Se a historinha de bastidor que o diretor Miguel Gomes conta é real
mesmo, não importa muito - aos poucos descobrimos que "história real" é um conceito
um tanto volúvel em Aquele Querido Mês de Agosto (2008), filme
português que coloca, com muito bom humor, ficção, documentário e a arte da
representação como um todo em curto-circuito.
A historinha é a seguinte: a equipe de filmagem de Gomes (vivido no filme por
ele mesmo) se instala no interior do país para filmar a história de Tânia,
adolescente que, depois do sumiço da mãe, vive uma relação intensa com o pai,
relação essa que termina afetada quando Tânia se interessa por seu primo. Enquanto
Gomes aguarda o dinheiro dos produtores (já está tudo montado na locação, mas
não há sequer elenco escalado), ele decide botar a câmera para funcionar e registrar
o que aparecer pela frente.
A metalinguagem está presente desde os créditos iniciais, que não saem como
o diretor queria. A partir daí acompanhamos a equipe por gravações documentais
e entrevistas com moradores da região em Aldeia de Benfeita,
Pardieiros, no Rio Alva, em Coja,
Anseriz, Pisão, Luadas, Vinhó...
Agosto é a época dos festejos locais, com muito karaokê, comida, fogos-de-artifício.
Vez ou outra aparece em cena aquele microfone de som direto, o boom,
que os portugueses chamam de coelho, por ser fofinho.
A equipe assume que está ligando a câmera e pegando o que vê, mas a disposição
desse material desde o início é sofisticada (ainda que os planos sejam quase
todos estáticos e os cortes, raros), particularmente com o som de uma cena invadindo
a outra - essa questão do som ainda vai render uma piada impagável no fim do
filme. O caso é que a grande jogada de Aquele Querido Mês de Agosto é
mostrar que há muito de ficcional na forma como essa "vida real" se apresenta
e na forma como ela é ordenada no filme.
Em uma cena, por exemplo, o diretor Gomes filma jovens fazendo de conta, com
sombras, diante dos faróis de um carro, que estão caçando um javali. Esse javali
morto de mentirinha aparece minutos depois, morto de verdade, pronto a ser limpo
para o jantar. Há uma ficção sendo feita ali com material documentado, portanto.
Antes disso, o próprio material que Gomes colhe já vem impregnado de ficção.
Como na história de Paulo, um sujeito ruim da cabeça que dá
um salto mortal da ponte do Alva todo Carnaval. Para cada pessoa que conta a
história de Paulo, ouvimos uma versão diferente. "Eu não vi, foi o que me
disseram", diz um entrevistado.
Outro momento emblemático: quando o gringo da machadinha, no dia do seu aniversário,
dá uma entrevista à equipe acompanhado de uma intérprete lisboeta, mas, ao invés
de traduzir, ela refaz o depoimento do gringo com suas próprias opiniões. E
aí ouvem-se os ecos do velho mantra semiótico de McLuhan,
o meio é a mensagem. Seria muito difícil fazer um filme como Aquele Querido
Mês de Agosto em outro lugar, porque é a tradição de história oral do interior
de Portugal que o fundamenta.
Já seria um grande filme sobre a representação da realidade (e sobre o mito
do gênero documentário de que é possível ver o mundo imparcialmente, sem os
filtros do observador), um Gente da Sicília lusitano, não fosse a virada.
De repente, sem qualquer mudança no estilo, começamos a assistir à encenação
prevista lá no começo, a história de Tânia. O cineasta acabou pegando moradores
do lugar para viver os personagens, pois, como havia dito antes para
um produtor, ele "quer pessoas, não atores".
E se a primeira metade do filme era um documentário com toques de ficção, a
segunda se mostra uma ficção com toques de documentário - antes de mais nada,
porque já conhecemos a história anterior daquele cenário, como quando Tânia
e seu primo passeiam sobre a ponte (a mesma ponte de onde Paulo pula todo Carnaval).
E há temas tocados pela ficção que fazem parte daquela comunidade de fato, como
o patriarcado arraigado. O resultado da inversão de representações é
genial. Fica difícil saber até que ponto são mera encenação
cenas como a do incêncio ou das procissões.
E o mais interessante é que Gomes não se desvia desse choque em momento algum.
Nos últimos instantes de Aquele Querido Mês de Agosto, quando
filma uma árvore num parque, ele faz questão de enfocar a plaquinha que explica-lhe
a espécie. Por que, veja bem, estamos no cinema, terra da ilusão, então é prudente
mostrar a plaquinha para que o espectador não fique pensando que aquela árvore
é de mentira.