Omelete Entrevista: Dan Glass, supervisor de efeitos especiais de Speed Racer

Depois de trabalhar na série Matrix, V de Vingança e Batman Begins, saiba o que ele preparou agora

07/05/2008Érico Borgo

Aqui no Omelete, cada cozinheiro têm suas próprias preferências no que se refere a entrevistas. Uns gostam de esmiuçar o processo de preparação de atores, entender os mecanismos de atuação. Outros gostam de discutir com os cineastas, entender motivações, referências e técnicas. Como integrante desse "grupo 2", foi com entusiasmo que realizei esta entrevista com o supervisor de efeitos especiais Dan Glass. Quem é ele? Simplesmente uma das mentes por trás das incríveis seqüências visuais de Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, além de V de Vingança e Batman Begins. Seu mais recente projeto é Speed Racer, novo filme dos Irmãos Wachowski, trabalho que ele detalha aqui ao Omelete. Aproveite!

Você divide os créditos de supervisor de efeitos especiais do filme com John Gaetta. Quem fez o quê?

É um pouco difícil definir, porque encabeçamos o mesmo departamento e trabalhamos juntos, mas John é um pouco mais focado nas idéias malucas e eu sou o cara que tem que viabilizar essas idéias e todo o resto - mas frequentemente invertemos os papéis.

Como foi seu envolvimento no projeto?

Eu nunca tinha ouvido falar em Speed Racer. Eu cresci na Inglaterra e o programa nunca foi popular por lá. Quando os Wachowski me ligaram eu fui atrás do animê e fiquei bastante surpreso com ele, especialmente porque o projeto era totalmente diferente do tipo de filme pelo qual eles são conhecidos. E isso me empolgou bastante, porque eles me disseram que queriam fazer algo distinto do que seria esperado de seu próximo projeto. E funcionou perfeitamente. É uma comédia de verdade, brilhante, super colorida e familiar.

Você ajudou na verdadeira revolução de efeitos especiais estabelecida na trilogia Matrix e definiu novos parâmetros para o gênero. Que tipo de novidades e inovações temos em Speed Racer?

O diferencial de Speed Racer é mais criativo que técnico. Procuramos maneiras diferentes e inusitadas de usar as tecnologias que já temos e não houve tanta necessidade de inventar coisas novas para executá-las. A exploração foi mesmo das fronteiras criativas, acredito.

E os conceitos que tenho ouvido falar a respeito do filme, como o "Foco Total" e o 2,5-D? Não seriam inovações?

Claro. O primeiro nós chamamos de "Campo Total" e foi inspirado totalmente nas raízes do animê original e na animação em geral. A maioria das animações tradicionais é criada através de uma série de acetatos chapados sobrepostos - é bem simples - e decidimos usar essa idéia de base e aplicá-la em movimento, como se fosse uma animação live-action. Gravamos nossos atores em primeiro plano e aplicamos fundos virtuais totalmente em foco ao fundo. É um sistema muito mais parecido com a criação de uma capa de revista, por exemplo, do que a cinematografia tradicional. Nós fizemos coisas parecidas em Matrix, mas lá havia a preocupação de realismo, de profundidade, e desta vez nós mantivemos de propósito a "estranheza" resultante dessa experiência com planos chapados. O olho lê o movimento, mas sente o tempo todo que há algo estranho ali. Esses fundos chapados, uma espécie de 3-D falso, é o que chamamos de 2,5-D - é algo criado para ser realista e falso ao mesmo tempo. Mas, claro, há momentos no filme que invertemos tudo e o fundo fica completamente desfocado. Isso foi divertidíssimo fazer porque inventamos novas maneiras de desfocar. Se o objeto que estamos desfocando ficaria arredondado quando fora de foco na vida real, aqui nós demos formas diversas a ele, quadrado, triangular... tudo em nome da estranheza visual desse mundo e da emoção. Quisemos transmitir emoção através de belas imagens surrealistas.

A trilogia Matrix é bastante orgânica, com muito trabalho dedicado à criação de humanos digitais. Aqui você trabalhou quase que totalmente com carros. Foi mais fácil?

