Pode parecer clichê, mas não vejo forma melhor de descrever e "vender" o documentário Café dos Maestros (Cafe de los Maestros, 2008) do que chamá-lo de "O Buena Vista Social Club do tango", ou Buenos Aires Social Club, como já li por aí.
O filme, produzido pelo ótimo músico Gustavo Santaollala (vencedor de dois Oscars por suas músicas para os filmes Diários de Motocicleta, O Segredo de Brokeback Mountain e Babel) com co-produção do brasileiro Walter Salles Jr. e patrocínio da "nossa" Petrobras, segue os mesmos passos que Wim Wenders e Ry Cooder percorreram pela ilha de Fidel, mas dessa vez andando pela "européia" Buenos Aires.
Um a um, eles vão encontrando os mestres (maestros, em espanhol) do tango dos anos 40 - a chamada era de ouro do gênero argentino. Os músicos contam um pouco da sua história, do que tango que faziam naquela época e partem para o estúdio, onde gravam e ensaiam temas clássicos do gênero. Alguns se emocionam ao lembrar dos companheiros que morreram, o que acaba funcionando de combustível para o ritmo platino, que se alimenta da dor.
Saem desses depoimentos frases de efeito, como a dita pelo pianista Carlos García: “Se, quando ouve um tango bem tocado, você não sente o seu peito tremer, você tem algo de errado.” O diretor Miguel Kohan deixa as câmeras rodando, captando o máximo de material possível e vai mesclando esse emaranhado de sentimentos com muita música e dança, já que o tango não é feito só para se ouvir.
A cara feliz de Santaollala a cada convidado que entra no estúdio é contagiante. Ele está ajudando a eternizar mestres do seu país, dando a muitos deles um último momento de glória - dos 17 maestros, 3 morreram antes do fim da produção.
O desfecho, como na contraparte cubana, é uma grande apresentação que reúne os músicos. Em vez do Carnegie Hall nova-iorquino, o Teatro Colón, em Buenos Aires. Isso talvez explique bastante da diferença entre as duas produções. Enquanto uma sonha - e consegue - se mostrar ao mundo em uma de suas metrópoles, a outra se contenta em tocar "em casa", para os que conhecem e "mamam" tango desde pequenos. Não consigo dizer se isso é falta de ambição, conhecimento dos seus limites ou, como diriam os mais maldosos, achar que Buenos Aires é o centro do mundo. E por isso me abstenho de fazer julgamentos.
Fato é que Café dos Maestros é nostálgico onde Buena Vista Social Club é dramático e pessoal. Não há dor cantada em forma de tango que gele mais a espinha do que a dura vida dos colegas cubanos que permaneceram ao lado de Fidel, para o bem e o para o mal.