Depois de defender Gotham City duas vezes e de lutar pelo futuro da humanidade contra robôs fortemente armados, Christian Bale agora volta no tempo, até os anos 1930. No papel do agente do FBI Melvin Purvis, o ator que recentemente foi Batman e John Connor agora usa um estiloso chapéu e sai à caça de ninguém menos do que Johnny Depp, que interpreta o criminoso boa-praça John Dillinger. Veja abaixo trechos da entrevista coletiva concedida em Chicago para promover Inimigos Públicos, novo filme dirigido por Michael Mann.
O chapéu te ajudou a manter o anonimato?
Christian Bale: Não [risos].
Interpretar o agente do FBI que mata John Dillinger faz de você
o vilão, já que a platéia está torcendo por Johnny
Depp. Como você se sentiu em relação a isso?
Eu acho que essa era a verdade da época. Era a Grande Depressão
e o Dillinger era um herói para muitas pessoas - e é bem fácil
entender o porquê. Ele era um homem muito charmoso e carismático.
Eu acho que ele devia fazer um bom marketing pessoal. Esse tipo de comparação
com Robin Hood é um pouco errada, mas com certeza o fato de que ele
não estava tirando dos pobres e sim dos grandões que estavam
tirando tudo do homem comum era algo que todos na época reconheciam.
O público gostava dele. É a natureza humana. Nós ficamos
fascinados quando alguém se rebela e enfrenta o sistema e ainda, aparentemente,
vive uma vida feliz e completa. Dillinger parecia viver como se já
soubesse que a vida dele ia se acabar antes do tempo.
Purvis era também um homem bajulado pela imprensa e incrivelmente
popular na sua época. Ele era chamado de "o Clark Gable do escritório"
e tudo. Eu acho que no final das contas ele ficou desiludido com seu mentor,
J. Edgar Hoover, que ele idolatrava e admirava sua visão. Ele era um
incrível visionário, mas isso era no começo. E na natureza
ciumenta de Hoover e o desejo que ele tinha pelo sucesso no curto prazo demandavam
de Purvis ações que deixavam-no muito infeliz, que iam contra
a natureza dele, que lhe eram moralmente ofensivas e também comprometiam
seus próprios valores. Então, quando Dillinger é derrotado,
Purvis não vê nenhuma satisfação nisso. Na verdade,
ele questiona qual realmente era a maior perda. No fim, você enxerga
os fatos. Ele se demitiu do FBI um ano depois de derrotar Dillinger.
Purvis ter o apelido de Clark Gable do FBI te deu alguma ideia de como
você gostaria de interpreter e criar este personagem?
Existe uma riqueza de informações sobre Purvis; clipping
de jornais, filmagens de noticiários e até um livro escrito
pelo próprio Purvis. Outro livro, esse escrito pelo filho dele, Alston,
eu levava comigo sempre. Se chama “A Vingança” e é
muito interessante. Eu reconheço, é claro, que Purvis é
um papel coadjuvante nesse filme, mas eu não consegui evitar de me
tornar fascinado pelo personagem e ter muito carinho por ele. Eu queria saber
o máximo que pudesse e tinha bastante informação. Ele
era uma pessoa única. Ele não se encaixava na fôrma da
maioria dos agents do FBI da época. Ele era incrivelmente agradável
e elegante. Ele gostava de ballet e opera. E era igualmente capaz com as armas,
porque cresceu no campo, caçando. Ele era um homem extraordinário
que foi trazido abaixo pelo seu sucesso.
Você está em vários filmes hollywoodianos ultimamente.
Como é sair da figura cult que você era no passado para se tornar
a figura popular que você é hoje e lidar com toda essa atenção
a mais?
Eu nunca prestei muita atenção na minha reputação.
Nunca tive interesse em me olhar, me vigiar ou algo do tipo. Eu faço
filmes que eu gostaria de assistir ou que eu gostaria de…bem, não,
na verdade. Não tanto que eu gostaria de assistir e sim filmes que
eu sinto que terão algo intrigante em seu processo. Filmes que me levem
a lugares diferentes. O fato de eu ter feito alguns filmes grandes recentemente
não significa que é isso que vou querer fazer a partir de agora.
Essa profissão nos dá a opção de muita variedade
e eu seria um tolo se não tirasse proveito disso.
