ATENÇÃO: O artigo a seguir
detalha e comenta o final de Watchmen - O Filme e também o da
graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons. Leia somente se você
já leu a história em quadrinhos e assistiu ao filme.
(o)
Watchmen - O Filme é um projeto polêmico.
Ousou adaptar a graphic novel, considerada durante duas décadas
inadaptável. Mais do que isso, mudou o final da história, um dos
mais memoráveis desfechos de todos os tempos, seja nos quadrinhos, no
cinema ou na literatura. Afinal, antes de Watchmen,
o consenso da vilania era explicar todos os seus planos aos heróis antes
de executá-los, em estúpidos arroubos verborrágicos de
megalomania. Adrian Veidt, o Ozymandias mudou
tudo com a frase "você realmente acredita que eu explicaria meu
plano mestre se houvesse a menor possibilidade de você afetar o desfecho?
Eu o realizei 35 minutos atrás".
E que plano é esse? Nos quadrinhos, Adrian Veidt recruta uma equipe
de filósofos, poetas, paranormais, artistas, biólogos e cientistas
para criar através de engenharia genética um monstro colossal
- carinhosamente apelidado de "lula" pelos fãs
-, que é teleportado ao coração de Nova York. O stress
do teleporte gera uma poderosa onda de choque psíquica na criatura,
que dizima metade da cidade. O resultado do ataque, que fica parecendo de origem
extraterrestre ou extradimensional, é a união dos povos antagonistas
da Terra contra um novo inimigo em comum. Ao sacrificar milhões, Veidt
salva bilhões ao alcançar a paz mundial.
No cinema, os roteiristas David Hayter, Alex Tse
e o diretor Zack Snyder mudaram o final. A lula deu lugar a
uma bomba que emula os poderes quase divinos do Dr. Manhattan.
Inadvertidamente, o próprio herói, manipulado por Ozymandias a
acreditar que estava desenvolvendo uma fonte de energia limpa e renovável,
ajudou a criar a tal bomba, que é teleportada ao coração
de Nova York, dizimando metade da cidade. O resultado do ataque, que parece
deflagrado por um vingativo Dr. Manhattan, é a união dos povos
antagonistas da Terra contra um novo inimigo em comum. Ao sacrificar milhões,
Veidt salva bilhões ao alcançar a paz mundial.
Conversamos com todos os envolvidos sobre as mudanças, buscando entender
as razões da alteração, que inclusive contou com a ajuda
do ilustrador da HQ Dave Gibbons, como ele nos contou em entrevista.
"Eu fiz o storyboard dela. Zack queria ver como eu teria desenhado
aquela sequência se ela tivesse sido publicada. Então eu fiz alguns
cenários e quadros como referência, umas três páginas,
como Laurie e Manhattan chegando a Nova York devastada. Gostei bastante de fazê-lo
e o resultado no filme ficou muito parecido com o que desenhei". Para
Gibbons, a alteração funciona muito bem dentro das necessidades
do filme. "As opções de David Hayter transformaram o
filme em um todo orgânico e não em uma mera substituição
para a criatura extradimensional", diz. "Gostei muito".
Já Zack Snyder lamenta a ausência da lula, mas acredita que removê-la
foi um mal necessário. "Eu sou um fã da lula. Eu gosto
mesmo. É bacana demais. Mas para introduzi-la teríamos que mostrar
muitas tramas paralelas, o que levaria pelo menos 20 minutos, tempo que seria
cortado do desenvolvimento de personagens ou outros elementos mais importantes.
Então fizemos as alterações, mas ao mesmo tempo muito preocupados
com a integridade da mensagem final", conta o diretor.
Para Snyder, já que a ausência da lula era inevitável,
tornar o Dr. Manhattan o instrumento da destruição foi uma solução
elegante. "Permanece a ideia do inimigo em comum das duas superpotências
que estão na iminência de uma guerra nuclear que acabará
com o planeta. E esse inimigo sendo Deus me pareceu uma ideia boa demais pra
ignorar. 'Deus nos traiu', adoro isso. E também dá um
encerramento tão bom para a história do Dr. Manhattan... ele é
meu personagem favorito, então minha tendência foi me preocupar
um pouco além do que deveria com ele", confessa.
"Em segundo lugar, o mundo de Watchmen é tão
envolvente porque é próximo demais do nosso", acredita
o roteirista David Hayter. "Há apenas um elemento de magia nele,
que é a existência do Dr. Manhattan. Ele é quase onipotente,
o que é um elemento central da história. O problema é que,
no final da HQ, você é apresentado a um novo elemento mágico,
que é a lula interdimensional. Esse elemento requer, mesmo na graphic
novel, um enorme esforço de criação: o sequestro do autor
de quadrinhos, as pessoas na ilha... ele exige uma enorme trama paralela que
contém informação demais para ser absorvida em um filme.
Então meu objetivo foi tentar achar uma saída para honrar todos
os critérios do final, o mesmo efeito do final da HQ, mas usar elementos
que já tinham sido devidamente apresentados previamente", conta
sobre o processo.
A produtora Deborah Snyder partilha da opinião da equipe.
"O que é o final? O final é a lula ou o final é
Adrian Veidt matando milhões para salvar bilhões e o debate se
isso é certo ou errado? Para nós, a segunda opção
era mais importante - e ela não necessariamente precisa da lula para
funcionar", acredita Deborah.
