Seja no drama ou na comédia, os premiados filmes da nova geração
de cineastas romenos invariavelmente tratam dos reflexos do comunismo no país,
que vigorou do fim dos anos 40 até a Queda do Muro de Berlim e de Ceausescu
em 1989. A
Leste de Bucareste leva na piada, 4
Meses, 3 Semanas e 2 Dias encara como terror - pra ficar nos dois exemplos
recentes mais conhecidos.
Casamento Silencioso (Nunta Muta, 2008)
fica do lado dos filmes anedóticos, mas seu humor é distinto daquele de A
Leste de Bucareste. Egresso do teatro e estreante em longas-metragens, o
diretor Horatiu Malaele parece se identificar mais com o tom picaresco
das comédias europeias rasgadas dos anos 70, em que a sátira política era mais
frontal e agridoce.
(O fato de ser uma co-produção entre Romênia, França e Luxemburgo
talvez explique parte dessa uniformização.)
A história começa nos dias atuais, quando uma equipe de filmagem
de um programa sobre eventos paranormais visita um vilarejo romeno onde só há
mulheres. De fantasmagórico basta o cenário: esqueletos de fábricas abandonadas,
cadáveres de concreto do finado regime. Recua-se meio século, então, até o dia
do casamento do título, para entender por que não existem mais homens ali.
Malaele transita por tradições do continente - da comédia italiana
(Monicelli, Fellini) à iuguslava (Makavejev, Kusturica) - para fazer graça enquanto
pratica o denuncismo das barbaridades soviéticas. Os arquétipos não mudam: temos
os jovens que se amam, os velhos beberrões briguentos, os puxa-sacos políticos.
Não é de se espantar que muitas cenas tenham formato semelhante ao do esquete
(como aquela no bar em que o rapaz pede a moça em casamento ao pai dela). É
uma escolha de narrativa e de construção de tipos antes de mais nada teatral.
O que pode ser um pouco frustrante para quem espera dos romenos
de hoje mais originalidade e um tanto de realismo (ou mesmo sofisticação, se
torta-na-cara não for sua praia). Já foi o tempo de fazer crítica política na
base do elogio da pureza.
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