Não é de hoje que o cinema policial e de ação francês emula os formatos de
Hollywood, e agora a moda dos dípticos também pegou por lá: convém saber, antes
de entrar numa sessão de Inimigo Público nº 1 - Instinto de Morte,
que o filme termina em aberto e a conclusão só acontece em Inimigo Público
nº 1 - Parte 2, que a Califórnia Filmes lança no Brasil até o fim do ano.
(Originalmente, em francês, a primeira parte se chama L'Instinct de Mort
e a segunda, que já saiu lá fora, é intitulada L'ennemi Public nº 1.)
A divisão da história em duas partes pode ser um pouco frustrante porque o
primeiro longa é um longo flashback: começa com a morte do famoso criminoso
francês Jacques Mesrine (Vincent Cassel), numa emboscada. Na vida real
Mesrine morreu em 1979, mas esse acontecimento, apesar de todo o suspense armado,
não volta a ser assunto do primeiro filme.
O que se acompanha nesta parte um é a construção da má fama de Mesrine, desde
uma traumática passagem pela Guerra da Argélia em 1959, passando por conquistas
amorosas na Espanha em 1960, por uma rotina de golpes na Paris da medade da
década de 60, até o fato que o transformou em celebridade, numa prisão canadense,
em 1972. É um filme-ficha-corrida. Vão-se os anos e aumenta-se o mito do francês
matador, galanteador e escapista.
Uma passagem, especificamente, diz muito do que o diretor Jean-François
Richet (diretor do remake hollywoodiano de Assalto
à 13a. DP) busca em termos de imaginário: quando Mesrine atravessa uma
estrada do Arizona a toda velocidade, com meia-dúzia de viaturas em seu encalço,
Richet não se furta a fazer aéreas das montanhas rochosas que acompanham o estilo
de vida de todo easy rider do cinema dos EUA. Mesrine e sua namorada
na época chegaram a ser comparados com Bonnie & Clyde, analogia que sem
dúvida se presta aos intentos de Richet.
Não é de se espantar que Richet dispense muito mais tempo ao espetacular episódio
da prisão do que aos pormenores da intimidade do bandido. Porque é a mitificação
típica de Hollywood que o diretor procura para Mesrine: dar mais atenção ao
que existe de gênio do mal nos atos do personagem do que tentar explicá-los.
Optar pela glamurização, em si, não é um defeito. O problema de verdade é associar
toda a falta de caráter de Mesrine a um único episódio, o do combate aos argelinos
em 1959 - afinal, se esta é a memória mais antiga do personagem que o roteiro
achou apropriado resgatar, então entende-se que é a memória que o define como
pessoa. Inimigo Público nº 1 reduz a complexidade da questão a um clichê:
foi o horror da guerra que desumanizou Mesrine.
A ironia: Jean-François Richet sabe que essa simplificação é falsa. Tanto que,
nos créditos iniciais, como um aviso, assume que a representação jamais capturaria
com profundidade a personalidade de Mesrine. Muito oportuno...
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