Michael Mann filma em HD. Você poderia falar sobre a revolução
que o HD está causando nos filmes e como você se sente com isso?
E eu adorei o HD, nunca tinha trabalhado em alta definição
antes. É algo que eu vou dar a dica em projetos futuros, mas na verdade
é uma decisão do diretor e da relação dele com
o diretor com o diretor de fotografia, que é vital em qualquer set
de filmagem. Mas do meu ponto de vista, achei que rolou um clima incrível,
de experimentação e mais similaridade com a vida em poder deixar
a camera rodando por 52 minutos corridos, sem precisar parar. Com película
você precisa parar a cada 6 minutos e recarregar. Foi uma experiência
nova e maravilhosa pra mim.
Você trabalhou com grandes cineastas como [Steven] Spielberg,
[Terrence] Malick, [Werner] Herzog e agora Michael Mann. Como você os
compara, e a visão cinematográfica de cada um?
Eu não gosto de comparar.
Você tem um preferido?
É exatamente isso que eu quero evitar [risos].
Então, o que você acha do Michael Mann como cineasta?
Ele é fantástico, de verdade. É um dos melhores
por aí. Eu espero poder sugerir minhas preferências a quem eu
estiver trabalhando, novamente.
E quanto ao Malick?
É um diretor igualmente fantástico. Ambas as experiências
foram com certeza das mais satisfatórias que eu já tive na vida.
Você se diverte atuando, ou é às vezes um trabalho
árduo?
As duas coisas. Depende do dia e de como você se sente naquele
momento. Depende das pessoas ao seu redor, dos relacionamentos, das relações
profissionais, de quanta satisfação você está realmente
tirando de qualquer papel. Então você nunca sabe, nunca dá
pra dizer. Não importa quão maravilhosa foi a reunião
com a pessoa, você nunca sabe até estar trabalhando junto com
ela exatamente o que você vai tirar dali.
Você poderia falar sobre a sua relação com a cidade de
Chicago, depois de filmar lá tantas vezes e se você gostaria de
fazer isso mais vezes?
Sim, é uma cidade incrível. É uma cidade muito dinâmica
no que diz respeito à dualidade que ela tem, que podemos filmar lá Inimigos
Públicos e também Batman – O Cavaleiro das
Trevas. Num filme ela parece uma cidade contemporânea, brilhante
de vidro e aço. No outro, ela parece uma cidade de 1930. É uma
cidade com todos esses aspectos, tem muita personalidade.
Você considera os filmes como uma experiência capaz de mudar a
vida de alguém ou só como entretenimento?
Ambas as coisas e os filmes devem ser ambas. Claro que seria muito pomposo
sugerir que certos filmes por aí e também alguns filmes em que
eu estive envolvido poderiam ser capazes de mudar vidas. Alguns deles são
puro entretenimento e são maravilhosos por isso. Existe muito talento
para isso também. Da mesma forma que existem alguns filmes que com certeza
têm como consequência mudar vidas, e histórias que tocam profundamente e não conseguimos nos esquivar. Eles deveriam ser tudo isso, não deveriam
nunca ser uma coisa só.
Em Batman – O Cavaleiro das Trevas você tem várias
engenhocas modernas para brincar. E nesse filme não tem nada disso. Como
foi essa experiência?
Bom, ele tinha os acessórios modernos de seu tempo. Naquela época, a arma semi-automática Thompson
era o auge da modernidade. E alguns dos carros que eles dirigiam eram todos
novos. Eram essas coisas que permitiam que caras como Dillinger fizessem o que
faziam por alguns anos. E como eu acho
que nós falamos, eles nem andavam armados até muito mais tarde.
Eles não tinham rádios para se comunicar. Na cena dos apartamentos de Sheridan,
você vê a desvantagem ridícula em que eles estão,
tendo que descer correndo as escadas pra se comunicar com alguém, que
aí tinha que correr a rua pra se comunicar com o outro cara, e aí
o cara que está no carro que bloqueia a rua ouve tiros e sai do único
posto que seria útil que ele ficasse para ver o que está acontecendo.
