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Buscapé
nos anos 60 (Luis Otávio)
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Mané
Galinha (Seu Jorge)
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Buscapé
e a cocota Angélica
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Bené
(Jonathan Haagensen), o malandro mais responsa do morro
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Bem recebido em
sua recente exibição no Festival de Cinema de Cannes, o filme Cidade de
Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, chega agora
a seu país de origem. No entanto, ao contrário de muitos nacionais, este não
é um filme de arte feito para agradar platéias de festivais de cinema estrangeiros,
ser indicado para Oscar (perdendo!) e testar a paciência do público brasileiro.
Não, trata-se de um genuíno exemplar de bom cinema!
Adaptação do livro
homônimo de Paulo Lins (este, por sua vez, baseado em fatos reais), Cidade
de Deus mostra o surgimento e evolução do crime organizado na comunidade
homônima (que fica na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, caso os não-cariocas
estejam se perguntando) entre a segunda metade dos anos 60 e o final da década
de 70 pela ótica do protagonista/narrador Buscapé, um jovem da Cidade
de Deus apaixonado por fotografia que deseja levar uma vida honesta, apesar
de toda a brutalidade em seu redor.
O filme é desconcertante.
Mostra toda a violência das favelas sem meias palavras ao mesmo tempo em que
evita cuidadosamente cair na armadilha de mostrar sangue e tripas. Isso não
o torna menos impactante, uma vez que situações como crianças pequenas matando
pessoas com a mesma falta de cerimônia de criminosos calejados é algo difícil
de digerir, não importa como sejam mostradas. O filme não é indicado
para pessoas sensíveis.
A estrutura narrativa
do filme é brilhante, iniciando-se em um momento em que o protagonista está
correndo enorme risco de morte. Ele, então, começa a relembrar todos os acontecimentos
que levaram a este ponto até retornar ao momento exato de onde saíra, que é
o clímax da fita. Tudo é contado com uma naturalidade que evita que o espectador
mais distraído se perca, mesmo considerando o grande número de personagens.
O filme também usa com habilidade os seus fatos reais, chegando a incorporar
uma passagem do Jornal Nacional de 1979 em sua história.
A produção também
se revela surpreendentemente cômica em certos momentos, destaque para as seqüências
em que Buscapé decide deixar de ser otário e tenta iniciar uma carreira criminosa.
Algumas piadas são geniais, mas uma delas em particular deverá colocar todos
os críticos de São Paulo contra o filme. Aqui no Rio, por outro lado, ela foi
aplaudida durante a pré-estréia [nota de um editor paulistano: aqui em São Paulo,
na primeira pré-estréia do filme, a cena TAMBÉM foi apreciada]...
Não bastasse isso,
o filme tem uma das melhores fotografias da história do cinema brasileiro. Nestes
tempos pós-Gladiador em que Hollywood parece acreditar que câmeras com Mal de
Parkinson e cortes a cada três segundos são sinônimos de boa fotografia, ver
algo criativo, ousado e inteligível em uma fita brasileira é motivo de
orgulho.
Vale a pena também
mencionar os atores. Ao invés de recorrer a um elenco Global que seria tão artificial
em uma favela quanto o é em uma novela da TV, os produtores recorreram a um
expediente inovador: escolher os atores entre os próprios habitantes de comunidades
de baixa renda e ensiná-los o ofício especificamente para o filme. Deu certo!
Os jovens estão todos bastante convincentes em seus papéis e vários revelam-se
muito talentosos! Alguns até demais, basta comparar o articulado ator seu
Jorge, que interpreta o marginal Mané Galinha, com a sua contraparte
da vida real (que aparenta, na mencionada entrevista para o Jornal Nacional,
ter sido uma pessoa com grande dificuldade em se expressar).
Aliás, aqui reside
o único problema do filme. No esforço de manter o realismo, todos os atores
falam usando as expressões da favela dos anos 70! Os diálogos do filme serão
quase incompreensíveis em algumas regiões do país (e se for exibido em Portugal,
recomendo que seja legendado...). Além do favelês já ser complicado por si
só para quem não é da área, o uso de expressões com data de validade vencida
como cocotas complica ainda mais. Entretanto, é um problema menor e justificado.
(Cocotas?!? As
pessoas realmente falavam assim na época? Que horror!)
No final das contas,
é um filme nacional interessante, bem escrito e que deveria servir de modelo
para as produções futuras. Talvez a melhor produção brasileira do ano e uma
das melhores dos últimos tempos. Merece ser conferida!
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Cidade
de Deus (Brasil, 2002)
Direção Fernando Meirelles, Katia Lund
Fotografia César Charlone
Roteiro Bráulio Mantovani, baseado em livro de Paulo Lins
(compre
aqui)
Trilha Sonora Antonio Pinto, Ed Côrtes
Elenco Matheus Nachtergaele, Jeffchander Suplino, Jonathan Haagensen,
Daniel Zettel, Alexandre Rodrigues, Leandro da Hora, Phellipe Haagensen,
Seu Jorge, Gero Camilo, Babu Santana.
Duração 130 min.
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Imagens ©
O2 Filmes