Tenho duas maneiras de resenhar Distante Nós
Vamos (Away We Go), o novo filme do
diretor Sam Mendes.
A primeira é a mais isenta, na qual eu lhe explico que se trata
do quinto filme do diretor - oscarizado dez anos atrás por Beleza Americana.
Que a relação mais próxima de Distante Nós Vamos é com
o seu projeto anterior, Foi
Apenas um Sonho. Os dois filmes tratam de casais que passam por algum
tipo de crise pessoal, e que começam a procurar pelo mundo as decisões a tomar.
No caso, Burt (John Krasinski) e Verona (Maya
Rudolph) são o casal de 30 e poucos anos que espera o primeiro filho.
Moram próximos à casa dos pais dele - os dela já são falecidos - pensando na
ajuda de que precisarão em breve. Mas os velhos ripongas acabam de anunciar
que vão se mudar para a Bélgica por dois anos, deixando o neto e o jovem casal
à sua própria sorte.
Burt e Verona têm empregos bastante flexíveis - ela ilustra livros
de anatomia em casa, ele é analista financeiro e faz tudo por telefone -, então
decidem sair pelos EUA à procura do melhor lugar para ter e criar o filho. De
preferência, com família ou amigos por perto.
Segue um road movie onde eles vão encontrar abordagens
totalmente contrastantes sobre como ser pais, bem como sobre a vida de casados.
Como em todo filme-de-estrada, é uma viagem de formação, onde eles entram em
contato com suas identidades e seus possíveis futuros - que vão do hilário ao
comovente ao assustador.
A outra forma de resenhar o filme é um pouco mais pessoal. O roteiro
é do casal Dave Eggers e Vendela Vida, ambos
romancistas de renome nos EUA. Eggers é um dos meus escritores prediletos desde
que reinventou o gênero autobiográfico em Uma Comovente Obra de Espantoso
Talento (publicado no Brasil em 2003). A maioria de seus livros, como A
Fome de Todos Nós (coleção de contos) e O Que é o Quê, foram lançados
por aqui. Junto a Vida - cujos livros, como Let the Northern Lights Erase
Your Name, nunca aportaram aqui -, ele comanda a McSweeney's,
um coletivo literário que publica revistas, livros, um site e muito do que melhor
se escreve nos EUA hoje.
Com a McSweeney's, eles puxam uma tendência indie nos círculos
criativos norte-americanos, que reinventa forma e temas com pose blasé (pretensiosa,
mas com cara de despretensiosa), aliado a um engajamento político fortalecido
pela era Bush. Jonathan Safran Foer (Extremamente Alto
e Incrivelmente Perto), Gary Shteyngart (Absurdistão)
e outros seguem essa linha na literatura. No cinema, os melhores representantes
são Alexander Payne (Sideways, As Confissões de
Schmidt), Wes Anderson (Viagem a Darjeeling,
A Vida Marinha com Steve Zissou), Jason Reitman (Juno,
Obrigado por Fumar) e Spike Jonze - com quem o próprio
Eggers roteirizou o esperado Onde Vivem os Monstros.
Filtrado por essa referência pessoal, o filme parece puxar mais
para um produto de Eggers e Vida do que de Mendes (mesmo que, em entrevistas,
o diretor revele que tenha mexido bastante no roteiro durante as filmagens -
incluindo o final). Some o fato do casal protagonista ser interpretado por figurinhas
em destaque na comédia intelectualizada dos EUA - Krasinski é o Jim de
The Office e Maya, namorada de Paul Thomas Anderson,
foi do Saturday Night Live - e você chega a algo que tem mais a ver
com as boas "dramédias" como Juno do que com as legítimas tragédias
a que Mendes estava acostumado.
Não há assassinatos, nem cabides abortivos, nem sangue - os halteres
dramáticos de que Mendes, como diretor teatral acostumado a Shakespeare
e Tchékhov, abusa nos seus filmes. A cena de maior peso emocional
acontece no momento em que Burt e Verona parecem ter encontrado o lugar certo,
mas descobrem que seus amigos vivem uma tristeza tão profunda que pode infectá-los.
A cena tem uns dois minutos, com várias trocas de olhares carregados
e poucas linhas de diálogo durante uma dança ao som de "Oh Sweet Nuthin?", do
Velvet Underground. Não tem sangue, nem morte, nem qualquer
choque na plateia. Mas carrega uma dor que, quem já leu Eggers, vai reconhecer
de seus livros.
Da mesma forma, o humor liberal da McSweeney's está desde a primeira
cena, em que os protagonistas descobrem da forma mais original na história do
cinema que estão grávidos. Só esse início, mais a cena da dança, já valem o
filme.
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