Quando foi exibido em julho deste ano no Festival de Cinema Latino-Americano,
La Teta Asustada ganhou o título em português O Leite da Amargura.
Era uma versão mais romanceada do que a tradução literal que a produção peruana
ganha agora na estreia no circuito comercial brasileiro. Se você está chegando
agora, não custa avisar: o vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim não
tem nudez, nem sustos.
A Teta Assustada é o nome que se dá a uma suposta
doença transmitida pelo leite materno, que afeta filhas de mulheres que foram
violentadas. Logo no começo do filme escrito e dirigido por Claudia Llosa,
um médico diz que a teta assustada é um mito, mas Fausta (Magaly Solier),
filha de uma das muitas mulheres que sofreram abusos no Peru durante o período
do terrorismo e da violenta instabilidade social entre os anos 1980 e 2000,
não acredita no que dizem os médicos.
Fausta vive à margem de Lima com seus familiares e outros falantes
do idioma indígena quíchua, e leva suas crenças ao limite: para impedir que
sofra da mesma violência que sua mãe, enfiou uma batata na vagina para afastar
os homens. Mas "aqui em Lima", como diz um personagem, esse tipo de coisa
é mal visto. E Fausta, essa representação feminina de toda uma cultura que alcança
eras pré-colombianas, precisa mudar. Sua mãe acaba de morrer e Fausta não tem
dinheiro para pagar o enterro.
O filme se desenvolve entorno de aproximações. A índia arruma
emprego de empregada na casa de uma limenha ricaça para pagar o funeral da mãe,
e ao mesmo tempo encontra cumplicidade em um homem, o jardineiro da mansão.
É Fausta se aproximando do sexo oposto como forma de exumar (em mais de um sentido)
seus medos, e é a miséria peruana se aproximando da elite enquanto dilema social.
Não é difícil entender, a partir daí, por que o filme levou o
principal prêmio do festival alemão. Historicamente politizada, a Berlinale
viu em A Teta Assustada um novo exemplar de cinema terceiromundista que
luta para se entender com seu passado recente de ditaduras e barbáries. Ao mesmo
tempo, o filme de Claudia Llosa tem o tipo de exotismo formal e temático que
encontra forte ressonância nos festivais de cinema europeus.
A premissa em si já é um tanto pitoresca, mas a diretora a reforça
via simbolismos (a cena da batata sendo descascada, por exemplo), enquadramentos
"artísticos" (o X que separa Fausta do tio numa cena de festa, efeito que, estritamente,
não tem sentido algum) e narrativa fragmentada, dentro de outro modismo latino
de montar um painel com pedaços de ação. Junte aí toda a pompa e a música que
vem embutida em cenas de celebração popular e temos um filme que, apesar do
tema forte, se fragiliza por trabalhar dentro de uma fórmula, a essa altura,
já bem esgarçada.
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