Johnny Depp, um dos atores mais requisitados do planeta, está de volta aos cinemas. E na época do lançamento do filme, o Omelete enviou o correspondente Steve Weintraub para Chicago, onde ele participou da entrevista coletiva com o o ator. Confira:
Por que você
acha que nós gostamos de assistir a histórias sobre criminosos?
Johnny Depp: Bom, eles se safam fazendo coisas
que nós nunca conseguiríamos nos safar, especialmente Jesse James,
naquela época. Ele era meio que o precursor do John Dillinger, de certa
forma. O John Dillinger é de 1933, quando os bancos e o governo eram os
inimigos... J. Edgar Hoover beirava o rótulo de criminoso também,
e então John Dillinger, como um homem comum, se rebelou e disse “Não,
eu não vou aceitar isso. Eu vou pegar o que acredito ser meu.” Será
que respondi a sua pergunta? Devo dizer algo mais?
A cena em que Dillinger, o homem mais procurado dos Estados Unidos na
época, entra na
delegacia e passa completamente despercebido, isso
é verdade?
É a verdade.
Ok, essa não
é a minha pergunta.
[risos] Bem, essa não é
a minha resposta.
Você, anteriormente, falou muito
sobre chapéus, do quanto
gosta deles e que eles se tornam seus amigos. Nesse filme você
usou vários diferentes. Você fez novos amigos?
Eu fiz uns novos amigos, novos
chapéus amigos. É.
Qual foi o seu favorito?
Ah, tinha tantos legais. Tinha
um cara em Chicago fazendo essas coisas pra gente e ele era um ótimo
artista. O que eu acho dos chapéus, ternos, sobretudos, toda essa coisa;
o que eu mais gosto nisso é o que eu acho que isso representa. Quer
dizer, naquela época todos se esforçavam mais. Os tempos eram outros.
Existia uma inocência. Ainda havia possibilidades. Todos se esforçavam,
usavam chapéus, paletós, gravatas. Eu sempre achei que eu devia ter
nascido naquela época, mas eu não nasci. Mas na verdade não estamos
tão distantes.
Que tipo de pesquisa você
fez para o seu papel em Alice no País das Maravilhas? Você
usou o livro ou trouxe algo externo ao personagem?
Bom, com certeza o livro. O livro
é a base para tudo. Tem pequenos mistérios, pequenas pistas no
livro que eu achei fascinante, que eram chaves para a minha compreensão
do Chapeleiro Maluco. Como ele dizendo, “Eu estou investigando aquilo
que comceça com a letra M.” Isso foi uma grande dica pra mim, porque
quando você começa a fuçar você percebe que está falando de um
chapeleiro, um homem que fazia chapéus, e se você for olhar pra alguns
chapeleiros da história verá que existe uma expressão, que se diz
que este ou aquele cara está tão louco como um chapeleiro. Existia
um motivo pra isso, que era a contaminação com mercúrio. Então assim
eu descobri o que era o M e porque eles enlouqueciam. Isso ganhou uma
proporção enorme. E aí, isso levou ao que eu via e como eu achava
que esse cara devia parecer. Eu fiz meus desenhinhos estranhos, com
aquarela e tal e levei eles pro Tim [Burton] e aí ele me trouxe os
desenhinhos estranhos dele, com aquarela e tal e eles não eram muito
diferentes [risos]. Dava pra colocá-los juntos de tão parecidos que eles eram.
Então a contaminação com mercúrio
era uma doença que afetava os chapeleiros?
Contaminação com mercúrio.
Tinha mercúrio na cola. Então eles começavam a ficar meio caducos
[risos].
O que tem de tão especial na sua
relação com o Tim? Ele te deixa fazer o que você
quiser como ator?
Bom, a coisa mais importante
é que, por sorte, ele já me deu uns sete empregos. Isso
que é a coisa mais incrível. E eu estou ansioso para o oitavo
e nono trabalhos. Não existe uma definição melhor além de que existe
algum tipo de conexão entre nós que é, na maioria das vezes, não
falada. A maioria das pessoas, quando ouvem o Tim me dirigindo ou quando
estamos discutindo um personagem ou alguma coisa no set, ficam pasmas,
completamente escandalizadas e não entendem nada do que estamos falando.
Uma vez um cara realmente veio até mim, depois de assistir a minha conversa
com o Tim por uns 10 minutos e disse, “Eu não entendi uma palavra
do que vocês estavam dizendo”. Então, sei lá. É uma daquelas coisas
que você não questiona, mas eu amo ele, com certeza.
Você
é um dos atores mais requisitados no mundo.
Sério?
Se você
tivesse a oportunidade de andar por aí
despercebido, aonde você iria?
Oh, uau. Essa é uma ótima
pergunta. Assim, a primeira coisa que vier na mente, aonde eu iria se fosse completamente anônimo? Bom, eu iria à Disney com os meus filhos.
