Leia
aqui a parte 1 desta entrevista
Você poderia falar sobre as diferenças deste filme em
termos de estilo, comparando-o como o anterior?
A versão de Ang Lee?
Sim. Você tentou mudar tudo, como foi...
Eu adoro o filme de Ang. Gosto mesmo porque, como cineasta, e acho que
vocês também sentem isso, é possível sentir o cinema
no filme dele. É um ótimo filme. Mas se você tem 7, 8
anos fica totalmente perdido ali. Então minha intenção
foi fazer deste Hulk um entretenimento mais geral. Você não precisa
conhecer a história do Hulk para entender este filme - espero que meninos
de 7, 8 ou 13 anos gostem dele igualmente. Então fomos mais genéricos
em relação a ele. É um filme mais acessível. E
foi isso que fiz. Meu caminho para fazer este não começou tanto
nos quadrinhos, especialmente porque sou francês e a Marvel não
era popular por lá quando eu era criança - eu lia Tintim. Mas
eu conhecia bem a série de TV e quando eles me ofereceram o trabalho
avisei isso, que eu não era grande conhecedor do Hulk. Mas aí
fiquei lembrando das coisas que eu gostava na série e cheguei à
conclusão de que era porque ele era muito humano. É muito simples.
Era simplesmente a história de um homem fugitivo, atormentado pelos
seus problemas. Era uma história de perseguição. Ele
ia de cidade em cidade, sempre perseguido, tentando recuperar sua vida. Tentando
se curar, se livrar dessa sua aflição. E ao longo dessa jornada
acaba descobrindo o herói em si, essa coisa que não é
tão boa, nem tão ruim. Então foi esse o ângulo
que busquei e que me fez aceitar o trabalho. Mas nunca foi minha intenção
fazer algo diferente só por fazer. Eu queria que o filme fosse complementar
ao de Ang. O filme dele é o filme dele - e eu, como algumas pessoas
- o adoro. Mas ao mesmo tempo não queria dar ao público um "mais
do mesmo", então busquei algo diferente. Eu queria... e é
por isso que ele não começa do começo [com uma origem]...
começar com Bruce já fugitivo. Mas não é uma seqüência.
É meio que um recomeço. É a versão de um outro
diretor do Hulk. É isso.
Ouvi falar que a cena inicial, que foi incrivelmente bem montada, passou
por várias versões até chegar à que vemos no cinema.
Você pode falar um pouco sobre isso?
Oh, obrigado. Não fui eu que montei, então é por
isso que ficou tão bom. O jeito que estávamos fazendo essa cena
antes era através de flashbacks. O filme começava antes
com Bruce Banner andando no Ártico. Você via um sujeito encapotado
cambaleando, andando, caindo de joelhos, seguindo adiante. Aí ele olhava
pra cima e dava pra ver o rosto barbado de Banner. Sua expressão é
de cansaço, depressão... estamos alguns meses depois do acidente.
E ele puxa uma arma e tenta cometer suicídio. Mas se transforma em
Hulk. O Hulk o salva. O filme começaria assim e cortaria para a cena
no Brasil. Mas ia ficar pesado demais. No Brasil ele está tentando
seguir com sua vida, achar uma cura. Aquela cena acabou brevemente nos créditos
iniciais. Aliás, todas aquelas cenas seriam introduzidas como flashback.
Mas mostramos esse filme às pessoas e todo mundo odiou. Não
dava pra entender se era uma continuação, uma coisa nova, nada.
Então tomei a decisão de cortar tudo isso. Mas essa cena do
Ártico espero que possamos colocar na Internet, em alta definição.
Assim quem sabe ela possa ganhar vida própria, como um viral, não
sei. Aí o filme ficou com aquela montagem, a introdução
veloz, dando algumas pistas do que aconteceu. E lá tem várias
surpresas, como o nome de Nick Fury e outras coisas. Eu adorei como ficou.
Chamei Cal Cooper para fazê-la, o mesmo cara que fez as introduções
de Homem-Aranha e Seven. Ficou maravilhoso.
E por que o Brasil? Por que as favelas?
Porque nós precisávamos de um lugar no mundo em que Bruce
Banner pudesse realmente desaparecer. Não sei se você já
foi a uma favela, mas é...
Tem uma certa beleza naquele caos.
