Apesar do seu nome de batismo ser Marco Giuseppe Salussolia, Mark Strong nasceu em Londres, filho de pai italiano e mãe austríaca. Depois de iniciar o curso de direito, chegando a estudar em Munique, ele voltou à sua terra natal já sabendo que queria ser ator. Estudou na Bristol Old Vic Theatre School e começou a participar de peças até entrar para as prestigiosas Royal National Theatre e Royal Shakespeare Company. Dos palcos para a TV e, agora, no cinema, onde está sendo descoberto em papéis coadjuvantes.
Nunca ouviu falar dele? Tudo bem, seu nome não é dos primeiros que aparece nos créditos - ainda! - , mas você certamente já o viu em ação, pois recentemente ele esteve em Oliver Twist, Syriana - A Indústria do Petróleo, Tristão e Isolda, Sunshine - Alerta Solar, Stardust - O Mistério da Estrela, Reflexos da Inocência, Missão Babilônia, e agora vai estar quase que simultaneamente em dois filmes ao mesmo tempo: Rocknrolla - A Grande Roubada e Rede de Mentiras, além de Um Homem Bom, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim, que estréia em dezembro.
A entrevista foi feita por telefone depois de um dia de filmagens do seu trabalho atual, Sherlock Holmes, em que interpretará o vilão do filme. Seus colegas de trabalho são Robert Downey Jr. (Sherlock) e Jude Law (Watson). Extremamente simpático, Mark falou o que já fez até agora, deu dicas aos pais de primeira viagem e tentou explicar por que os ingleses sempre ficam com os papéis de vilões nos filmes de Hollywood.
O imdb lista seis filmes estrelados por
você que foram ou serão lançados este ano, pelo menos três para 2009 e um para
2010. O que aconteceu à sua carreira recentemente que o levou para o centro dos
filmes de Hollywood?
Mark Strong: (risos) Eu não sei. Eu não sei mesmo! Tenho trabalhado muito nos últimos anos.
Fiz muito teatro quando comecei, depois fiz bastante TV e daí, acho que foi
isso que aconteceu, comecei a fazer filmes. É como um clube, sabe? Uma vez que
você entrou, as pessoas começam a considerar você quando estão fazendo a
escalação dos seus filmes.
Mas para
ser sincero, acho que o que aconteceu é que alguns desses projetos estrearam
mais ou menos na mesma época - como está acontecendo agora com Rocknrolla e Rede de Mentiras -, que foram Syriana,
com George Clooney, e Oliver Twist,
dirigido por Roman Polanski. Eles entraram em cartaz muito perto um do outro e
eram papéis muito diferentes. Em um eu era um muçulmano libanês e no outro um
personagem de Dickens. E algumas pessoas viram e começaram a perguntar “quem é
esse cara? De onde ele surgiu?” E desde então tenho sido chamado para outros
filmes.
Meu palpite era que você estava
trabalhando com um novo agente...
(risos)
Na verdade, você não está tão errado. Eu troquei de agente uns cinco anos atrás
e isso meio que coincidiu com o fato de eu começar a fazer mais filmes. Mas
acho que há outros motivos para isso do que meu novo agente. Foi apenas uma
feliz coincidência.
Você está filmando Sherlock Holmes agora. Quanto você pode falar do seu personagem, Lord
Blackwood?
Eu já
filmei alguns dias. Meu personagem é o adversário do Sherlock Holmes. Ele é o
vilão. Um lorde, um membro da aristocracia, e um sacana. Um personagem sombrio,
que tem uma ligação com o demônio. Eu sou levado a uma prisão no início do
filme, porque sou preso. A cena que fiz hoje mostra quando eles me jogam em uma
masmorra. Amanhã cedo vou fazer a cena em que me encontro com [o personagem de]
Robert Downey Jr., quando ele vem me visitar na prisão.
E como está o sotaque de Robert Downey Jr.?
Está
fantástico! Ele já fez alguns filmes em que tinha de fazer um sotaque inglês, Chaplin e O Outro Lado da Nobreza (Restoration, 1995), e ele é muito bom. É
como se tivesse nascido aqui.
Falando agora de Rede de Mentiras e Rocknrolla,
os dois estão estreando com um intervalo muito pequeno entre eles. As filmagens
também foram assim próximas uma da outra?
Sim. Eu
fiz Rocknrolla no verão [do
Hemisfério Norte] do ano passado e fiz Rede
de Mentiras logo antes do Natal. Rocknrolla foi filmado em Londres e Rede de Mentiras no Marrocos.
Na
verdade, eu tinha recusado fazer Rede de
Mentiras porque minha esposa estava prestes a dar à luz nosso segundo filho
e eu não queria estar no Marrocos quando isso acontecesse. Ela leu o roteiro e
me disse “Você tem de fazer esse filme. Você está louco? Um filme do Ridley
Scott, com Leonardo DiCaprio e Russel Crowe”. E ela me deu permissão para fazer
o filme. Ela deu à luz numa sexta e no sábado eu voei para o Marrocos.
Basicamente,
foi isso o que eu fiz ano passado. Foi um ano fantástico. Fiz esses dois filmes
e ganhei meu segundo filho.
Minha esposa está grávida e é realmente
uma sensação ótima.
É o seu
primeiro filho?
Sim.
Boa
sorte. Para quando é?
Dezembro.
Nossa,
daqui a pouco.
Sim, estamos quase lá. Você tem alguma
dica?