Enquanto isso, os bandidos fogem. A confusão por causa da impossibilidade
total de comunicação era muito frustrante pra eles. Como você
pôde ver, o grampo telefônico era algo novo, uma revelação,
incrivelmente útil. Mas, no fim das contas, alguém teve que delatar
Dillinger para que eles pudessem prendê-lo.
Johnny Depp é um ator único em Hollywood e muitos jovens atores
têm admiração por ele. Você poderia falar sobre como foi
trabalhar com ele e se você descobriu algo novo sobre ele?
Eu não posso comentar sobre descobrir algo novo porque eu sabia
pouquíssimo sobre ele em primeiro lugar, o que eu penso ser sempre uma
vantagem com qualquer ator. Eu concordo muito com você, ele é único.
Ele tem um estilo próprio, faz escolhas muito interessantes e faz uma
variedade incrível de filmes e acho isso muito interessante. Eu penso
que ele achou o Dillinger um personagem fascinante e acho que ele fez um
trabalho incrível com ele. Mas a maneira como nós trabalhamos
juntos foi muito parecida com a história. Purvis só o alcançou
uma vez. Eu praticamente só encontrei com o Johnny aquela vez. Quando
eu estava trabalhando ele não estava. Mas eu gosto disso, devo admitir.
Eu gosto de estar trabalhando com uma pessoa e você só conhece
ela através das cenas que estão fazendo juntos.
Quando você está trabalhando com um personagem real existe muita
informação para procurar. Mas quando você está trabalhando
com um personagem fictício você compensa a falta de informação
criando sua própria história pra ele? Como você cria um
personagem?
Eu tenho a tendência de ir mais para a primeira opção.
Se você não criou algum tipo de história por trás
do personagem ele pode não fazer sentido para quem assiste, e eu acho
que dá para notar a diferença. É muito parecido com o caso de quando
você assiste a um filme que tem um design de set ruim, onde tudo parece certo
mas tem algo errado e é porque você sabe que se a câmera virasse
só mais um pouquinho você não estaria mais no cenário
e ia poder ver uns caras comendo uns sanduíches ou algo do tipo. Dá
para perceber isso num filme e eu acho que dá para perceber numa atuação
também. Se você só sabe aquilo que pediram pra você
fazer na cena então tem algo muito irreal nisso. Eu acho que é
sempre bom ter isso em mente.
Dillinger e Purvis viviam na Grande Depressão e o Dillinger se tornou
quase um herói nacional porque as pessoas não tinham nada. Agora
nós estamos numa época de recessão...
Eu sei. Quem será o Dillinger de hoje? Quer dizer, com certeza existe uma oportunidade para alguém.
Mas os bancos não têm mais dinheiro.
Ah é? Nós não tínhamos acabado de dar um
monte pra eles?
Nós estamos brincando, mas estes são tempos difíceis para
muita gente. Como Hollywood foi afetada pela recessão e talvez você
como astro de Hollywood; de que maneiras você sente a recessão?
Absolutamente tudo foi afetado e tanta gente, amigos meus, não
tem nenhum trabalho para eles. São tempos difíceis, depois de
greves, etc. Tem sido muito, muito duro. Eu tive a sorte de continuar trabalhando
através disso, mas muitos não tiveram a mesma sorte. Eu acho que
afeta os filmes tanto quanto qualquer indústria. O que eu ouço
com frequência é que filmes e bebida alcóolica sempre se
darão bem em qualquer momento, porque o cinema é a forma mais
barata de entretenimento e o álcool é um conforto para muitos.
Em termos de bilheteria e coisas do tipo, eu nunca olho isso e não faço
ideia se isso tem se refletido nas bilheterias e se as pessoas ainda estão
indo ao cinema ou não. Eu realmente não sei.
Chegou a hora da pergunta do Batman. Chris [Nolan] está trabalhando em Inception. Houve alguma
conversa entre vocês sobre voltar a Gotham City?
Nesse momento, eu realmente não posso te contar se algum dia haverá ou não um outro
filme do Batman. O Chris obviamente fez um trabalho incrível,
mas ele está imerso neste novo filme agora. Eu não
faço ideia se nós vamos revisitar Gotham ou não.
Muita gente, inclusive eu, não sabe muito sobre Fighter.
Você poderia falar um pouco sobre o que é esse filme?
