O sucesso e a qualidade dos dois primeiros O Exterminador do
Futuro vêm do talento do cineasta James Cameron para harmonizar,
como bom contador de histórias, teoria de viagem no tempo com investimento pesado
em ação e efeitos visuais. O Exterminador do Futuro: A Salvação já sai perdendo
porque McG, ainda que tenha mão para a ação, evidentemente não é um James
Cameron.
Como reverter a desvantagem? A produtora Halcyon Company, que
adquiriu
os direitos da série quando ninguém queria tocá-la depois de T3,
faz o mais seguro, o mais prudente: evita contrariar ou adicionar números e
dados à já enrolada cronologia e reaproveita marcas consagradas de T2
para ganhar os fãs. Estão lá a música do Guns, os banhos
de aço fundido e nitrogênio líquido, as frases clássicas,
até a cena do exterminador de metal líquido escalando o automóvel
é emulada aqui.
As mudanças são exigência do momento: Cameron
não queria que o adolescente Connor pegasse em armas em 1995; em 2018, John
Connor (Christian Bale) não se separa de seu fuzil um minuto para liderar
parte da resistência humana contra as máquinas, ainda que sob um comando militar
multinacional. O visual enferrujado do futuro lembra Mad Max e Arnold
Schwarzenegger virou um figurante de luxo. Permanece, porém, a premissa
que norteava os longas anteriores: no meio da disputa maior com as máquinas,
uma vida precisa ser preservada a todo custo. Desta vez não é a de Connor, mas
a de seu pai, Kyle Reese (Anton Yelchin).
Roteiristas do terceiro filme, John Brancato e Michael
Ferris adicionam aqui um personagem novo - polêmico, mas que em teoria não
contradiz a cronologia - que não é apenas o "exterminador da vez": Marcus Wright
(Sam Worthington), um condenado à morte em 2003 que acorda em 2018, descobre
que seus ossos viraram metal e quer entender por quê.
O filme começa muito bem porque se restringe à essência: Connor
procura Reese e quer ganhar a guerra, Marcus quer explicações. Não há muito
o que discutir - é marchar pelo deserto sempre em frente. Se tinha algo a explicar
aos desavisados que desconhecem a franquia, McG o faz com um texto breve durante
os créditos de abertura. Por uma boa meia hora, portanto, o diretor se concentra
no que sabe fazer. O belo plano-sequência em que Connor sobe no helicóptero
e depois cai e assiste à explosão mostra que não é preciso picotar a imagem
como um Michael Bay para fazer ação convincente sem gastar muito dinheiro.
Os problemas aparecem logo depois da longa cena de ação que começara
no posto de gasolina (em que McG demonstra um domínio do ritmo digno de James
Cameron). Não apenas porque é um clímax grandioso que o filme tem dificuldade
em superar depois, mas porque naquele momento o roteiro tem que parar um pouco
para respirar e desenvolver personagens.
E desenvolver personagens é esse desafio que blockbusters
correntes enfrentam mal. Exagera-se na exposição (termo usado
para designar a forma como o filme nos entrega informações essenciais
sobre a história) porque os realizadores sentem necessidade de explicar
ao espectador cada um dos exterminadores novos, de criar uma subtrama para Marcus,
um dilema de "segunda chance"... Paralelamente, faltam peças
no arco de John Connor. Como ele construiu uma liderança capaz de fazer
as pessoas segui-lo cegamente, como um messias?
Didático, mas omisso
Falta a T4 mais foco, enfim, saber priorizar informações.
Quando McG teve de cortar a cena
na chuva de Blair (Moon Bloodgood), por exemplo, o trecho
ficou desconjuntado. E aí toda aquela historinha romântica de "você
tem um coração bom" fica mais difícil de engolir.
Falta aos realizadores, acima de tudo, entender que um filme da série
precisa de tensão ininterrupta. O drama vem do clima de suspense, não
do texto.
Paradoxalmente, T4 peca não só no didatismo,
como também na omissão. OK, é uma cronologia embolada:
pra se ter uma ideia, a série de TV e o terceiro filme, sozinhos, conseguem
divergir até em relação ao dia em que acontece o Julgamento
Final. Mas ao escolher suprimir informações que poderiam confundir
ainda mais, Brancato e Ferris criam uma trama algo episódica. Não
fica claro se o continuum espaço-tempo foi respeitado ou se o futuro
mudou em relação ao que se previa.
Exemplificando a omissão: de um lado, os realizadores dizem
que o futuro desértico do filme não é o mesmo futuro mostrado
em T2; do outro, eles capricham até para deixar o rosto de Christian
Bale parecido com o do ator Michael Edwards (que aparece em
uma visão do futuro no longa de 1991). Percebe-se que há uma urgência
em apagar vínculos - afinal, a Halcyon planeja uma segunda trilogia de
filmes - em diálogos do tipo "o destino nós que fazemos"
ou "esse não é o futuro de que minha mãe
falava" (presente no trailer), e ao mesmo tempo John Connor se apega
ao continuum de forma até irracional.
McG e seus desenhistas de produção (cuja importância
é cada vez maior em relação à dos roteiristas) conseguiram
visualizar um futuro interessante. Falta descongestionar narrativas e tomar
coragem para consertar a linha temporal. Uma hora eles vão ter que tocar
novamente no assunto viagem no tempo - que, não por acaso, sequer é
mencionado neste filme.
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O Exterminador do Futuro