Há muita beleza naquilo. É muito limpo e organizado. Eu
fiquei surpreso. Eu achei que fosse me deparar com lixo por todos os lados,
fezes, sei lá. Mas é muito limpo. Eles têm TV a cabo!
É uma loucura e servia aos nossos propósitos de ter um lugar
em que ele pudesse sumir. É um lugar um pouco à margem da lei,
com tanta gente empilhada. Eu queria a Ásia antes, pensava em Hong
Kong, mas aí soube que Batman estava indo pra lá. Então
nos voltamos para as favelas. Levou um tempo para convencer a Marvel disso,
um estúdio dos Estados Unidos, a ir para o Brasil. Porque pra eles,
sabe, o Brasil é meio terra de ninguém. Você vai levar
um tiro se for pra lá. E eu disse que não, pedi pra ir com minha
equipe primeiro, sentir o terreno. E foi tudo tão agradável...
Levei então as imagens que fiz e consegui mostrar como o lugar é
seguro pra levar atores. Provei que estaríamos bem no Brasil. E tínhamos
proteção. Nada aconteceu. O lugar funcionou muito bem dentro
das nossas intenções de um mar de humanidade. Aquela panorâmica
inicial não é computação gráfica. É
nosso helicóptero sobrevoando a favela da Rocinha durante dois minutos.
O lugar é imenso. É incrível.
Bom, esse filme tem um orçamento muito maior do que você
está acostumado. Você se sentiu pressionado?
Não senti diferença. Sério. Sabe por que? Porque
todo esse orçamento em excesso vai para os efeitos especiais. Então
as minhas ferramentas para dirigi-lo foram essencialmente as mesmas. Ok, os
atores são um pouco mais caros, mas o dinheiro pra filmar é
o mesmo. Ou um pouquinho mais, para umas gruas de ponta ou outros brinquedinhos
que eu gosto. Mas eu não tive um super salário - a grana toda
fica com o departamento de produção. Vai um pedação
com os atores, outro com os efeitos. Então é isso, é
quase a mesma coisa. Há as mesmas cobranças, os mesmos problemas.
E é engraçado, mas 150 milhões não são
mais tanto dinheiro em Hollywood, especialmente porque o dólar está
tão desvalorizado. Você chega a se sentir um filme pobre. Batman,
Indy, esses filmes têm o dobro disso. Fomos filmar no Canadá
e o dinheiro deles passou a valer mais que o nosso. A cada dia sumia dinheiro.
Eu tinha que ficar olhando o orçamento pra ver se teríamos que
cortar cenas com efeitos especiais ou coisa do tipo.
E de quem foi a decisão de mostrar tanto da luta final, aqueles
spoilers, nos trailers?
Isso é coisa da Universal. Se fosse eu, não mostraria nada.
Gosto que as pessoas descubram tudo no cinema. Mas é o jeito deles.
E eu tenho que concordar porque é um filme complicado. É um
filme que nasce meio problemático, porque todo mundo vai comparar com
o filme de Ang. É um filme em que todo mundo estava descendo o pau
há dois anos: 'ok, lá vem mais um Hulk - vamos vê-lo falhar".
Mas quando os trailers começaram essa sensação foi diminuindo.
Perguntinha boba: O que é preciso para matar o Hulk?
Não muito. Ele quase morre no nosso, não? Acho que o ponto
fraco dele é o coração. Ele é bom. E esse é
o ponto fraco de todos os super-heróis. Seus sentimentos os deixam
vulneráveis.
Qual foi a colaboração de Edward Norton para o roteiro?
O que ele escreveu que está no filme?
Ah, o diálogo é definitivamente dele. E algumas outras
coisas, como a mudança do namorado de Betty. Originalmente o personagem
de Ty Burrell seria um filho da mãe. Mas agora ele é um cara
bom que simplesmente cometeu um erro. Ed acerta muito nessas coisas, nos tons
de cinza.
Agora que o filme está pronto, quais seus próximos planos?
Pela primeira vez na minha vida - e não estou exagerando - não
sei o que vou fazer a seguir. Acabei o filme recentemente, estou sendo movido
por coca-cola com redbull. Sem dormir direito há um tempão.
Então não tenho lido nada, estou sem inspiração.
E tem a iminente greve dos atores... É meio estranho. E estou numa
espécie de limbo agora. Ninguém sabe ao certo se Hulk vai bem
ou não nas bilheterias... vamos ver.