Entrevista (Interview, 2006) é a refilmagem do longa-metragem homônimo (2003) de Theo van Gogh, cineasta holandês assassinado por um extremista islâmico em 2004. Gogh iria realizar a versão inglesa, mas com a sua morte, o ator Steve Buscemi assumiu a tarefa de fazer o remake. Ele até homenageia Gogh utilizando a atriz Katja Schuurman (que estrelou a versão original) em uma pequena participação e com uma referência ao nome do cineasta falecido. Mas nada disso consegue impedir que o resultado seja decepcionante. Depois de um início interessante, a trama vai se tornando cansativa e sem propósito. O que era para ser um jogo de gato e rato psicológico transforma-se em um pequeno conflito doméstico.
Buscemi interpreta Pierre Beders, um conceituado jornalista político. Mas quando ele é designado para entrevistar Katya (a gatíssima Sienna Miller), uma famosa e bela atriz de novelas, fica extremamente ofendido. Acostumado ao mundo da política mundial, tem de lidar com uma pessoa mais conhecida pelas fofocas nos tablóides do que pelo talento. Nesse choque de dois mundos, no entanto, os dois encontram uma conexão mais profunda. Durante o curso de um dia, trocam revelações e ofensas, em diálogos repletos de sarcasmo, intriga e tensão sexual.
Com essa premissa, o filme prometia incendiar a telona. Basta imaginar como seria se Arnaldo Jabor entrevistasse Paris Hilton, por exemplo. Infelizmente, Buscemi não soube dosar o ritmo da narrativa. A cada nova seqüência a história vai perdendo a velocidade. A monotonia entra em cena, causando longos bocejos e olhadas estratégicas para o relógio. Fica evidente que Buscemi entrou em marcha lenta com a intenção de causar impacto pela forma inusitada que a trama se conclui. Uma estratégia equivocada.
O roteiro de Gogh funciona no original, pois ele apostou no suspense. Eram duas pessoas com personalidades fortes que sempre tinham a última palavra em qualquer assunto. Os diálogos são extremamente ácidos e nele parece que a qualquer momento o conflito resultará em algo dramático. Ao mesmo tempo há uma forte tensão sexual entre os dois. Mas no remake Buscemi decidiu amenizar o caráter dos protagonistas, tornando-os clichês do repórter mal-humorado e da estrela drogada com um comportamento de prostituta. Faltaram elementos que fizessem o espectador se envolver com os personagens. Era necessário tratar o melodrama com mais sensibilidade. E o sexo foi substituído por uma subtrama batida entre pai ausente e filha.
Essa culpa não pode ser creditada às interpretações. Steve Buscemi tem um bom desempenho, recriando um personagem que ele já fez em outras produções. O profissional descontente com os rumos que sua vida tomou que, com o passar do tempo, tornou-se uma pessoa cínica e arrogante. Quem surpreende é Sienna Miller. Sua atuação é repleta de nuances e contradições. Ela demonstra que por trás de estrelas como Lindsay Lohan e Britney Spears, existe um ser humano em constante conflito com a imagem criada pelos marqueteiros de plantão. Muitas vezes a saída é interpretar a imagem.
Na função de diretor, Buscemi consegue extrair todas essas camadas de personalidade de Miller. Esse é o quarto projeto que ele dirige, demonstrando segurança na função. Uma pena que não teve o mesmo cuidado com o roteiro.