Os roteiristas e diretores de Adrenalina,
Brian Taylor e Mark Neveldine, são
de uma geração que cresceu na década de 1980, mas seu
novo filme de ação, Gamer,
está impregnado de anos 90. Pistas de BMX, raves, músicas do
Bloodhound Gang (aquela do Discovery Channel) e do Marilyn
Manson (a versão dele para "Sweet Dreams"), estética
que parece saída de um desenho de Peter Chung...
É como se a dupla empregasse seu virtuosismo e sua despretensão
para relembrar esse tempo, pré-Matrix, em que fazer ficção
científica pop e barata não implicava ser um filósofo
graduado, nem excluía a diversão.
A própria premissa, ainda que evoque os Counter-Strikes de
hoje em dia, pode ser vista como uma homenagem à Era de Ouro dos jogos
de tiro em primeira-pessoa, dos primeiros idos da id Software. Dentro do filme,
o jogo se chama Slayers, e o nosso herói, Kable
(Gerard Butler), está a caminho de se consagrar campeão.
O problema é que sua vitória não depende só dele,
mas também de Simon (Logan Lerman), o moleque que
o controla.
O shooter Slayers, invenção do triliardário
empresário sulista Ken Castle (Michael C. Hall), se
baseia na tecnologia nanex (nano + cortex), em que células do cérebro
de uma pessoa são gradualmente modificadas via nanotecnologia para
permitir controle remoto. Dentro de Slayers, os jogadores são
humanos de verdade - condenados ao corredor da morte que escolhem o
campo de guerra do game em troca do perdão da pena.
Kable está quase lá, e ele espera reencontrar na vida
real a esposa e a filha que havia deixado para trás. A situação
da mulher, Angie (Amber Valletta), não é das
melhores: ela atua via nanex em um The Sims populado por depravados.
Se o garoto que controla Kable é "do bem", o de Angie é
o típico gordo com sudorese que não perde a primeira oportunidade
de ter sexo virtual. O caso é que para Angie o sexo é bem real.
Temos aí, então, a situação clássica do
cavaleiro que precisa salvar a donzela do dragão - mas aqui o cavaleiro
dispensa o cavalo e vomita vodka no tanque de gasolina para fazer o carro
pegar. Embora seja menos surtado do que Adrenalina, Gamer
é o típico produto com a marca Neveldine/Taylor: um cinema ligeiro
de sensações, que tem consciência do ridículo embutido
em sua cafonice (as luzes e o balé na mansão de Castle, por
exemplo) e que faz dessas escolhas fora de moda um manifesto para os dias
de hoje.
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