É isso que eu faria. Eu iria em todos os brinquedos e andaria pelo
parque com os meus filhos, daria a eles essa experiência. Eles não
saem muito com o papai... se o papai andar pela Disney as coisas poderiam ficar um pouco complicadas.
No filme, Dillinger parece muito
confortável com os holofotes da mídia. Você
consegue se sentir confortável com toda essa atenção na vida real?
Bom, eu estou infinitamente mais
confortável com o processo e o esforço de fazer um personagem e o
processo colaborativo. Fazer o filme, basicamente. E aí tem essas outras
coisas que vêm junto e que acho que nunca vou compreender, mas vejo como parte do ofício. É uma certa quantia de atenção que eu
suponho que esteja intrínseco a isso. A alternativa a isso seria muito
chata, onde não haveria nenhuma atenção da mídia, aí o trabalho
meio que se perde, não é? John Dillinger, como qualquer americano
de sangue quente, recebeu a bola e correu com ela. Isso não é
muito diferente do que aconteceu comigo há muito tempo. Você
recebe a bola e corre com ela o máximo que conseguir, até que alguém
diz “Ok garoto, já deu. Saia da brincadeira.” Eu acho que era isso
que o Dillinger estava fazendo. Embora, no caso dele, ele soubesse
que o tempo estava passando. A situação dele era infinitamente mais
grave que a minha. Ele sabia que tinha um período de tempo muito
pequeno e estava em paz com isso. Então era isso que ele estava
fazendo. Ele era como a figura existencialista definitiva. Ia pra frente
constantemente, sem nunca olhar pra trás.
Você
já fantasiou, sonhou em fazer um personagem tipo Robin Hood, que
tira dos ricos e dá aos pobres?
É isso que eu tenho feito
há 25 anos [risos]. Quer dizer, é verdade. Eu comecei fazendo
camisetas de silk screen, eu vendia canetas tinteiras, trabalhei em
construção. Também trabalhei num posto de gasolina, era frentista
e fui mecânico por um tempo. Aí fui pras confecções, trabalhei com
costura. Tive vários trabalhos desagradáveis por um tempo. Acho que
em 1986 é que eu comecei a tirar dinheiro dos ricos.
Você
mencionou anteriormente que a área em que Dillinger vivia era um lugar
onde os homens ainda eram homens. Você
pode falar sobre o que você quis dizer com isso?
Bom, não necessáriamente a
área, mas a época. Os anos 20, 30, 40. Tanto falando de moda, trabalho
ou arte, em qualquer caso, o que os homens faziam e o que as mulheres
faziam, existia um senso forte de quem era quem e o que era o quê. Bom, acho que o jeito mais fácil
de dizer isso é que eles eram indivíduos naquela época. Hoje as pessoas
são menos individuais, menos do que eram. A maioria dos jovens hoje
se veste de maneira parecida, e falam quase um dialeto. Antigamente,
cara, você tinha Cab Calloway e Harry “The Hipster” Gibson e Mez
Mezzrow. Hoje existem alguns poucos que se destacam. Hoje temos Tom
Waits e um Hunter Thompson e um Bob Dylan. Mas são menos e mais espaçados,
na minha opinião.
Você
disse que se sentiria confortável na era do John
Dillinger. Você acha que ele se sentiria confortável no nosso tempo
ou se sentiria um peixe fora d’água?
Eu acho que provavelmente ia
sair correndo e gritando. Eu realmente acho. É tão grande o mundo
agora. Eu fico chocado com as coisas que eu vejo. Eu fico chocado com
as coisas que estão disponíveis na Internet. Fico chocado com as promessas
da tecnologia para os próximos anos. Tem as ótimas possibilidades,
e tem aquelas que são inacreditavelmente assustadoras. Dá para ouvir,
em algum lugar da consciência, o Albert Einstein dizendo, “Eu não
sei como a Terceira Guerra Mundial vai ser lutada, mas eu sei como será
a quarta: com pedras e gravetos.” Então, sim, eu acho que ele sairia
correndo.
Você
interpretou o John Dillinger como um homem com senso de
humor. Isso estava no roteiro? Ele era mesmo um homem com senso de humor
ou você que acrescentou isso?
Bom, ele com certeza era um homem
com senso de humor e eu, por acaso, adoro humor. Então eu sempre tento
enfiar algo que eu acho potencialmente interessante ou engraçado, o
máximo que eu conseguir. Mas o John Dillinger com certeza tinha um
senso de humor. Esse é um cara que foi à Feira Mundial no auge da
sua notoriedade de Inimigo Público Número 1, em 1933. Ele vai à Feira Mundial com a sua camerazinha Brownie automática, entrega pro policial
e diz: “Você tiraria uma foto de mim e da minha namorada?” Isso
é um cara com senso de humor. Além disso, ele também era um cara
que tinha noção de que o tempo estava passando, que estava chegando
a hora dele e não faltava mais muita coisa. Mas de qualquer maneira,
ele aproveitaria ao máximo. Isso é incrível nele.
