Inverno de 2008. Passo a tarde encarando o monitor, buscando alguma inspiração
para escrever sobre um dos filmes mais geniais do ano e uma das melhores animações
de todos os tempos, Wall-E.
Enquanto tento encontrar uma frase de abertura digna do longa-metragem, penso
em como o Pixar Animation Studios muito provavelmente alcançou
seu ápice.
Inverno de 2009. Passo a tarde encarando o monitor, buscando alguma inspiração
para escrever sobre um dos filmes mais geniais do ano e uma das melhores animações
de todos os tempos, Up - Altas Aventuras. Enquanto
tento encontrar uma frase de abertura digna do longa-metragem, penso em como
o Pixar Animation Studios muito provavelmente jamais alcançará
seu ápice.
A cada ano, a cada filme, o estúdio de animação mais autoral
do cinema mainstream segue sua carreira de constante superação.
E daí se os analistas da indústria acham que um filme estrelado
por um velhinho será um fracasso, derrubando com a declaração
as ações da Walt Disney Pictures?
Enquanto as gravatas lógicas vivem num presente feito de preconceitos
e "cases de sucesso", John
Lasseter e sua equipe operam numa criativa dimensão paralela,
em que méritos passados são mero guia do que não fazer
a seguir. Na Pixar, nada é amainado para vender mais bonecos ou facilitar
a comercialização... o que interessa é o desafio de deturpar
o estabelecido, criando algo novo no processo e reinventando o que se entende
como um filme-família - ainda que a inovação signifique um retorno às
raízes do cinema.
E se o mercado anseia por robôs gigantes, ação mutante
descerebrada ou sextas partes de sagas, o estúdio de animação
apresenta a mais inusitada Dupla Dinâmica que se tem notícia: Carl
Fredricksen, 78 anos; e Russell, 8. O primeiro é
um amargurado vendedor de balões aposentado e viúvo. O outro,
um alegre e esforçado escoteiro. Na aventura, ambos voam inadvertidamente juntos ao
sul, em uma casa içada por milhares de balões multicoloridos.
A trama inclui ainda elementos da história clássica de Arthur
Conan Doyle, O Mundo Perdido (1912), em que um explorador
traz de uma expedição à América do Sul ossos de
um pterodátilo. Denunciado como uma fraude, o aventureiro retorna à
selva com o intuito de capturar um espécime vivo.
Pete Docter (Monstros
S.A.) e Bob Peterson, os diretores e roteiristas de
Up, conseguem fundir essas premissas longínquas - e o fazem
com ação intensa e uma dose de emotividade que só encontra
paralelo nos antigos clássicos Disney (a cena em que Carl encontra coragem
para abrir o diário da esposa falecida produz lágrimas suficientes
pra salgar o saco de pipoca). A Era de Ouro das animações, aliás,
é referenciada em vários momentos, uma homenagem dos animadores-autores
de hoje aos seus antecessores-desbravadores da Disney.
A aula de história do cinema não para por aí. Se Wall-E
deu uma abordagem clapliniana à ficção científica,
o novo filme abusa de outros recursos consagrados - e lamentavelmente quase
esquecidos - da Sétima Arte, usando de maneira brilhante lições
aprendidas com mestres como Orson Welles. "Eu não acredito
que palavra alguma possa explicar a vida de um homem", disse um dos
personagens de Cidadão Kane, e a introdução de
Up - que traz à mente a famosa
cena da mesa do filme de Welles - é prova incontestável disso.
Realmente, palavras jamais fariam justiça à vida de Carl Fredricksen.
Essa honra cabe apenas à Pixar.