É uma história verídica de dois boxeadores incrivelmente
talentosos que são meio-irmãos. Um deles, Dicky Ecklund, lutou
contra Sugar Ray Leonard quando tinha 21 anos e tinha um talento natural incrível.
Ele viveu uma vida muito difícil. E depois ele treinou seu irmão,
Irish Mickey Ward, para o título mundial.
Você está em ótima forma agora e é conhecido pelo
seu processo de treinamento. Você poderia falar sobre como é a
preparação física para um papel como esse?
Boxe. Não tem nada como o boxe par ate deixar em forma.
São muitas horas por dia?
Sim. É algo maravilhoso quando o seu treinador é a pessoa
que você vai interpretar.
Você já tinha praticado boxe antes?
Não, nunca.
Eu sou fã do filme Metroland. Você tem algum
plano de revisitar esse mundo menor dos filmes indies novamente?
Eu não tenho planos além do que estou fazendo em The
Fighter. E eu posso te dizer que nós estamos juntando cada centavo
que conseguimos nesse. Meu interesse num projeto nunca está relacionado
ao orçamento, de onde vem o dinheiro, seja do estúdio ou independente.
Eu só me importo com a história e as possibilidades de quem eu
poderei interpretar e como será a experiência. Então, sim,
com certeza posso voltar a qualquer momento, mas não tenho planos. E tenho certaza que vai acontecer.
Você viu esse filme projetado em HD. Foi estranho pra você? Tudo
é exposto, os poros, as rugas – como foi isso?
Eu não tenho problema com isso. Eu não sei o tratamento
que foi feito antes nesse filme, mas eu achei que ficou incrível. Ele
captura a riqueza da época, mas também faz parecer tão
relevante.
Você fez Batman – O Cavaleiro das Trevas
com cenas em Imax, o que foi arrebatador. E o 3D parece ser uma revolução em toda a indústria.
E agora vem o Michael Mann e aparece com esse HD. O que você pensa sobre tudo isso?
Eu não sei. Eu não sei o suficiente sobre isso. Eu nem
tenho TiVo, eu nem tenho bina no celular. Eu uso papel e caneta. Eu não sou a pessoa
ideal pra responder a essa pergunta [risos].
Mas você se viu em Imax [o Batman]... como foi a sua experiência?
Ah, marcante. Foi fenomenal. Eu não sei se é adequado para
qualquer filme, mas naquele com certeza era. Eu contei para todos os meus amigos
que ainda não tinham visto em Imax que valia a pena. Não é o meu caso, mas na casa de muitas pessoas hoje já
há tecnologia tão avançada para assistir a filmes que
eles devem se questionar se vão se incomodar indo ao cinema, a não
ser que eles apreciem o espírito comum do cinema como eu. Novamente,
eu não sou o cara certo pra falar disso, mas eu imagino que essa repentina
obsessão com o 3D e Imax é a necessidade de dar algo maior para as
pessoas, algo que elas não podem ver em casa.
Purvis pega o Dillinger no final, e aí nós descobrimos que ele
se matou um ano depois.
Não, não. Ele se demitiu do FBI um ano depois. Ele se suicidou
muitos anos depois, por volta de 1960. Se tornou um coronel no exército,
interrogou Goering em Nuremberg. Liderou uma investigação de má-conduta
de Patton. Foi dono de estações de rádio e de jornais.
Ele ia se tornar juíz mas o Hoover interferiu e se certificou que isso
não acontecesse. Ele viveu uma vida interessante durante muito tempo
depois do FBI.
Você sabe por que ele se matou?
Eu só posso especular. Existe a ideia de que poderia ter sido
um acidente. O que é improvável com alguém que tinha tanta
experiência com armas, mas existe a possibilidade de que tinha uma bala
no tambor quando ele estava limpando a arma. Mas é meio difícil
de acreditar nisso, especialmente se tratando de alguém tão bom
e experiente com armas. Ele sofreu de depressão. E ele, até o
dia da sua morte, ficava remoendo e se incomodando com a richa de Hoover contra
ele. É algo extraordinário o tanto que esse homem o perseguiu
e fez de tudo para tornar a vida de Purvis um inferno. Mas ele era um homem complexo,
como qualquer um, e seria errado da minha parte dizer que eu realmente sei os
motivos.
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