"O resultado do evento que acontece ao final
é idêntico ao da graphic novel", garante o roteirista
Alex Tse. "Só muda o mecanismo. Veja: Nos dois casos a catástrofe
é causada - presumidamente - por uma terceira força, algo assustador
e muito poderoso. E a decorrência imediata do ataque é a mesma,
a união dos povos do mundo contra essa força", explica.
"Os fãs me malharam meses antes da estreia por mudar o final
sem ter visto o que fiz - e não se ligaram que eu fiz o filme , mais
do que qualquer outro filme na história foi feito, para eles",
continua Snyder. "Eu não mudei o final. Mudei apenas o mecanismo
como o final acontece. E posso garantir que a verdadeira luta não foi
se deveria haver ou não a lula, mas se Adrian viveria ou não.
Essa foi a briga com o estúdio. Eles não achavam que o cara que
acabou de matar milhões deveria sair vivo", revelou o diretor.
"Ele mudou o mundo, talvez para a melhor, talvez não - e esse
é o grande dilema de Watchmen. O estúdio demorou muito
pra entender isso, me pediu moralidade melhor definida, ao que eu respondia
'esse é o livro que vocês querem adaptar'. Ele incita o debate",
defende-se o diretor.
Produtor da adaptação há uma década, Lloyd
Levin respira aliviado ao pensar no que esse final poderia ter sido.
"Nesses 20 anos, muitas ideias de finais diferentes foram apresentadas.
Alguns tinham viagens no tempo - com Ozymandias impedindo o surgimento do Dr.
Manhattan -, outros eram exclusivamente sobre o mistério de quem é
o assassino e outros tinham Adrian sendo morto... o que seria ridículo.
Tudo o que queremos com o final é a discussão se Adrian estava
certo ou errado e matá-lo colocaria um fim nisso", diz.
A substituição da lula pela bomba também exigiu a criação
da colaboração entre o Dr. Manhattan e Ozymandias, algo que David
Hayter lembra ter apenas desenvolvido. "Quem teve a idea foi
Paul Greengrass, que estava no projeto antes de Zack Snyder. Foi ele
que parou pra pensar em como a entidade mais poderosa e o homem mais inteligente
do planeta deveriam colaborar buscando a solução para o maior
problema da humanidade: a criação de uma fonte de energia renovável".
A ideia foi incorporada ao novo final, honrando o personagem vivido por
Matthew Goode, que era o homem mais poderoso do mundo até
o surgimento do Dr. Manhattan, e volta a sê-lo ao usar essa poderosa criatura
sobrehumana. "Essa ideia vai ao encontro de uma característica
principal do personagem, que é o grande ego, seu desejo narcisístico
de ficar acima de todos", explica.
Para Hayter, há ainda outro aspecto crucial na mudança do final,
da lula para uma bomba tão poderosa que desintegra a cidade. "O
11 de Setembro aconteceu um dia depois de eu ter assinado o contrato para escrever
o filme. Então senti que havia uma diferença enorme entre ver
a Times Square devastada com corpos mutilados em 1985 e ver a mesma cena, com
atores reais, em um filme, em 2000 e pouco. Espero que algumas pessoas que ainda
estão céticas em relação a isso vão ver o
filme e possa dizer 'ficou bastante costurado na história e fiel
à proposta do final do livro'. Mas eu sei que os puristas jamais
aceitarão a ausência da lula. O final que temos funciona de maneira
mais amigavel para a história que adaptamos ao cinema. Mas tudo bem,
há uma discussão saudável aí... estou muito feliz
com o final do filme. Não é vendido de maneira alguma para uma
ideia fácil, é apenas mais amarrado com a história que
já estávamos desenvolvendo. Ao fazer isso, espero estar honrando
o próprio Alan Moore. Também é bom deixar claro que nunca,
mas nunca, foi minha intenção mudar o final simplesmente por mudar",
conclui, cuidadoso, o roteirista.
Dave Gibbons também se preocupa com as semelhanças filosóficas
e visuais entre a obra e o 11 de Setembro. "O 11/9 foi um evento catastrófico
real, sim, e uniu temporariamente pessoas de raças e religiões
distintas. O problema é que a abordagem oficial foi tão equivocada
que acabou tornando as coisas muito piores. Claro, a analogia não é
exatamente perfeita - na HQ são duas facções opostas e
uma terceira atacante -, mas aquelas cenas de destruição foram
estranhamente parecidas com as de Watchmen", acredita. Mas
isso quer dizer que o plano de Ozymandias se executado no mundo real não
funcionaria? "Essa é a graça da história. E quem
sabe se o plano funcionou mesmo na HQ? E se funcionou, será que aquele
jornal publicou a história de Rorschach? E se publicou? Alguém
acreditará neles? O final é a prova de que não importa
o quanto você planeje as coisas, sempre haverá eventos aleatórios
inesperados que podem mudar tudo...", instiga o quadrinista.
Seja o gatilho do clímax uma tentacular ameaça interplanetária
ou um deus atômico rancoroso, o desfecho da obra funciona da mesma maneira:
com uma discussão inteligente sobre consequências, moralidade e
poder. E não se esqueça: "O fim está próximo".
Com este artigo, o Omelete encerra esta etapa de uma das maiores coberturas
de sua história, que contou com uma visita exclusiva ao set, crítica,
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