Assim que folheou
a HQ de Collins & Rayner, Steven Spielberg recomendou a
leitura a Tom Hanks com um bilhete: Isso daria um
bom filme. Como Spielberg se encontrava ocupado com outros projetos,
o ator procurou o diretor britânico Sam Mendes para comandar
uma adaptação. Depois de ganhar o Oscar em 2000 pelo retumbante
Beleza americana (American beauty, 1999), o desafio de Mendes,
oriundo do teatro, seria escapar da síndrome da estréia, aquela
maldição paralisante que recai sobre alguns talentos promissores
e bem-sucedidos. Pois Estrada para Perdição, com todo
seu retrospecto, surgiu como um caminho perfeito e seguro.
Nos anos 1930,
da Depressão, dos gângsteres e da Máfia, Michael
Sullivan (Tom Hanks), um pai de família, matador temível
conhecido como Anjo da Morte, serve o poderoso John Rooney
(Paul Newman, assustador, cotado para o Oscar de coadjuvante),
chefão irlandês ligado à Chicago de Al Capone. Acolhido
por Rooney, Sullivan não questiona sua condição. Mas, um
dia, durante um ajuste de contas, seu filho, Michael Jr. (Tyler
Hoechlin, ótimo), testemunha uma execução. E a
segurança de Sullivan e sua família entra em risco.
História adaptada
A adaptação
do roteirista David Self é livre. Tanto o início
da história quando o desfecho foram alterados, em nome de certos laços
mais emocionais. Nos quadrinhos, Collins, como bom escritor de histórias
de mistério, se interessa pelo lado policial da questão, explica
as influências da quadrilha do irlandês e, em seguida, disseca com
documentos e investigações dos policiais federais a derrocada
de Looney (nome original do mafioso, como mostra um texto complementar da edição).
No filme, toda
a explicação inicial fica sintetizada numa passagem marcante,
quando a família de Sullivan comparece ao enterro de um ex-comparsa de
Rooney. Ali, no discurso de Finn McGovern (Ciarán Hinds, mais um ator
notável em meio a tantos), poucas palavras evidenciam todo o poder do
chefão. E a tônica fluente e discreta se torna a linha da narrativa.
Pode parecer paradoxal,
mas a HQ é mais movimentada do que o filme. O roteirista Max
Allan Collins busca balancear o traço denso e detalhista
de Richard Piers Rayner com ação, tiroteios e
perseguições. Uma vez que o filme adota uma postura mais reflexiva,
sobre os laços de sangue e honra que ligam o universo do crime, é
compreensiva a mudança: no papel, OSullivan abate aproximadamente quatorze
homens para sair do escritório de Frank Nitti; na tela, Sullivan se esquiva
e foge sem disparar um único tiro.
Todavia, não
se trata de demérito. Nas abordagens escolhidas, tanto o original quanto
a adaptação se saem bem. A HQ é memorável por tratar
OSullivan como um Lobo Solitário claramente inspirado no mangá
de Kazuo Koike e Goseki Kojima. E a melhor tirada do filme é colocar,
como contraponto à aproximação entre Sullivan e Sullivan
Jr., a relação conturbada entre John Rooney e seu filho Connor
(Daniel Craig). Aliás, Connor representa,
no filme, um personagem bem diferente do mero assassino da HQ. E o matador sinistro
vivido por Jude Law, a síntese de todos os atiradores
que forraram as páginas, também possui papel importante. Nos dois
casos, as personagens deixam de ser meras coadjuvantes e ganham importância
própria.
Vale ressaltar,
também, a qualidade técnica e estética do filme. Maior
do que a questão narrativa, o impacto visual criado pelo veterano diretor
de fotografia Conrad L. Hall, vencedor do Oscar da categoria
com Beleza Americana, cria seqüências de antologia, como
o tiroteio na chuva. Mas nem tudo são flores. O maior problema de Estrada
para Perdição são os seus rivais de comparação.
O gênero
dos filmes de gângsteres sempre produziu obras-primas. E diante do drama
vivido por Michael Corleone (Al Pacino) em O
Poderoso chefão (The Godfather, de Francis
Ford Coppola, 1972), a perdição de Michael Sullivan não
arrepia. Diante da intensidade da morte de Jim Malone (Sean Connery) em Os
Intocáveis (The Untouchables, de Brian De Palma,
1987), a dramaticidade de Mendes soa apressada, como na conversa entre Rooney
e Sullivan, antes do encontro final. Se um diretor se propõe a contar
uma história épica sobre a Máfia, tal como Estrada
para Perdição, deveria seguir exemplos como Era
uma vez na América (Once upon a time in America,
de Sergio Leone, 1984). Não se engane, Mendes merece vários Oscar
(e provavelmente levará), mas não supera a narrativa dos mestres.