Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire,
2008) joga o anzol e puxa a linha logo no primeiro frame. Ele começa perguntando como um menino da favela conseguiu chegar
ao topo do jogo televisivo que dá o título nacional do filme. Dá as alternativas. E logo em seguida já mostra o rapaz sendo brutalmente torturado. O público
está fisgado. A resposta é tudo o que interessa.
Na sequência começam a surgir outros aspectos igualmente empolgantes
do novo filme do cultuado cineasta inglês Danny Boyle
(Extermínio,
Sunshine).
Enchem os olhos o visual de cores saturadas, a câmera na mão -
veloz e inquieta -, e a montagem espertíssima, elementos cujos adjetivos
aqui empregados podem ser transpostos às três crianças que
o filme acompanha por uma monumental favela de Mumbai, India. Tudo embalado
por uma trilha sonora moderna que mistura a música incidental A.R. Rahman
com canções indianas contemporâneas e faixas ocidentais, como
"Paper Planes", da M.I.A, que aparece em duas versões.
Mas ao menos para os brasileiros deve surgir uma desconfortável má-impressão
que se mantém ao longo de todo o primeiro ato. A pobreza é mostrada
através de uma ótica que equilibra humor, drama e violência,
o que lembra bastante nosso próprio novo clássico de exportação,
Cidade
de Deus. Felizmente, tal impressão é tão curta
quanto a aparição de uma galinha correndo pela favela (juro que
se a câmera a seguisse eu levantaria do cinema e iria embora, mas não
foi o caso).
Essa idéia errada estende-se por todo o começo porque Boyle desvela
seu filme com muita paciência, alternando cenas de um rapaz em três
momentos. Conhecemos Jamal (Dev Patel) sendo torturado e entendemos
os motivos da tortura na sequência: a polícia quer saber como foi
que ele, alguém totalmente desprovido de qualquer educação,
conseguiu chegar tão longe no programa Quem Quer Ser Um Milionário?.
Seria o jovem um sortudo? Um gênio? Um trapaceiro? Para responder às
perguntas da lei, Jamal conta a história de sua infância. Orfão
muçulmano, ele cresceu ao lado do irmão Salim e da pequena Latika,
por quem nutre uma paixão protetora desde pequeno. Cada personagem é
interpretado por três atores ao longo do filme. Todos são cativantes
- especialmente os pequenos - mas Dev Patel e Madhur
Mittal destacam-se como Jamal e Salim na vida adulta. Já Freida
Pinto, a Latika, se restringe a fazer o que deve: parecer linda feita
um sari bordado a ouro.
O roteiro de Simon Beaufoy, que adaptou o romance best-selller
indiano Q & A, de Vikas Swarup, no entanto,
não é sobre dinheiro, mas uma história de amor e destino.
Um impensável feel good movie cheio de lixo, violência
e exploração - um inusitado filme-família brutal e ao mesmo
tempo adorável, uma mistura perfeitamente homogênea do que seriam dois outros
filmes de Boyle, Trainspotting e Caiu
do Céu, se fossem feitos em Bollywood, o caricato maior mercado
cinematográfico do mundo. E quando o plano do cineasta é revelado,
em uma guinada de roteiro daquelas pra lembrar pra sempre, cada pedacinho da
trama se encaixa, revelando um quebra-cabeça que é não
apenas tudo o que já foi comentado aqui, mas também uma homenagem
à India, ao seu cinema e, mais importante, às suas pessoas.
"Você queria uma visão da Índia verdadeira? Aqui está!",
diz em determinada hora Jamal a um turista. Quem Quer Ser Um Milionário?
é uma visão real do país, sim, mas carregada de toda a
realidade que uma fantasia é capaz de criar.