A essa altura imagino que você já tenha lido como foi a nossa visita ao set de filmagens de Batman - O Cavaleiro das Trevas, certo? Mas eu não falei uma coisa por lá. Antes de irmos para o estúdio, em Cardington, nós paramos em um hotel na área central de Londres, pertinho do Palácio de Buckingham. Eram umas 8h e tanto da manhã e o tempo, bom, estava horrível! Aquela garoa fina que faz parte do dia-a-dia londrino.
Mas nada disso tirou o meu bom humor, pois o dia prometia ser (e foi!) bastante animado. A primeira parada era estratégica, para um bate-papo (ou deveria dizer batpapo?) com o ator Aaron Eckhart (Obrigado por Fumar). Totalmente adaptado aos costumes britânicos, Eckhart entrou na sala tomando
chá, hábito provavelmente adquirido quando ele morou na capital inglesa, como ele explica a seguir:
Bom dia. Como está?
Estou bem e
você?
Está curtindo Londres?
Eu conheço
bem Londres. Já trabalhei muito aqui e morei um tempo. Fiz os quatro anos do
colegial aqui. É como voltar para casa. Eu adoro a Inglaterra. E as filmagens
têm sido ótimas. Está sendo muito gostoso trabalhar nele. E muito é por causa
do Chris [Nolan]. Ele é um ótimo diretor, um cara muito legal e que torna todo
o processo muito prazeroso.
O que é o torna tão divertido?
Não tem uma
coisa específica. Ele está sempre brincando, tem um ótimo senso de humor. E é
um cara muito leal. Muitas das pessoas que estão aqui trabalharam em todos os
seus filmes, como o diretor de fotografia [Wally Pfister]. Todo mundo se
conhece muito bem. Chris e Christian [Bale] obviamente se entendem muito bem. É
um set muito fácil de se trabalhar mesmo já tendo se passado 6 meses.
Em qual estágio de filmagens vocês estão?
Estou no
estágio suicida. (risos) Falando sério. Estamos na fase final de filmagens. Mas
este filme é tão grande – eu nunca tinha trabalhado em nada deste tamanho
– que dá para você ir e vir. Aconteceu isso com vários atores. O elenco
deste filme é fenomenal. Eu sempre sonhei em trabalhar com Gary Oldman. Ontem
fiz uma cena com Chris que foi ótima. Muitas cenas também com Heath, Maggie...
É toda essa grande coisa do Batman contra o Coringa.
O que te levou a aceitar o papel?
Foram vários motivos. Primeiro por ser um filme do Chris Nolan. Eu realmente acho que ele é um ótimo
diretor. E depois pelas pessoas que estão ao seu redor: é uma ótima oportunidade de trabalhar com atores geniais, como Michael Caine, Gary
Oldman...
É também
uma oportunicade de estar em um grande filme. Eu já fiz alguns, que
não foram tão bem, mas eu acho que esse aqui vai fazer muito sucesso. Também
pela oportunidade de viajar mais um pouco ao redor do mundo, que eu adoro.
E ainda por cima eu tinha um ótimo
personagem. Eu gosto muito dele. Se eu tivesse lido o roteiro e pensado “ah, é
um personagem meio bobo, mas eu quero fazer um Batman...”, mas não
foi nada disso. Eu li e adorei o personagem e vi que todo mundo tinha um ótimo
papel. Por isso eu topei na hora!
Você contracena com todo mundo no filme?
Acho que
sim. Todo mundo menos... uma pessoa. (risos). Só faltou essa pessoa.
O que você pode nos contar sobre os
personagens?
Eu posso
contar praticamente... nada. (risos). Mas posso dizer que eu sou Harvey Dent/Duas-Caras e isso já é
muito! Meu personagem passa pela mudança. Você sabe, Harvey é o promotor
público de Gotham City, que luta contra o crime. E daí alguma coisa acontece...
Você lia os quadrinhos do Batman? Já era um
universo que você conhecia?
Eu cresci
vendo a série do Adam West. Via todo dia quando chegava da escola. Adorava os
“POW”, “BAM”. Pensar o que o Batman era naquela época e ver o que ele é hoje...
E temos o Tim Burton no meio, então é meio que
uma evolução, não?
Quando o
Batman do Burton foi lançado foi algo realmente visionário. Não sei se foi uma
evolução natural ou não. É uma diferença muito grande. Enquanto os quadrinhos
são mais sombrios, aquela série era bem leve.
Seu papel tem este perfil duplo de quem
persegue a justiça e depois de um renegado. Você desenvolveu os dois
personagens separadamente... como foi?