Tenho
uma: no meio da madrugada, quando sua esposa se levantar para amamentar, não
levante junto com ela. Eu fiz isso, estava tentando ser o cara perfeito, mas
ela tinha de se levantar a cada três horas para amamentar e eu me levantava
junto. Mas o que acontece é que nós dois ficávamos completamente exaustos e não
conseguíamos pensar direito. Então, a melhor coisa, embora possa parecer cruel,
é não levantar junto quando for apenas para amamentar, porque daí você vai
poder cuidar do bebê quando ela precisar dormir.
Muito obrigado pela dica! Vou ter de
mostrar a gravação para ela.
Isso.
Diga que fui eu que disse. Ela pode não gostar, mas... (risos)
Voltando agora aos filmes, em Rede de Mentiras e Rocknrolla seus personagens são completamente diferentes, o que é o
sonho de qualquer ator, certo? Dizem que você só está sendo escalado como o
“bandido” da história, como foi conseguir papéis que são tão diferentes agora?
Quer
saber, Marcelo, acho que os vilões, ou os personagens sombrios, são os
personagens mais interessantes de se interpretar. São caras que têm problemas
de conflitos e por isso oferecem mais desafios do que os bonzinhos amáveis cujo
papel é se apaixonar e fazer com que as pessoas gostem deles. Eles tendem a vir
em diferentes formatos e tamanhos e eu não sei, sou um ator de personagens,
acho. Eu fiz um personagem libanês no Syriana e acho que por isso me ofereceram esse papel no Rede de Mentiras. O gângster que faço no Rocknrolla vem da classe trabalhadora e quando cresci eu fazia
parte dessa classe social. Eu tento escolher papéis que sejam diferentes do que
eu já fiz e se você fizer isso, as pessoas começam a perceber que você pode
fazer vários papéis diferentes. Daí, quando alguém pensar “quem pode fazer tal
papel?” alguém pode pensar “ele pode, pois já fez vários trabalhos bem
diferentes”. Eu tive sorte de não ter sido rotulado, mesmo tendo feito vários
vilões, que na verdade eram bastante diferentes entre si.
A similaridade
entre Archie, de Rocknrolla, e Hani,
de Rede de Mentiras, é que os dois
são comandados pela honra. Seu lema é a lealdade.
Não sei se você vai concordar comigo ou
não, mas Christopher Lee e Jason Isaacs, outros dois atores britânicos, são
assombrados – para o bem ou para o mal – em Hollywood pelo rótulo
dos vilões. Você acha que isso possa ser um rancor que existe por lá que vem da
época da colonização?
Acho que
temos duas razões para isso, na verdade. A primeira é que os ingleses são
considerados exóticos. Nosso sotaque nos coloca em um patamar diferente. E
também acho que os atores norte-americanos têm um problema em ser o vilão
porque eles querem ser idolatrados. Já para os britânicos é uma questão do
papel trazer um desafio, indiferente dele ser adorável ou não. Quando você vê
um estadunidense interpretando um vilão, você vai ver que ele o faz como um louco,
enquanto que os ingleses podem fazê-lo como uma pessoa normal.
Mas
talvez você esteja certo. Talvez tenha algo inconsciente que os força a mostrar
os ingleses como os vilões. (risos)
Falando agora de ser um rocknrolla (gíria
do filme para roqueiro), eu li que você teve uma banda punk no passado. O que
você ouve nos dias de hoje?
Isso é interessante,
porque com a chegada do iPod, eu ouço de tudo, porque deixo o tempo todo no shuffle. De uma hora para outra vou de
algo dos anos 50 para Temptations, Bauhaus, umas músicas punk, gosto de house
music dos anos 80... você ouviu a trilha sonora do Rocknrolla? Tem algumas faixas ali no meio que eu acho que são
fantásticas, umas músicas hardcore que gosto muito. Não me lembro qual foi o
último álbum que eu comprei, mas de uma maneira geral, eu ouço de tudo pois
jogo no iPod e deixo rodar.
Eu vi que você fez séries de TV e eu adoro
alguns programas ingleses, como o infantil Creature
Comforts, The Office, Extras e Spaced.
Você tem alguma dica do que eu deveria estar vendo agora?
Que eu
fiz ou que eu goste?
Os dois!
Fiz uma
série chamada The Long Firm, em que
era um gângster dos anos 50, mas não sei se você vai achar por aí. Se você
gosta de The Office, tem uma ótima
série chamada Peep Show. É muito
engraçado!
Para fecharmos, você pode nos dizer como
foi trabalhar com o diretor brasileiro Vicente Amorim em Um Homem Bom (Good)?
Foi muito
legal. Esse foi um trabalho que eu aceitei depois de conversar com o produtor. Foi
maravilhoso, pois Good é uma
conhecida peça inglesa e o fato dele aceitar dirigir o filme foi uma grande demonstração
de coragem. Ele é um cara muito legal. Adorei trabalhar com ele.
Você já veio para o Brasil?
Sim! Mas
só fui para o Nordeste. Fortaleza, Jericoacoara e desci só até Salvador.
Muito bonito por lá, não?
É lindo!
Mas o seu pais é muito grande e demoraria uma vida inteira para conhecer tudo. Aliás,
onde você mora?
São Paulo.
São Paulo
é uma das cidades que eu quero muito conhecer. Eu fui para o Rio, passei o
Réveillon na praia lá. Foi sensacional. Todos os fogos de artifício, tudo
aquilo foi incrível. São Paulo é um lugar que eu adoraria visitar.
Você é bem-vindo por aqui. É só aparecer.
Obrigado.
Foi um prazer falar com você.
Leia
critica de Rocknrolla – A Grande Roubada