Tecnicamente, sim. A criação de humanos digitais é fenomenalmente difícil pelo ponto de vista técnico. Mas o que fizemos neste filme que foi mais difícil foi a estilização total. Tudo em Speed Racer foi criado à mão e depois recriado no computador, todos os carros, tudo. E tudo foi criado para parecer funcional, o que é extremamente difícil. Ao mesmo tempo, as coisas nesse universo não funcionam necessariamente como funcionariam no mundo real - cores, foco, movimentos... - então pensar em tudo isso foi um exercício de extrema dificuldade. Cada quadro do filme foi alvo de discussões e decisões conscientes. Foi mesmo um desafio. E o fator tempo também colaborou para a dificuldade. Normalmente o processo é bastante linear - você prepara, você filma, você pós-produz. Em Speed Racer tudo aconteceu simultanente.

Fale-nos por favor do Green Energy, o carro da companhia brasileira Petrobras que aparece no filme e na divulgação?

O carro deles é um dos competidores na cena final do filme. Ele está repleto de merchandising, assim como vários dos outros veículos. Afinal, quisemos que o mundo de Speed Racer fosse cheio de publicidade, como um mundo centrado nas corridas realmente seria, afinal elas são tradicionalmente lotadas de patrocinadores. E o apoio internacional [da Petrobras] vai totalmente ao encontro dessa idéia e da nossa necessidade narrativa.

E o carro tem algum recurso especial?

Criamos todos os carros com duas características básicas e importantes. Todos têm bastões para salto, que permitem que o carro seja projetado no ar, e suas rodas giram 180º, o que permite que eles sejam dirigidos de lado ou de costas. Essas duas habilidades combinadas nos deram a oportunidade de criar uma verdadeira dança, uma coreografia combativa entre os veículos, que chamamos de carro-fu. É arte-marcial sobre rodas. Eles saltam uns sobre os outros, se chocam... E ao mesmo tempo é elegante e pouco violento, feito a capoeira de vocês.

Você já parou o tempo, já duplicou milhares de pessoas, já mostrou robôs gigantes em combate, agora está fazendo carros voares... O que mais te resta a fazer?

Ahahaha, tenho que admitir que no momento o que eu quero fazer mesmo é descansar um pouco. Mas esse foi um projeto incrível, algo muito interessante de se fazer depois dos três Matrix. Eu sempre tento procurar desafios totalmente diferentes dos que eu enfrentei anteriormente e Speed Racer foi perfeito nesse sentido, muito, muito diferente. Então, acho que ficarei de olho em alguma coisa dentro dessa linha como próximo projeto.

Você está trabalhando no novo de Terrence Malick, Tree of Life. Esse filme tem as qualidades que você procura num próximo projeto?

É, estou... Estou sim. Sim, ele tem. É muito diferente...

Isso é bastante curioso, já que os filmes dele não são conhecidos pelos efeitos - e subitamente ele precisa de um especialista do seu gabarito... Que tipo de desafios você enfrentará nele?

Eu sinto muito, mas não posso falar nada sobre esse filme ainda. Nada. Vamos levar mais um ano e meio até que eu possa comentar alguma coisa ainda...

Entendo. Parece promissor de qualquer maneira. Pra completar, o que você acha da eterna busca pelo sucessor do bullet-time? Não sei se você está acompanhando, mas os diretores de Adrenalina 2 andaram dizendo que estão criando o bullet-time 3-D, uma tecnologia que colocará a espiral de câmeras em um trilho, fazendo com que ela ande junto com a ação...

Certamente há muito o que aprimorar ainda naquela tecnologia e estilo visual. Mas nós sempre preferimos buscar novas tecnologias e recursos a refinar coisas que já fizemos no passado. Eu sempre opto pela direção diametralmente oposta e não tenho interesse em atualizar coisas que já fiz. Speed Racer é prova disso. Foi um passo radicalmente diferente para todos nós. É isso que nos mantém sempre interessados, eu acho.

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