Não. Nos
quadrinhos, por causa deste incidente em que ácido é jogado na sua cara, ele
não se transforma em uma nova pessoa. Neste momento, ele começa a usar o que
estava dentro dele e expressar tudo o que sentia antes, mas de uma forma
diferente. Está vindo do mesmo lugar. Em outras palavras, a frustração que ele
sentia como promotor, quando trabalhava com o Tenente Gordon e não conseguia
resolver o caso, não conseguia pegar os mafiosos porque tinha que seguir as
regras, não existem mais. Ele não precisa mais seguir a burocracia criada pelo
governo. O alter-ego dele se liberta e começa a seguir seu inconsciente, ou
subconsciente. Não há mais limites. Ele troca um código por outro.
Quando você
vê esses filmes de “justiceiro”, em especial nas séries como Batman, é
interessante notar que mesmo quando eles saem dos trilhos, eles estão indo
atrás dos vilões. Eles não vão sair matando mulheres e crianças. O negócio
dele são os mafiosos, os políticos curruptos, este tipo de gente. Então, acho
que o sentido principal da justiça ainda está ali. O problema é como você a executa. E isso é o Harvey/Duas-Caras. Harvey Dent é um cara muito bom. Muito!
Harvey/Duas-Caras, tem bons instintos, mas ele os manifesta de uma forma
errada.
As pessoas sempre me perguntam como eu viro outra pessoa e isso é
impossível, mesmo para um ator. Não importa quão distante seja o personagem da sua vida real, é
impossível separar seus pensamentos próprios, seus sentimentos e tudo o que
você viveu até aquele momento. O que você faz é separar algumas características
do seu personagem e brigar para que as outras sejam desligadas por um tempo,
procurando por trejeitos diferentes e tal. Tudo isso vem do mesmo lugar. Pode
olhar nos grandes atores como Olivier, Hawpkins e outros gênios, eles criam estes personagens de formas
completamente diferentes, vozes diferentes, mas que saíram do mesmo lugar.
Você já tem a sua moeda?
Eu já vi a
moeda. Eu já usei a moeda. Sim. A moeda está no filme.
Você já jogou uma moeda para decidir algo
importante na sua vida?
Sim, claro
que sim. Quando você é moleque você está sempre apostando, seja jogando uma
moeda ou no Jankenpô. Já Harvey joga a moeda por causa da aleatoriedade de coisas
que aconteceram na vida dele. Ele passa a acreditar nessa aleatoriedade que vem
da moeda. Algumas pessoas às vezes pensam que a vida funciona assim. Às vezes a
vida pode ser tão despropositada que você não vê a lógica das coisas. Tudo o
que se vê é caos. É muito simples. Ele teve ácido jogado na cara dele. (risos)
Falando do ácido, quanto tempo levava para você
ficar pronto como Harvey/Duas-Caras?
Quem te
disse que eu usei maquiagem? (risos) Leva uma eternidade! Eu não posso dizer
muito. Duas-Caras ainda não apareceu muito na mídia e isso nos deixa bastante
empolgados. Eu não quero revelar muito sobre a maquiagem ainda.
Você chegou a olhar a interpretação do Tommy
Lee Jones?
Eu vi esse
Batman há muito tempo e estamos fazendo de uma forma diferente. Não senti
necessidade de voltar lá. Eu li muito dos quadrinhos. E não quero nem entrar
neste detalhe de dizer quais eu li. Acho que sabendo que é um diretor novo, com
um roteiro diferente, não há como comparar o meu personagem com o dele ou de
outros Batmen.
Essa é uma versão bem mais dramática, né? Uma pá de cal no que Joel Schumacher fez.
Ah... [suspiro]
Eu não estou brincando: você vai ver ótimas performances neste filme. De
verdade! Acho que o Coringa está fantástico. Chris está com um ótimo roteiro em
mãos e filmando do jeito que ele quer, se divertindo. Você está certo. Chris
trouxe a um nível em que isso está virando um conto dos irmãos Grimm. Um rito
de passagem para o que antes seria apenas um filme-pipoca.
Você acha que os fãs do Batman vão ficar satisfeitos?
Sim!
Por quê?
Porque eles
gostam do Batman. Eu vou ser o melhor Duas-Caras? Não sei, mas fiz o melhor que
eu pude. Mas quer saber? Os aficcionados pelo Batman vão devorar a história.
Com toda a ação e a trama... eu acho que eles vão ficar bastante satisfeitos
com o todo que estamos construindo.
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