O único
com quem ele realmente se preocupa é, de novo, Hans Landa, e isso causou
certa polêmica entre a crítica. Adorar o nazista, mesmo com o tresloucado
e historicamente alucinado clímax que o filme oferece, não é
algo de fácil digestão mesmo.
Também passível de discussão é a eterna "violência
tarantinesca". Uns amam, outros odeiam. Considerando os filmes anteriores
do diretor, achei desta vez ela até contida, deixada para poucos momentos
de impacto. Mas isso por que não me importo em ver escalpos e tacos de
baseball esfacelando cabeças. O cinema de Tarantino tem mesmo essa propriedade
um tanto anestésica em alguns em relação à sangreira.
Ele consegue transformar o "gore" em "cool" dentro de determinados
públicos. Mas fica o aviso - há quem tenha criticado duramente
a produção por conta disso, gente que considera Tarantino um eterno
adolescente fascinado com seus brinquedos. Não é o caso desta
crítica, mas consigo entender as razões dessas pessoas. Tarantino
é mesmo inconsequente - mas enquanto tiver seu público cativo,
formado por gente como ele, seguirá em seu mundinho. Eu, pelo menos,
agradeço.