Dillinger foi um marco da
época dele durante a Grande Depressão. Visto que agora nós estamos
vivendo uma recessão, você acha que existe lugar e momento para um
Dillinger novamente, um fora da lei que ganha estatus heróico? E como
um astro de Hollywood, você tem sentido a recessão, e se sim, como?
Com certeza. Ela sempre dá
um jeito de entrar no seu mundo. Então claro, eu testemunhei isso em
muitos níveis. Quer dizer, por sorte eu tenho sido muito, muito privilegiado
e me sinto muito sortudo de estar recebendo trabalhos e que meus filhos
não estão sofrendo o impacto de qualquer tipo de horror que tem acontecido
hoje.
E quanto ao lugar de um novo tipo
de Dillinger nessa era?
Eu não sei. Eu não sei se hoje
nós fazemos a mesma espécie de indivíduo. Eu não
acredito que o Dillinger tenha começado com o intuíto de matar alguém.
Eu acho que ele só foi lá buscar o que ele achava que era verdadeiramente
dele. Ele queria vingança. Eu acho que hoje nós avançamos tanto tecnologicamente
e também emocional e psicologicamente, quer dizer, hoje tem muito crime,
e muitas coisas acontecendo. As pessoas não se importam que elas vão
pra cadeia. Eles não dão a mínima para as consequências. Eles vão
lá e fazem o que for e não se importam se vão machucar outra pessoa.
Então são tempos muito, muito diferentes. Eu não sei. Deve ter alguém
por aí que quer se levantar e tentar, mas eu não sei se nós, como
espécie, somos os mesmos que éramos antes.
Eu fico surpreso que você
vive na França há tanto tempo e não fez nenhum filme lá. Você
tem planos de fazer um filme lá? E você faz alguma coisa na comunidade onde mora?
Bom, como eu estava dizendo antes,
minha agenda está meio cheia no momento, mas eu tenho planos sim
de um dia fazer mais trabalhos na França. Eu fiz um filme a que eu
me refiro como “O Impronunciável” de um cara chamado Yvan Attal,
com a Charlotte Gainsbourg. Eu fiz um pequeno papel. Foi bem divertido
fazer cenas em francês. Falando da comunidade onde nós moramos, nós
fazemos algumas coisinhas na região, o que nós conseguimos, o que
ajuda, mas eu passo tanto tempo em locação que eu não sei nem em
que fuso-horário eu estou. Sério. Eu poderia estar em Porto Rico no
momento. Na verdade eu meio que ainda estou [risos].
Você
poderia falar sobre como está
sendo trabalhar com as câmeras HD, o que eu imagino que
é algo novo pra você? E também, você
poderia falar sobre Dark Shadows e como está
o andamento disso?
Dark Shadows está acontecendo.
Tim está trabalhando em Alice no País das Maravilhas, que é
obviamente um trabalho enorme. Então, quando o Tim terminar Alice
e nós pegarmos o roteiro, algo que já está muito, muito perto, aí
nós vamos atacar isso. É empolgante, muito empolgante.
Tem sido meu sonho de vida.
O Sr. [Richard] Zanuck disse que você
tem os direitos e que sempre foi fascinado pelo programa sua vida toda.
Eu amava o programa quando
era criança. Eu era obcecado com o Barnabas Collins. Eu tenho fotos
minhas com 5 ou 6 anos de idade, segurando pôsteres do Barnabas Collins.
Eu estou muito empolgado em fazer esse projeto. Em relação ao HD,
eu fiz um filme com o Robert Rodriguez alguns anos atrás chamado Era
Uma Vez no México e era tudo em HD, foi minha primeira experiência
com o formato. Uma coisa que eu tenho a dizer é que se você forçar
demais acho que tem o perigo de ruído digital, ou algo assim. A qualidade
é muito boa, requer muito menos luz. Então tem muitas vantagens nisso,
além de que é uma fita de 52 minutos então você pode sempre continuar,
ninguém precisa dizer corta. Dá pra ficar inventando até cair no
sono. Tudo isso é muito bom, mas eu ainda adoro a textura do cinema.
Eu adoro as camadas do cinema, seja em 35mm ou 16mm ou 8mm, super 8
que eu adoro. Eu amo a granulação. Se eu fosse filmar, eu filmaria
tudo em kodachrome.
Piratas do Caribe 4 está
acontecendo?
Está muito promissor. O
que nós estamos tentando é arrumar um roteiro e ter a certeza
que será a coisa certa a fazer. Se nós conseguirmos um bom roteiro
será maravilhoso.
Algum comentário sobre a Megan
Fox, que disse que quer ser sua esposa?
Depp: Ah, é? Cadê ela? Isso
é muito fofo. Muito fofo.
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