Peço licença, antes de mais nada, para reprisar um trecho da crítica
de Stella,
filme francês que estreou no Brasil em junho deste ano.
Lá eu dizia que o cinema latino-americano - particularmente em
filmes como o brasileiro O
Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o chileno Valentín,
o mexicano E
Sua Mãe Também, o argentino Kamchatka
ou o uruguaio Acne,
entre muitos outros - abraçava com gosto o subgênero conhecido em inglês como
coming-of-age, originado da veia literária do romance de formação, surgida
no século 19. À Deriva é mais um deles.
São histórias que tentam resumir, normalmente em um evento marcante
da infância ou da adolescência, os caminhos de caráter e comportamento que personagens
tomarão para o resto de suas vidas. Daí o termo chegar-da-idade. No terceiro
longa-metragem de Heitor Dhalia (Nina,
O
Cheiro do Ralo), quem passa por esse processo é a bela Filipa (a estreante
Laura Neiva), de 14 anos.
Durante as férias da família em Búzios, ao lado do pai escritor
(Vincent Cassel) e da mãe com tendência ao alcoolismo (Débora Bloch),
Filipa deixará a inocência para ingressar na vida adulta. Para ficar no exemplo
mais próximo, o de Stella, há nos dois filmes traços em comum: o fim
da ingenuidade (a filha acompanha como um adultério quebra a harmonia familiar),
a ânsia por se impor (brincar de se vestir como adulta, flertar sem compromisso
com garotos) e a presença de uma arma de fogo como emblema máximo da violência
de crescer.
Dhalia trabalha, no fim das contas, com situações clássicas. O
que o seu filme tem de particular é a sensualidade - ou, já que estamos reduzindo
um pouco a questão em termos geográficos, o que o seu filme tem de único é a
famosa brasilidade. Filipa é menina em corpo de adulta. A câmera do diretor
de fotografia Ricardo Della Rosa desde a primeira cena cola em Laura
Neiva, e não a perde mais de vista, nem submersa na piscina. A descoberta do
sexo é momento essencial na vida de todo mundo, afinal, e À Deriva -
nem que seja só por plasticidade - venera corpos ao sol sem se envergonhar.
A opção pela paisagem de Búzios está em sintonia com essa estética:
o cinza escuro áspero das pedras em contraste com o liso suado da pele e os
troncos retorcidos das árvores se confundindo com as curvas da puberdade. Dhalia
não se sai bem na direção de cenas de interior (Cassel parece mal dirigido,
está sempre saindo pelos lados do enquadramento, como se transitasse num proscênio),
mas compensa nas externas na praia. Pra extrair beleza do litoral é só não errar
na escolha do filtro, convenhamos.
Longe de revolucioná-lo, À Deriva adiciona ao gênero um
pouco de bronzeado. Para quem vem, como Dhalia, de dois filmes misantropos,
tentar agora achar alguma humanidade nos personagens já é uma evolução.
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